Gente que vira bicho, bicho que vira gente…

De colocação em colocação o causo ganhava detalhes e contornos cada vez mais interessantes, onde a cultura popular acabava por apropriar-se de um acontecimento recente explicando-o baseado num sincretismo de cosmovisões distintas, manifestação típica dos rincões da floresta amazônica fortemente influenciada por sua raiz indígena.

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Gente que vira bicho, bicho que vira gente... 3
Imagem: Yashas Narayan

Durante os meses de abril e setembro de 2017, estive imerso na realidade da Reserva Extrativista Mapuá, nas florestas ao sul da Ilha do Marajó/PA, desenvolvendo a minha pesquisa de mestrado acerca das atribuições medicinais conferidas à fauna pelos agroextrativistas daquela localidade. Acolhido com familiaridade por um povo gentil e extremamente conectado com o ambiente natural, vivenciei inúmeros ‘causos’ e um especificamente me marcou: o causo da onça preta.

Relatado com naturalidade em todas as colocações que eu visitava às margens do rio Mapuá, este causo havia ocorrido, segundo relatos, entre os anos de 2015 e 2016,  aterrorizando inúmeras famílias haja vista todo o mistério que pairava sobre a aparição de uma velha onça preta, sem pelos em muitas partes do corpo, extremamente astuta, silenciosa e com predileção aos cães de caça das famílias.

Os relatos dão conta que a onça chegava silenciosamente, sempre na escuridão, e colocava todos da casa sob um forte sono que derrubava até os caçadores mais experientes da região. Por este motivo, ninguém conseguia espantá-la ou capturá-la, na tentativa de proteger suas famílias e criações. O animal deslocava-se por longas distâncias na mesma noite, aterrorizando comunidades inteiras, pelo mistério e poder que trazia consigo.

Apropriadamente, destaquei em meu trabalho o ‘imaginário do bicho preto’ tão forte naquela localidade, onde ao mesmo tempo em que os animais com essa tonalidade corpórea são temidos, também são vistos como poderosos no combate às influências espirituais maléficas. Sem que eu tocasse no assunto, o causo da onça preta sempre irrompia nas mais distintas localidades, o que me impressionou pelo alcance dos ataques do animal, já que eu percorri desde as cabeceiras do rio Mapuá, até a ‘boca’, onde se encontra com o rio Aramã.

Numa localidade em que as manifestações mágico-religiosas estão presentes no cotidiano através das figuras emblemáticas de curadores, benzedores e até feiticeiras, alguns fatos levaram as pessoas a dizer que essa não era uma onça normal, ‘do mato’, mas sim uma ‘onça-magia’, algo sobrenatural que passeava pelas roças, casas e telhados imperceptivelmente e adentrava as casas para buscar o cachorro debaixo da rede do dono. Coisas que só seriam possíveis de serem feitas por um ser humano magicamente habilidoso…

Há quem diga que ela entrava na casa e podendo levar qualquer pessoa dali, sempre optava pelo cão que, muitas vezes, era capturado dormindo embaixo da rede do dono. Este só se dava conta do acontecido por conta do grunhido abafado do animal capturado e quando se realizava a busca ao redor da casa, não havia nem sinal do cão vitimado, nem do animal imponente e perigoso. A onça passava pelos patos, galinhas e porcos da casa e ia somente buscar os cachorros, revelando uma predileção inusitada.  Segundo os relatos o animal parecia sequer atacar os bichos da mata como veado, cotia e paca…ela gostava é de cachorro!

De colocação em colocação o causo ganhava detalhes e contornos cada vez mais interessantes, onde a cultura popular acabava por apropriar-se de um acontecimento recente explicando-o baseado num sincretismo de cosmovisões distintas, manifestação típica dos rincões da floresta amazônica fortemente influenciada por sua raiz indígena.

Pouco a pouco os relatos dissociados iam se somando como num quebra-cabeças e no limite oposto da RESEX, às margens do rio Aramã, soube que vivia uma senhora negra de oitenta e poucos anos, chamada de Velha Chica, que mal saía de casa dada sua saúde frágil. Em sua infância havia sido atacada por um cão feroz da família, nutrindo grande raiva por esses animais desde então. Por este motivo, na sua casa não se criava cachorro. Certa manhã, um neto desta senhora percebeu que ela estava mal do estômago e que havia vomitado um tufo contendo pelos, ossos e unhas, e isso se tornou frequente intrigando toda a família com o acontecido. De manhã suas unhas apareciam sujas de barro, seu corpo tinha raspões de quem se desloca destemidamente pela mata e muitos espinhos nos pés, coisas que não eram comuns, pois ela nem saía mais de sua rede.

Certa vez um morador alvejou uma onça que rondava sua casa e jurava que havia abatido o animal, viu até rastro de sangue, mas nada de encontrar o bicho. Tempos depois souberam que a Velha Chica estava com dor nas costelas exatamente onde seria o local do tiro na onça e que quando foi levada doente para a cidade de Macapá, os médicos descobriram que havia chumbo dentro dela sem que houvessem ferimentos aparentes pelo corpo.

A velha era do Aramã e vinha atacar no Mapuá. Segundo os moradores, as localidades por onde a onça passava eram os lugares preferidos da senhorinha quando jovem, onde havia festas e reuniões. Familiares da senhora atestaram a história, atribuindo os ataques à negra do Aramã. Não se sabe se à pantera, negra, ou à mulher. Mistérios da floresta que só quem vive e se apropria do ambiente de modo muito íntimo pode conceber e compreender adequadamente. Gente que vira bicho e bicho que vira gente, num universo onde a natureza e a cultura tornam-se uma única dimensão, que guia as relações entre todos os serves vivos em sincronicidade e respeito mútuo.

* Publicado em “Quando pensa que não…” : contos, crônicas e causos em etnoecologia. Organizadores: Francisco José  Bezerra Souto…[et al.], v.3, Belém: UFPA. 2018. 212p.

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Etnobiólogo.

Especialista em Antropologia e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Mestre em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Pará.

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