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Proponho seguir uma linha que resgata a experiência a partir da leitura dos textos, respeitando tanto a autonomia estética como o vínculo social dessa produção. A reflexão é sobre a Ibero-América, a cultura e suas identidades abertas, um mundo que absorve e gera novas formas e sentidos, a escrita da América inscrita nas suas diferenças.

Essa experiência nasce do susto ontológico que durante a expansão ultramarina ibérica inaugura duplamente a modernidade e a América, antes mesmo do cartógrafo Martin Waldseemüller publicar sua Introdução a cosmografia e as quatro navegações de Américo Vespúcio (1507), que dá nome ao continente – uma homenagem ao navegador português. Esse “nascimento” não só traz a oposição entre Velho e Novo Mundos como expande os domínios do Ocidente num ritmo diferente.

Cruzando o Atlântico, os europeus imaginaram um novo edifício cultural para as terras de um continente virgem, desconsiderando a experiência autóctone que, resistindo ao domínio exógeno, infiltra-se no que se pensou ser a transposição de uma cultura passada para novas terras. Transplantado o edifício, a América contém o material para construir o que, até então, era apenas matéria onírica barrada pelo acúmulo de experiência num sem-espaço para novas formas surgidas no Renascimento.

São as infiltrações que caracterizarão quem habita o edifício transplantado, isto é, a América. No encontro destas culturas surgem resistências à racionalização vinda de fora, produzindo formas e movimentos novos para quem não domina a escrita, esse mecanismo de regulação utilizado pelo Estado. Defendem-se através da oralidade e não aceitam a desagregação de suas tradições pela burocracia do Estado.

Olhando através das fissuras, procuro formas no cruzamento de distintas experiências, mesclas enão a síntese do pensamento ocidental que aumenta sua potência à medida que o Ocidente diminuí seu domínio. Esse mundo e esse pensamento, melhor, esses mundos e pensamentos têm um nome: América, que continua postergando sua realização para o futuro.

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Autor

Doutorando em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, interessado na história intelectual, pensamento e teoria social.