A existência da velhice

Toda sociedade tende a viver, a sobreviver; exalta o vigor e a fecundidade, ligados à juventude; teme o desgaste e a esterilidade da velhice (BEAUVOIR, Simone de. A velhice)

Alcançar o fundamento interno de reorganização espacial, transgredir a disparidades do corpo, destruir criações e heranças emotivas e memorialísticas, conviver com a solitude, se emancipar,  se desconhecer, se reinventar. Envelhecer é ação da disputa derradeira – apesar de tantas outras ditas essenciais durante toda existência –, pois é corpo que teima em abrir os olhos, em pulsar, e despertar como signo de resistência.

Beauvoir (1990) credita à sociedade uma visão que conduz ao fim, no não reconhecimento d@ idos@. E em contradição disponibiliza para esse grupo uma “melhora” e “avanços” para saúde, para a longevidade. Ganha-se tempo, perde-se vivência? A pensadora francesa sentencia: “a “sobrevivência bruta” é pior que a morte.” (p.337). Essa sobrevivência bruta traduz as relações da velhice com uma sociedade que engendra e busca a idealização da juventude, e no qual impera a funcionalidade dos seus indivíduos.  A “tragédia da velhice”, como afirma Beauvoir, é a percepção de um sistema que aniquila, que limita, que reduz a existência maquiada pelo trabalho e a fadiga. Envelhecemos tod@s com uma compreensão limitante de potencialidades, e os paradigmas dessa maturidade é conjugada também pelos espaços dessa disputa – refletindo onde você vive sua velhice, ou onde você quer vive-la. Mudar a vida, como propõe a autora, é transgredir para além da resistência.

Si Seguimos Vivos é um documentário de Juliana Fanjul, lançado em 2010 e teve a produção pela Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños – sediada em Cuba. Um documentário que permite-se envelhecer ao entrar no cotidiano de um asilo e tentar reproduzir os dias daquelas pessoas. O filme que inicia com uma extrema-unção com padres, feiras e enfermeiras transitando por uma vida que termina e o dia que começa num asilo. Mas que após essas primeiras cenas quase tod@s desaparecem e o isolamento impera. Mas como é, e do que estamos falando quando pensamos na representação da velhice?

Na coluna La Mirada Antropológica José Ignacio Bozano Herrero tenta refletir sobre o tema, no qual reproduzo um trecho: “En mi opinión, como no puede ser de otra manera ante la apabullante diversidad humana y cultural existente, existen distintas vejeces, o distintas formas de vivir la vejez y reconocerse en ella. Como en la mayoría de atributos que aplicamos a personas o grupos, la imagen que se proyecta depende tanto de la consideración que cada individuo posea de sí mismo y lo que quiera transmitir a los demás, como de la propia interpretación que hagan los demás sobre dicha imagen (fuertemente condicionados por los esquemas mentales dominantes)”. Envelhecer, portanto, também é uma consideração interna-pessoal de um entendimento de detalhes e gestos ativos do pensamento e do corpo. Busca-se o detalhe como os elásticos de uma cadeira, como o batuque na mesa e no corpo, como o sinal da cruz decorado para enlaçar um autocontrole ativo e isolado. É cantar um bolero e ser surpreendida pela sua memória. Todas essas cenas do filme resume-se na pergunta de uma idosa: Porque me trouxeram para cá?

A condição da velhice para uma sociedade “jovial” é considerar, por exemplo, os meandros institucionais e comunicacionais que vertem a linguagem para signos invertidos e distantes do seu valor semântico. Transcende-se alguns enfoques, numa condição praticamente desrespeitosa, que demandam uma atenção e desqualifica aprofundamentos: “a terceira idade substitui a velhice; a aposentadoria ativa se opõe à aposentadoria; o asilo passa a ser chamado de centro residencial, o assistente social de animador social e a ajuda social ganha o nome de gerontologia. Os signos do envelhecimento são invertidos e assumem novas designações: “nova juventude”, “idade do lazer”(1999, p.61). Ação publicitária, visão que ilude, trama que, muitas vezes, envolve o indivíduo como mercadoria. A necessidade da Reafirmação cidadã passa por essa reavaliação de como lidar e encarar a velhice.

Envelhecer na sociedade contemporânea é se perguntar: “para onde vou?! Não tenho para onde ir”.

Assista o filme na plataforma Retina Latina

Referências

BEAUVOIR, Simone de. A velhice. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1990.

DEBERT, Guita Grin. A reinvenção da velhice: socialização e processos de reprivatização do envelhecimento. São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1999.

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Jornalista. Fronteiriço. Mestrando em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

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