Escola sem partido, o delírio da hegemonia

Desde há meses se está discutindo no Brasil sobre uma proposta de lei chamada “Escola sem partido” que fundamentalmente propõe o seguinte:

Resultado de imagen de escola sem partido

Devo reconhecer que inicialmente me sinto atraído por algumas das ideias que na proposta se desenvolvem. Não doutrinar os estudantes, não fazer propaganda política ou apresentar as diferentes teorias existentes ao respeito do tema trabalhado na sala de aula (ainda que não sei de onde vai sair o tempo necessário para aquilo) me parecem elementos interessantes para serem debatidos para o devir da educação no Brasil.

No entanto, quando chapeuzinho vermelho (desculpem pela cor escolistas sem partido) faz a proposta deixa ver o rabo de lobo que pretendia esconder. Paradoxalmente a proposta que realizam quer mostrar a necessidade de uma educação sem viés ideológico enquanto fornecem o deles. Tentarei analisar brevemente minha visão sobre este assunto desde dois pontos bem básicos.

  1. A neutralidade política, religiosa e de gênero que a “escola sem partido” pretende, lamentavelmente, só existe nos contos e nos amplos espaços da imaginação que todos temos. A cotidianidade, pelo contrário, nos mostra que na sociedade existe uma hegemonia em cada uma das áreas: a capitalista na política; a cristã na religiosa; e a machista-homofóbica na de gênero. Portanto, estabelecer uma “neutralidade” nas salas de aula converter-se-ia no delírio de cada uma delas, ao mostrar a realidade social desligada dos fatores ideológicos e históricos que os provocaram, deixando a hegemonia como uma coitada inocente dos fatos. Imaginar a neutralidade nas salas de aula, significaria eliminar a complexidade dos processos que dão forma à história, deixando os fatos isolados como se nada tivessem a ver entre eles.
  2. Por outro lado, na proposta da “escola sem partido” se pode cheirar a grande preocupação destes, a educação moral. Mas até onde chega a educação moral? Quais implicações tem? É possível (e desejável socialmente) deixar a educação moral apenas nas mãos dos progenitores? Muitas perguntas que deveriam ser profundamente discutidas antes de tomar uma decisão, ainda mais uma proposta de lei que pretenda regularizar de forma legal a educação de qualquer lugar.
    A educação moral não é um elemento que permaneça isolado de outras matérias que são fornecidas pelo sistema educativo. Ela é influenciada pelos saberes que vamos acumulando, os quais permitem que construíamos nosso edifício conceitual e perceptual que nos dará forma como sujeitos e através dos quais estabeleceremos nossos valores morais sobre o que é desejável ou não. É impensável poder desligar o saber moral dos outros saberes. Além disso, a formação moral poderá ser influenciada pelos pais, mas nunca terão (ainda que o resto do mundo quisesse) a exclusividade da moralidade de seu filho, pois, queiram ou não, ele é um sujeito com uma certa autonomia que lhe permitirá formar sua própria moralidade conforme aos conhecimento que for atingindo na sua vida.

Se agora fazemos uma mistura com os dois pontos anteriores, poderemos entender melhor a proposta da “escola sem partido”. Desde minha perspectiva, não é mais do que tentar virar em objetivo elementos subjetivos de uma determinada tradição, a hegemónica. Coloquemos um exemplo para concretizar a ideia.

Uns pais podem oferecer uma educação moral na qual o homossexual é considerado como um doente, portanto qualquer professor que falasse sobre a igualdade sexual estaria ultrapassando os limites da educação moral do filho deles. Absurdo ou delírio? Eu diria que uma mistura das duas. Um delírio absurdo fortalecido pelo silencio da mídia, que faz o favor evitando o grande debate que tem por trás o projeto de lei.

Só tenho falado sobre a questão através da igualdade sexual, mas não podemos esquecer que por trás da “neutralidade” se esconde apagar das salas de aula as discussões sobre raça, género, religião ou política que se espalham pela história do Brasil e que tão necessárias são para compreender de aonde se vem e para onde se vá. Para modificar o futuro precisamos conhecer e discutir o passado.

Com esta postagem não pretendo diminuir a importância que a educação moral tem na formação das pessoas, mas colocar que os direitos humanos, a igualdade e o respeito aos outros está mais além da educação moral que um pai queira fixar no seu filho. Colocar a moralidade de uns acima dos outros já trouxe aberrações como os tratamentos para heterossexualizar homossexuais, “higienizar” à população preta ou legislar sobre como as mulheres têm que tomar banho de mar.

Quem queira instruir a seu filho moralmente, pode fazê-lo em casa, mas na escola se deve trabalhar sobre elementos e valores individuais e sociais baseados na igualdade, o respeito e a liberdade. A moralidade de uns não pode passar por cima dos outros na escola.

  • Anteriores posts
Autor

Licenciado en Pedagogía por la Universidad de Sevilla.

Doctorando en Difusión de Conocimiento por la Universidad Federal de Bahía, Brasil.