Desarmônicos

A marca nebulosa e violenta da ditadura, as cores da democratização, acompanhada pela “modernização”, pessoas e grupos esquecidos, silenciamentos, ressignificação neoliberal, assim como as suas festas populares.

Desarmônicos

HitsContar a história de um país envolve muitos detalhes, possibilita inúmeras leituras, multiplica as interpretações de distintos momentos, e influencia a atualidade revelando os próximos passos. Essa leitura multipolar, de algo convencionado por uma geopolítica impositiva da emolduração das diferenças e a constituição do Estado Nação, coloca e tensiona o universalismo que estabeleceria as relações de dominação e controle. Abrangendo a formação do imaginário e evidenciando as suas particularidades, induzindo significados e padronizações, coloca concomitantemente as ações significativas de grupos de resistências a partir desses cenários. Uma das ferramentas que é possível criar essa linha do tempo sobre a formação de uma nação são os artefatos culturais. Através de um montante significativo podemos dialogar temas complexos como a força da oralidade (as imagens da cultura aymara interpretadas por Silvia Rivera Cusicanqui), a imposição imperial (Orientalismo de Edward Said), o impacto e propulsão da cultura de massa (como as indicações de Walter Benjamin) e outros tantos marcos teóricos que fazem da representação e da subjetividade uma ação imperativa na concretude dos mosaicos sociopolíticos, e o que eles representam na formação identitária.

As diretoras Adriana Loeff e Claudia Abend escolheram a música para pensar a formação social do Uruguai. Cinema e música, aliás, são expressões reconhecidas por diferentes áreas por terem a capacidade de inserção e registro de um tempo que auxilia na perspectiva da complexidade dos acontecimentos históricos. A música popular que no transcorrer do tempo inseriu novas modalidades de escuta, de socialização, de prática e produção, atenta-se para momentos de câmbios – frisa-se que aqui acompanhamos a definição de Marcos Napolitano sobre música popular, que consta no livro História & Música: “Aquilo que hoje chamamos de música popular, em seu sentido amplo, e particularmente, o que chamamos “canção” é um produto do século XX. Ao menos sua forma “fonográfica”, com seu padrão de 32 compassos, adaptada a um mercado urbano e intimamente ligada à busca de excitação corporal (música para dançar) e emocional (música para chorar, de dor ou alegria…)” (2001, p. 11). Com o documentário Hit (2008) as diretoras não problematizam somente uma questão musical fundada nos desenvolvimentos tecnológicos, nas gravadoras, nas composições e na valoração de gêneros, ou cerradas dentro do campo musical. O que vemos é a ideia de símbolos de épocas longínquas, costuradas com pessoas destituídas de palco e holofotes que, desse modo, condicionam um tempo entrecruzado com canções, memória e história expondo uma face de como é viver e ser uruguaio.

A memória, protagonista primeira da película, se relaciona com a música popular para destacar as formas de mediações – dos sujeitos e expressões – que direcionam o lugar de (re)existência. O diálogo feito pelo número VIII da revista Iberoamérica Social nos auxilia nessa constatação. Na coluna A arte como território de resistência: uma perspectiva polilógica, Dante Augusto Galeffi considera que “somente o que não está previsto no campo dos saberes dominantes pode formar territórios de resistência, pois o que foi capturado pela força dos territórios materiais e simbólicos dominantes não tem poder transformador por carecer de força vital e criadora. Claro, nem só a arte pode se constituir em território de resistência, mas sem dúvida ela é uma forma avançada de resistência, justamente porque lida com perceptos e afetos”. Galeffi correlaciona os processos de sentidos culturais, afetivos e coletivos como a constituição desse território que permeia na brecha cultural e política. Essa aplicação, segundo ele, resulta em “movimentos artísticos de resistência que eclodem em todos os cantos e recantos do mundo mostram a dinâmica do pensamento divergente coletivo, como ação propriamente vital em relação às instituições moduladoras de padrões homogêneos e manipuláveis de comportamento.”. A argumentação de Galeffi, é complementada por  Nelson Maldonado-Torres, na mesma publicação. Visando uma aproximação com os estudos decoloniais o autor diagnóstica que “La reclamación del arte como territorio de re-existencia toma un significado particular frente a la violencia corporal, el asesinato, y los desplazamientos territoriales. No puede ignorarse que el territorio, al igual que el cuerpo, es un punto de partida material y concreto para la existencia humana y por tanto es crucial en cualquier intento por reclamar la re-existencia. Afirmar el arte como territorio de re-existencia sería en este sentido una forma, no de reemplazar, sino de expandir el reclamo por el territorio y por una corporalidad descolonizada”. Nesse marco de resistências, se faz necessário pontuar a força do candombe uruguaio, como ritmo que transcende a musicalidade partindo para a sociocultura que retroalimenta os afrouruguaios e se estabelece como uma característica fundante da constituição política contra-hegemônica no país. Atualmente, é importante frisar o trabalho do Afrogama Candombe que, de forma múltipla, relaciona ferramentas de reapropriação e fortificação da cultura afrouruguaia. O grupo, que nasceu em 1995, desenvolve atividades de canto, dança, percussão e teatro, mas objetiva um desenvolvimento da mulher em âmbitos que sobrepassam as expressões artísticas. Ou seja, na sua atuação percebe-se frentes de reação ao racismo, sexismo e apropriação cultural. O que o Afrogama realiza, assim como inúmeros grupos e entidades sociais, é realizar um levante político na celebração. Um elemento que trouxe aos nossos tempos a diversidade identitária de fazer, ser e praticar a política; formação que deixa a Ciência Política confusa no meio do batuque no território das artes.

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O tempo é outra estrutura do filme, por isso a pergunta sempre está ali: como sobreviver tantos anos? Como uma canção supera o tempo? Disso a investigação confunde-se entre fábula e histórias contadas pelos personagens. Há uma constante desestabilização das perguntas que ficam ecoando do início ao fim para que os músicos possam entender a “criação de um hit”. O filme, grande em leveza e entretenimento, se enfraquece nas dúvidas e qualificações da problemática da consequência de uma popularidade, da fama, do fracasso e do sucesso mercadológico.

Hit também possuiu como marca uma exposição de características contidas no Uruguai, mas que evidenciam a obviedade das Histórias, tristezas e manifestações compartilhadas por muitos outros países latino-americanos. A marca nebulosa e violenta da ditadura, as cores da democratização, acompanhada pela “modernização”, pessoas e grupos esquecidos, silenciamentos, ressignificação neoliberal, assim como as suas festas populares. Tudo isso, evidenciando uma integração nas dores e resoluções, que com suas particularidades, retomam em cada país um novo jeito de enfrentar os novos tempos – independente da melodia, sem se importar se o canto precisa ser forte ou em tom maior, como também se certas harmonias precisam ser revistas – as imposições dos movimentos e ações de resistências possibilitam que sejamos desarmônicos quando preciso.

OBS: O documentário traz na linha de frente nomes de músicos como Jorge Drexler, Fernando Cabrera, Eduardo Mateo, Jaime Roos, Rubén Rada e Maurício Ubal. E nota-se uma total ausência da presença da mulher na representação escolhida pelas diretoras. Por isso, fizemos uma playlist para você conhecer algumas cantantes uruguayas.

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Jornalista. Fronteiriço. Mestrando em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)