Desejos de ano novo para a universidade pública

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Desde sua gênese, a universidade pública é confrontada por diferentes ordens normativas e lógicas culturais, que se manifestam nas formas de direcionamentos conflitivos em seus propósitos e de crises identitárias em sua relação com a sociedade.

Na contemporaneidade, somam-se aos desafios historicamente presentes nessa instituição implicações como as da ascensão da ultradireita ideológica e da crise da pandemia da Covid-19. Essencialmente, tais tendências se integram à crise estrutural resultante da intensificação do capitalismo universitario e, mais profundamente, da inserção da universidade em um projeto de sociedade moderno/colonial.

O cenário incertezas e controvérsias em que a universidade pública se encontra dificulta vislumbrar perspectivas positivas para o seu futuro, sobretudo que ultrapassem a racionalidade dominante. Por isso mesmo, é urgente que não deixemos de idealizar uma instituição que, no lugar de suprimir, compreenda a multiplicidade de funções que lhe podem ser atribuídas; incluindo seu papel no debate sobre futuros alternativos e sua contribuição para a existência de um mundo no qual diferentes mundos possam coexistir.

Para 2022 – ano em que ocorre a Conferência Mundial de Educação Superior – resgatamos a fala1 do ativista social, líder político e professor da Universidad Autónoma de México, Imanol Ordorika, em uma das sessões do Centenário do Movimento de Córdoba, que ocorreu em 2018. São nove pontos que, em sua essência, resgatam os princípios desse movimento político, social e cultural que ecoou de diferentes formas na América Latina e que enfatizam a demanda pela decolonização, democratização e desmercantilização da universidade pública contemporânea:

Boa tarde. Imanol Odorika, da Universidade Nacional Autônoma do México. Concordamos em muitas questões que foram levantadas nos últimos dias. Com preocupação, vejo nos documentos de quase todos os eixos temáticos, textos com ideias antigas, imprecisas e com propostas muito vagas. Receio que, em particular nesta Conferência Regional de Educação Superior (CRES), […] em que estamos há cem anos da reforma de Córdoba, temos que apresentar afirmações e ideias muito precisas. Eu proponho alguns, de uma maneira muito específica.

Um: Temos que reconstruir uma identidade, uma tradição latino-americana de universidade, que está mais ou menos corroída. Para isso é essencial que, assim como na reforma de 1918 romperam com a mitificação da Igreja Católica, agora desmistifiquemos o mercado, não apenas como o objetivo final da educação superior, mas como o elemento regulador das universidades e dentro delas.

Dois: [É necessário] um processo de descolonização da universidade, no que diz respeito ao modelo elitista de universidade de pesquisa, como Harvard, Stanford, […]. É o modelo que querem impor às universidades públicas de cada lugar.

Três: Na situação do mundo de hoje, de crise absoluta dos partidos e dos sistemas políticos em quase todas as nações, começando pelos Estados Unidos, temos que ir contra a maré e levantar a necessidade de repolitizar a universidade como um espaço de oportunidade [par tratar de] assuntos [em] que [se] tomem posições claras e concretas sobre como avançar o tema do desenvolvimento de nossas ações.

Quatro: Temos que reivindicar autonomia de uma forma diferente, não como proteção dos grupos de poder que tradicionalmente dirigem nossas universidades, mas como a autonomia dos estudantes universitários para engajá-los na transformação de nossas ações por justiça social, democracia, inclusão e diversidade.

Cinco: […] O início da reforma de Córdoba deve entrar como conceito para a América Latina. Em muitos países ela nunca foi instalada, não há autonomia, não há universidade comprometida se não houver processos verdadeiramente democráticos e participativos dentro dessas universidades para a seleção das autodecisões. […] Nem todas as universidades da América Latina são gratuitas. Temos que conseguir uma afirmação poderosa desta Conferência Regional, para tornar as universidades conhecidas como as públicas unificadas, que ainda são universidades que estão cobrando dos alunos para estarem nessas salas de aula.

Seis: [Devemos] exigir financiamento estatal das universidades e não aceitar essa ideia que anda em torno desse financiamento estatal que responsabiliza as universidades de buscar recursos à nossa maneira, onde pudermos. É uma forma de isentar o Estado de sua responsabilidade.

Sete: Precisamos exigir uma cobertura universal efetiva. A CRES de 2008 estabeleceu a cobertura universal e dificilmente avançamos nessa discussão. Vamos discutir as políticas de ação afirmativa de caráter de classe de todas as formas de inclusão nas universidades para elevar a universidade ao máximo para a sociedade de nossos países […].

 Oito: Precisamos concretizar a identidade de gênero nas discussões da educação superior na América Latina em um momento de contra-ofensiva de princípios católicos conservadores contra a identidade de gênero, contra o direito de decidir. […] 

E último ponto: Uma regulação intensiva do setor privado. Os governos permitiram que eles se expandissem para aumentar o número de cobertura em nossos países. Existem instituições privadas de alta qualidade, mas há uma quantidade de lixo ao redor delas que impressiona. Qualquer tipo de instituto é denominado universidade. Exigamos de nossos países uma regulamentação intensa do bem privado, uma afirmação da CRES contra a lucrativa educação privada. Muito obrigado!

Notas

Notas
1Tradução nossa do espanhol para o português. A fala foi gravada durante a sessão. Devido aos aplausos e outras interferências no momento da gravação, algumas partes da fala ficaram comprometidas. No entanto, compreendemos que não haja prejuízo para a compreensão do conteúdo.

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É doutora em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil, foi pesquisadora visitante do Center for International Higher Education (CIHE), Boston College, Estados Unidos, de 2018 a 2020, e é secretária-executiva na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil.

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.

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