Desafiando o império positivista na prática da internacionalização da educação superior

A ideia de decolonizar a universidade e seu modo de inserção internacional faz parte do projeto mais amplo de busca por justiça social e econômica.

Desafiando o império positivista na prática da internacionalização da educação superior
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Desafiando o imperio positivista

Educação superior, universidade e internacionalização coloniais

As interpretações dominantes do mundo em determinada época facilitam, possibilitam e validam as transformações sociais conduzidas pelos grupos hegemônicos. Notadamente, a expansão mundial do sistema capitalista não teria se concretizado sem a legitimação dos princípios de apropriação e exploração conferidos pela ciência moderna e sua diferenciação hierárquica radical entre humanidade e natureza ou sujeito e objeto.

A universidade é simultaneamente produtora e produto desse projeto civilizatório. Suas divisões disciplinares, seus modelos teóricos e suas histórias eurocentradas consagram o padrão de poder capitalista/moderno/colonial. Do mesmo modo, trata-se de uma instituição cujas práticas se alimentam do modo binário pelo qual o conhecimento é majoritariamente produzido e organizado.

É nesse sentido que a “internacionalização da educação superior” – em sua concepção projetada como imperativo desde os anos 19901Frequentemente limitada à mobilidade acadêmica, à publicação da produção científica em determinados meios e à adaptação do currículo universitário aos “padrões internacionais”, em vez de referir-se a um amplo conjunto de interações entre indivíduos, redes e instituições que ocorrem no plano internacional, mas que não são incorporadas por essa concepção. – tem se desenvolvido. Como fenômeno, é hegemonicamente estudada a partir de lentes teóricas funcionalistas, insuficiente em reflexividade e distante do debate sobre os riscos que o excesso de racionalidade econômica tem implantado no setor educacional. Como processo, é utilitária ao atual estágio do capitalismo global em desenvolvimento: orienta-se para atender às demandas desse sistema e trilha uma ordem que subsidia geografias assimétricas.

Terreno de disputa

Decolonizar o ensino superior
Norwegian School of Arts and Design (KHS), em Oslo, Norway. Foto: Christel Marie Blunck. Extraída de: https://africasacountry.com/2018/09/decolonizing-the-academy/

Ainda que entranhada à matriz cultural do poder colonial, a educação superior não é estanque, mas terreno de disputa. Com base nos entendimentos de que: a) a própria lógica opressiva da modernidade “produz uma energia de descontentamento, de desconfiança, de distanciamento entre aqueles que reagem à violência imperial” (Mignolo, 2008, p. 249, tradução nossa) e b) “o único modo eficaz e emancipatório de enfrentar a globalização neoliberal é contrapor-lhe uma globalização alternativa” (Sousa Santos, 2011, p. 56), pode-se conjecturar a existência de projetos de inserção internacional no âmbito acadêmico/universitário que questionem, contrariem e fissurem a ordem colonial/hegemônica em curso.

Observada a limitação de que classificar qualquer projeto de internacionalização como contra-hegemônico é uma questão empírica – que não pode ser analisada exclusivamente a partir do discurso ou da intenção dos atores envolvidos – iniciativas como as seguintes apresentam indícios de contrapontos à ordem colonial:

  • Instituições universitárias como a Universidade Federal de Integração Latino-americana (Unila/Brasil); a Universidade Federal de Integração Luso-afrobrasileira (Unilab/Brasil) e a Escuela Latinoamericana de Medicina (Elam/Cuba), cujas missões institucionais se amparam na integração regional e na cooperação entre o Sul-Global. Em 2018, a Unila disponibilizou para consulta pública sua proposta de Política de Internacionalização, documento que concebe a educação superior como bem público social, direito humano e dever do Estado, sob o argumento de que a integração acadêmica latinoamericana e caribenha é necessária à criação de um futuro ao continente. A partir dessa base, estabelece como um dos princípio para a internacionalização a diversidade linguística.
  • Eventos de natureza regional/internacional como o “Encuentro Latinoamericano Contra el Liberalismo: por una universidad democrática y popular”, que advoga principios como: a universidade é um direito do povo; o reconhecimento da educação superior como um direito fundamental requer políticas públicas que assegurem condições igualitárias para o desenvolvimento dos estudos universitários; a democratização do conhecimento supõe revisar criticamente as formas imperativas na produção e na distribuição dos saberes; os Estados são responsáveis por assegurar o direito à universidade em seu sentido mais pleno, garantindo o financiamento necessário para o desenvolvimento e fortalecimento do sistema público, assim como a construção democrática de uma política universitária; a reivindicação deste direito exige políticas que impeçam o avanço de toda forma de privatização e mercantilização no âmbito da atividade universitária; a democratização da educação requer revalorizar, contra as distinções e hierarquias estabelecidas, a função do ensino universitário.
  • Redes internacionais voltadas à difusão e ao compartilhamento de iniciativas decoloniais em diferentes universidades do mundo, como a Decolonial International Network e a Decolonizing Alliance, das quais participam pesquisadores tanto do Norte quanto do Sul-Global; bem como redes internacionais voltadas à promoção da liberdade acadêmica e à proteção de acadêmicos ameaçados pela exposição de suas ideias, a exemplo da Scholars at Risk Network.
  • Redes internacionais voltadas ao estudo do fenômeno da internacionalização da educação a partir de lentes teóricas críticas, a exemplo da Critical internationalization studies network. Tal rede considera que “os esforços críticos para avaliar criticamente e repensar a atual orientação da internacionalização são variados, e as mudanças ou reformulações que são possíveis e desejáveis dependerão das configurações de poder e de política que convergem dentro de um contexto particular e dos investimentos políticos e teóricos dos envolvidos. Assim, não há uma maneira única de repensar a internacionalização. Em vez disso, há uma necessidade de persistentemente atentar para as complexidades e tensões que caracterizam este trabalho, e colocar ideologias contraditórias, desejos e interesses em conversação sem requerer consenso, e ao mesmo tempo desenvolver intervenções práticas, contextuais específicas que serão necessariamente provisórias, imperfeitas, e muito possivelmente criarão novos problemas” (Stein, 2018, tradução nossa).
  • Projetos que contrapõem as tendências mercadológicas no âmbito da produção e difusão científica, como o Sci-Hub, repositório online com mais de 60 milhões artigos científicos, fundado por Alexandra Elbakyan, do Cazaquistão, para ampliar a popularização do conhecimento. Mais de 50% do conteúdo baixado por meio do Sci-Hub em 2016 pertencia a apenas três grupo editoriais, que formam uma espécie de “oligopólio de conteúdo”.
  • Movimentos estudantis como o Rhodes Must Fall, iniciado em 2015 e originalmente voltado à remoção da estátua de Cecil Rhodes na University of Cape Town, como parte de um movimento mais amplo para decolonizar a educação na África do Sul. O movimento inspirou o surgimento de movimentos estudantis semelhantes em importantes instituições universitárias do mundo.

Iniciativas como as aqui exemplificadas parecem refutar a subordinação à lógica do capitalismo acadêmico global. Restam estudos voltados a compreender até que ponto suas práticas superam a colonialidade que permeia a modernidade e de que modo elas contribuem para pensar além da racionalidade dominante. Como Mignolo (2017, p. 17) observa, “se nos dirigirmos à modernidade, permaneceremos presos à ilusão de que não há outra maneira de pensar, fazer e viver” .

Por que decolonizar?

“Isto já é não só resistir, porque resistir significa que as regras do jogo são controladas por alguém a quem resistimos” (Mignolo, 2017, p. 31).

Internacionalização colonial do ensino superiorA ideia de decolonizar a universidade e seu modo de inserção internacional faz parte do projeto mais amplo de busca por justiça social e econômica. Trata-se de democratizar essa instituição radicalmente; resituá-la na definição e na resolução coletiva dos problemas societários. Tal democratização requer a consideração de uma pluralidade de ontologias, epistemologias e metodologias: perspectivas que incidam luz na seletividade da narrativa acadêmica e desafiem o próprio privilégio adquirido pela universidade como local de produção de conhecimento válido.

Para que as contraposições ao projeto moderno/colonial da internacionalização da educação superior possibilitem construir uma infraestrutura que rompa com a instrumentalidade conferida a esse processo, eles necessitam alcançar uma dimensão igualmente mundializada.

Referências

Mignolo, W. (2008). La opción de-colonial: desprendimiento y apertura. Un manifiesto y un caso. Tabula Rasa, enerojunio(8), 243–281.

Mignolo, W. (2017). Desafios decoloniais hoje. Epistemologias Do Sul, 1(1), 12–32.

Sousa Santos, B. De. (2011). A Universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade. 3 ed. São Paulo: Cortez Editora.

Stein, S. (2018). Critical Studies Internationalization Network: Rethinking the Internationalization of Education. Retrieved from https://criticalinternationalization.net/

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Autor

É doutoranda em Administração na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), pesquisadora visitante no Center for International Higher Education (CIHE), Lynch School of Education – Boston College e secretária-executiva na Secretaria de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.

Notas   [ + ]

1.Frequentemente limitada à mobilidade acadêmica, à publicação da produção científica em determinados meios e à adaptação do currículo universitário aos “padrões internacionais”, em vez de referir-se a um amplo conjunto de interações entre indivíduos, redes e instituições que ocorrem no plano internacional, mas que não são incorporadas por essa concepção.