Entre a espuma e os vermes. Pensando relações no noroeste amazônico a partir da pandemia

Há um mito Baniwa que narra a origem das nações indígenas do Rio Negro e o surgimento dos brancos.

relações no noroeste amazônico a partir da pandemia
relações no noroeste amazônico a partir da pandemia

Tenho vivenciado uma experiência no noroeste amazônico, região que abriga 11 terras indígenas (8 homologadas, 2 declaradas e 2 em fase de estudo/identificação). Esses territórios se localizam no Alto e Médio cursos do Rio Negro e afluentes e somam mais de 20 milhões de hectares, abrangendo os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro, Barcelos e Japurá, todos no Estado brasileiro do Amazonas. A região faz fronteira com Colômbia e Venezuela e é conhecida por suas grandes distâncias e lugares de difícil acesso, bem como pela diversidade e quantidade de povos que a habitam. São mais de 40 mil indígenas, de 23 etnias e 4 famílias linguísticas (Tukano Oriental, Arawak, Yanomami e Nadahup).

De maneira geral, pode-se dizer que no pensamento indígena rionegrino as relações sociais são concebidas de maneira ampliada, abrangendo não apenas relações humanas. Associam-se demiurgos, encantados e outros seres em relação direta, não apenas a ação humana sobre a natureza visível e em geral passiva. A partir desta gama de relações explicam-se inúmeros fenômenos, que mais do que meramente “naturais” ou casuais, são entendidos a partir de ontologias em relação, inclusive os agentes patogênicos. Assim, sentimentos, pensamentos, emoções, encantados, espíritos, seres da floresta, além do que chamamos microrganismos, estão ligados à causa das doenças e, também, com sua cura. As qualidades de todas estas relações sociais implicam diretamente no bem-estar ou o mal-estar dos seres envolvidos.

O xamanismo ou pajelança na região do Rio Negro, chamado aqui predominantemente de benzimento, abrange desde conhecimentos tópicos sobre as ervas até cânticos, rezas, rituais, relações com encantados e forças da natureza, desdobramentos anímicos, visões e viagens oníricas, transmutações, enfim. Este conjunto de conhecimentos e práticas não raro difere entre as etnias, entre os saberes dos diferentes especialistas e em relação ao repertório acumulado nas relações interétnicas. E aqui inclui-se o saber não indígena, seja o saber médico, o conhecimento sobre outras ervas, originárias de outras partes do mundo, seja o saber espiritual ou religioso, no caso aqui majoritariamente cristão. Este último ponto vale uma abordagem mais dedicada, em outra oportunidade. Por ora, voltemos ao benzimento.

Grosso modo, durante o benzimento, o pajé ou benzedor remonta às histórias do começo do mundo, seja por meio do paricá, do caapi, do tabaco ou outro veículo através do qual possa encontrar onde está a doença. O diagnóstico, então, surge das cosmologias, dos mitos, dos seres, das gentes e suas relações. O benzedor retoma a história da relação malfadada que originou a mazela e se houver cura e ela for possível para o caso, ele saberá.

A chegada do novo corona vírus na região do Rio Negro tem mobilizado todos esses saberes. Não é de hoje que os indígenas, daqui e de outras partes disso que chamamos Brasil, se vêm diante de doenças sem controle, sem médicos de branco, mas nunca deixaram de ter seus saberes e seus especialistas. A fala corrente dá conta dos que foram dizimados, mas raramente se houve narrativas sobre os que viveram e os que vivem, sobre os conhecimentos e alianças com a natureza e seus seres, que ao longo da história têm mobilizado para o enfrentamento, para a autonomia, para cuidar dos seus. Além da lembrança da chegada dos brancos e as mazelas do contato, as epidemias anteriores deixaram sobreviventes que ainda podem contar as histórias que atravessaram gerações. Assim, em muitas partes é sabido o que doença de branco pode causar e mesmo as limitações de nossa medicina.

O saber indígena, seus conhecimentos e as relações que estabelecem com a natureza e todos que nela há, tem relatado curas ao longo da história, e agora não é diferente. Processos que talvez nunca saibamos, porque não nos relacionamos com isso. Ao contrário, comumente vemos esta região e seus povos pelo signo da falta, da escassez. Como já escreveu Eduardo Viveiros de Castro, é preciso torna-los pobres, para fazê-los menos índios. Quanto menos índio e mais pobre, logo brasileiro e despossuído e as riquezas que eram suas e porque preservadas eram de todos, exploradas serão de poucos e, logo, de ninguém.

Assim, mais uma pandemia avança, tentando de novo o que a história não conseguiu. Para os que acham que é muita terra para pouco índio, quanto menos índios houver, melhor se justificam as invasões, que não param e seguem avançando. Para aqueles que não entendem as relações entre os povos indígenas e seu território e todos os seres, para quem estabelece relações com indígenas e territórios sob o signo do recurso, da exploração, do consumo, da exclusão e da falta, a história se consuma em extinção inexorável. Um projeto de avanço secular que prossegue. Quando não se pode matar, a opção é deixar morrer.

E agora, em tempos de pandemia, o problema não é apenas a falta deles de assistência à saúde, de acesso aos recursos do branco, mas também a nossa falta de entendimento da doença, das relações que a causa e a alimenta; das relações que devem ser estabelecidas para sua cura, para a reconciliação com ela e com o que a causa, para que passe e sigamos. Por um lado, a desvalorização e a invisibilidade do saber indígena, as relações que tem estabelecido e as curas que tem buscado e encontrado. Por outro, as faltas do saber não indígena, as negligências, o despreparo, a incompetência, a soberba, os usos políticos apesar das vidas, que nestes momentos caem como uma luva nas mãos oportunistas. De um lado e de outro, relações estabelecidas e entre ambas, a indiferença.

E nisso, o que se espera é que estejamos todos conscientes do que nos cerca, os seres e as relações (de poder, sobretudo). Devemos lutar pelos direitos indígenas, porque são direitos e por compromisso ético e histórico. Mas sem estabelecer com isso a relação de desamparo, de ruína, de deterioração, que é a relação que adoece, mas da parceria, da solidariedade, da fraternidade e do apoio mútuo. Estabelecer uma relação com os ancestrais brancos – não os genealógicos, claro esteja, mas civilizacionais – invasores, déspotas e assassinos, admitir este passado, manchado de sangue inocente que compõe nossas memórias fósseis. Com isso será possível reconhecer a continuidade deste caminho, pavimentado por nossa indiferença e só assim se poderá recobrir este chão com o suor do trabalho em prol dos povos originários, estabelecendo com eles e sua luta novas relações. Não se deve esperar que quem tem a culpa pelo mal assuma a responsabilidade por combatê-lo. Essa é nossa.

Há um mito Baniwa que narra a origem das nações indígenas do Rio Negro e o surgimento dos brancos. Em uma versão, ambos surgiram do mesmo modo, da cachoeira Uapui, e por esta origem comum, os brancos surgidos da espuma branca do rio são hoje parceiros. Em outra versão, a cobra grande, casada com um demiurgo, teve um indígena por amante e foi, por isso, ferida de morte. Das feridas surgiram tapurus, vermes brancos, que deram origem a pessoas brancas. Estas, como surgiram do inimigo, nunca gostarão de índios, invadirão suas terras, se comprazem com suas mortes e serão o inimigo. Assim, como se dão as relações podemos perceber quem são os filhos da espuma branca ou os descendentes dos vermes da traição e da morte.

Certa feita ouvi de Ailton Krenak que se você estabelece com as coisas uma relação de propriedade, se você é da civilização da mercadoria, então você é branco, não importa a cor da sua pele.

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Doutorado em andamento pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ).

Mestre em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ).

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