Como se proteger de um antropólogo

Um código de ética a partir da base

Eu trago hoje, um texto que não é meu.

Como eu fiz, um par de anos atrás ao trazer um texto da Kerexu sobre o 7 de setembro, eu trago agora uma tradução de um texto de Maximilian Forte sobre os cuidados que indígenas (e não apenas eles!) devem ter com todo tipo de antropólogos que os procurarem.

A inspiração pela disseminação da tradução é antiga, mas cresceu após ler o último texto de Elaine Tavares, aqui na IS sobre os interesses que o Estado tem nas terras tradicionais indígenas e para nos lembrar que o diabo descerá à terra na semana que vem.

Elaine Tavares também já havia mencionado a Kerexu aqui na IS ao comentar os absurdos que ocorrem contra o território Guarani em SC. Sobre os absurdos promovidos contra as populações indígenas em SC, eu lembro de já ter publicado sobre também, especificamente sobre a violência institucionalizada que é planejada contra esta gente no estado que teve votação recorde para o 17 e único estado no Brasil que contou com dois candidatos à governador que o apoiavam no segundo turno nas últimas eleições.

A tradução, efetivamente, começa abaixo.[*]

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O documento espera ser o início de um código de ética descolonizado, onde a ética não é vista pelo ponto de vista do antropólogo forasteiro, mas pela perspectiva da comunidade que está «recebendo» este antropólogo. A história por trás do documento é bastante longa, datando no mínimo para o livro de Vine Deloria Jr «Custer morreu pelos seus filhos: Um manifesto indígena«[1], alguns textos de metodologia sobre a pesquisa com indígenas nos Estados Unidos e no Canadá (para ser revisado em futuros posts), o meu curso de «epistemologia, metodologia e teoria de uma antropologia descolonizadora», e a minha própria experiência em rascunhar um documento similar em colaboração com e sob o acompanhamento da liderança da comunidade de Santa Rosa Carib na Trinidad em 2003. As preocupações da comunidade Carib se revelaram pela ocorrência de vários conflitos com pesquisadores estrangeiros, incluindo insatisfações comigo mesmo, e o crescente número de pesquisadores estrangeiros contatando eles e entrando em sua comunidade desde o momento que a minha pesquisa se tornou pública.

O cenário por trás da construção das percepções em que este documento é baseado envolve um antropólogo estrangeiro trabalhando com uma coletividade que de algum modo, era formalmente organizada, ou existindo enquanto comunidade, em sentidos demográfico, residencial e político. Usualmente localizados em um país (ou território)[2]diferente do que a origem do próprio pesquisador. Isto assume que não há relações pessoais entre o antropólogo e a comunidade que o recebe de maneira prévia à realização da pesquisa, e isso assume que o antropólogo não é membro da comunidade, de sua organização ou de suas redes de contatos.

O desejo pela produção e pela distribuição deste documento de maneira pública, e agora, emerge da insatisfatória, ambígua, e no mínimo ambivalente natureza das respostas de antropólogos para a militarização da disciplina, para a sua busca por financiamento pelo Pentágono, para um conjunto de outros modos de prover informação que podem ser usados para propósitos militares e de inteligência, dando continuidade para o expansionismo dos Estados Unidos e do Ocidente contra outras populações. Quando antropólogos começam a falar de outras culturas como «culturas adversárias», e se tornam provisores de estratégias de como executar melhor a guerra e a ocupação destas culturas, então é de se esperar de alguém uma resposta defensiva. Esta é a parte final e ela é escrita com genuína preocupação para o bem estar daqueles que são estudados pelos antropólogos.

Este documento obviamente não pode e não irá substituir pela decisão de receber ou não um antropólogo estrangeiro. Ele almeja, ao invés, informar e encorajar algumas das decisões que isto pode demandar, e prover uma série de pontos de vista que podem desejar ser adotados, adaptados e apresentados para aqueles que pretendem fazer pesquisa em sua comunidade.

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Este é um documento escrito por um professor de antropologia, e você deveria se sentir livre para referir ele como tal. Este não é um documento escrito para antropólogos, mas para aqueles que recebem e hospedam eles.

Os pontos-chave aqui são:

Conheça os seus direitos, e afirme eles!
Não é seu dever acomodar antropólogos;
Não assuma que os antropólogos tenham seus melhores interesses em mente;
Sempre desconfie do trabalho de antropólogos, e esteja preparado para rejeitar a presença deles, seja como primeiro ou como o seu último recurso;
Não espere antropólogos salvaguardarem os seus direitos e os seus interesses;
Tenha em mente o fato que tudo o que você compartilhar com antropólogos poderá ser usado contra você e/ou contra a sua comunidade, agora e no futuro;
Não conte com antropólogos mantendo sua informação confidencial – eles podem ser forçados para entregar o material devido as leis dos países deles -, e todos os documentos e informações que foram recolhidos de vocês podem ser apreendidos, digitalizados e copiados cada vez que ele passar por um aeroporto em países como os Estados Unidos ou a Inglaterra por exemplo;
A segurança da confidencialidade que é legalmente respeitada por médicos (com pacientes) e por advogados (com clientes) não possui equivalente para antropólogos (com informantes).

Não se oriente por estas regras de maneira tão fechada, sem pensar as suas próprias definições, ou redefinindo o que você ler, porque um antropólogo mais esperto irá encontrar maneiras de trabalhar contornando estas questões, se eles quiserem fazer isso.

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1 FAÇA SEU CÓDIGO DE ÉTICA CONHECIDO, E CUIDE DE SUA SEGURANÇA

1.1 – Vocês podem usar estas orientações para suas próprias decisões, e adicionar, remover, ou modificar como ela melhor se encaixar. Faça seu código de ética conhecido para o antropólogo e para a sua instituição vinculada, para sua fonte de financiamento, para o comitê de ética que revisou ou revisará o projeto de pesquisa, e faça todos eles assinarem que eles leram e entenderam seu documento e jurarem seguir o que ali estiver. Do contrário, envie o antropólogo de volta pra casa.

1.2 – Informe o governo de seu país (ou estado) do nome e da origem do pesquisador e que ele está em seu país procurando pesquisar sobre você e/ou sua comunidade. Também informe seu governo que você não está sobre nenhuma obrigação para acomodar ou receber qualquer pesquisador estrangeiro.[3]

1.3 – Informe uma faculdade de uma universidade próxima, ou uma instituição de pesquisa de sua confiança, do nome e da origem do pesquisador estrangeiro, e encaminhe detalhes de sua proposta de pesquisa para eles. Por outro lado, tenha em mente que os pesquisadores locais podem estar servindo como facilitadores ou como articuladores de pesquisadores estrangeiros e que eles podem estar colaborando com ele sem o seu conhecimento. Se você tem amigos em canais de TV, jornais ou notícias, informe eles da situação.[4]

1.4 – Questione o pesquisador por cópias do código de ética profissional que ele segue e se tem lido e explicado eles para vocês, com ênfase em como o pesquisador planeja respeitar o código de ética.

2 SOLICITE TODA A DOCUMENTAÇÃO

2.1 – Inicie por contar para o pesquisador interessado em estudar você ou sua comunidade que você precisará ter certeza das intenções de sua pesquisa, de seus benefícios para você, e que você manterá controle final sobre toda a informação que será provida. Informe o pesquisador que se ele desanimar para cumprir com as suas solicitações por documentações, que você rejeitará a sua presença e encorajará de maneira ativa outros a fazerem o mesmo. Lembre sempre o antropólogo que ele é um convidado visitante em seu país ou território e que ele não tem direito para qualquer informação que seja, e que você ao invés tem todos os direitos de demandar informações sobre o pesquisador.

2.2 – Solicite para ver uma cópia reconhecida do projeto de pesquisa que o antropólogo submeteu como requisito parcial para se formar e/ou como parte de uma solicitação de financiamento. No caso de uma aplicação por financiamento, solicite para ver toda a documentação que foi submetida, e todos os documentos recebidos pelo pesquisador se ele foi ou não financiado para fazer sua pesquisa. Mantenha cópias de tudo isso.

2.3 – Informe o pesquisador que você planeja revisar o conteúdo do projeto de pesquisa em detalhes e que você se reserva ao direito de consultar com pesquisadores locais se julgar necessário. Instrua ele que você pode requerer alterações à proposta, e que qualquer emendas que você requerer devem ser registradas em versões revisadas dos documentos para serem re-enviadas de volta para a instituição que o pesquisador possui vínculo ou que recebe financiamento. Solicite uma recepção assinada de que todos receberam as propostas revisadas.

2.4 – Solicite evidências formais de que o pesquisador está em seu país com o total conhecimento e aprovação de seu governo. Se o pesquisador pôde somente apresentar um visto de turista, então solicite explicações adicionais e não avance em nada até você ter recebido evidências concretas de que o pesquisador tem informado completamente as autoridades locais sobre a natureza e propósitos desta pesquisa.[5]

2.5 – Solicite pelas cópias originais de extratos bancários, para um período de pelo menos um ano, comprovando tudo o que foi recebido por ele. Quaisquer volumes que aparentemente não estão vindo de seu salário ou do alegado financiador da pesquisa precisam ser esclarecidos de sua fonte, ou do contrário o pesquisador pode não estar revelando todos os seus financiadores, e talvez outras chefias para quem o antropólogo talvez precise responder ao final de tudo. Se você não se sentir capaz de manusear estas questões em específico, solicite auxílio de um contato de confiança para intervir e examinar os documentos. Alguns poderão achar isso desproporcional, pouco razoável e até impraticável. Em complemento, aqueles que verdadeiramente desejarem ocultar seu patrimônio ou fontes de financiamento possuem outros meios de o fazer. Se o pesquisador protestar algo como «eu tenho direitos também», lembre sempre ele que vocês tem a palavra final sobre rejeitar a presença dele ali. Em outras palavras, vocês é que precisam determinar a «real necessidade» que vocês podem ter ou não para o pesquisador estar em sua comunidade.

2.6 – Se um antropólogo parece ter um monte de equipamentos eletrônicos caros, solicite informações sobre como ele adquiriu aqueles equipamentos, e esteja preparado para pedir provas disso. Você pode encontrar modos bastante sutis de perguntar isso, normalmente com uma série de perguntas menores e pouco perceptíveis.

2.7 – Pergunte ao pesquisador por cartas de referências de colegas e/ou de sua instituição de vínculo, com um claro entendimento que os referenciais irão colocar as suas próprias reputações em jogo ao aprovarem o pesquisador. Escreva para as pessoas que escreveram essas cartas, explicando que você agora possui suas cópias das cartas de recomendação.

2.8 – Se o antropólogo parecer relutante ou resistente para cumprir com as suas solicitações, você deveria estar preocupado e deveria se preparar para mandar ele ir embora. O antropólogo, de acordo com a maioria dos códigos de ética, não é suposto de ameaçar ou chantagear você acreditando nas consequências negativas pela não participação dele em suas vidas. Se ele fizer qualquer tipo de insinuação neste sentido, você deveria imediatamente informar sobre isto para a associação profissional dele, para a universidade dele, e para todas as agências governamentais que puder.

3 CONTROLE SOBRE A INFORMAÇÃO

3.1 – Sempre que falar com o antropólogo, fale considerando como se você estivesse falando para uma audiência pública, e medindo que tipo e qual a quantidade de informação que você deseja compartilhar, sempre tendo isto em mente. Continue tendo este posicionamento, até para as conversas que você sabe que não estão sendo gravadas e que são assuntos considerados pessoais. No mínimo até você ter absoluta certeza que esta pessoa é confiável, como um amigo ou um membro adotado na família. Até então, seja sempre muito cuidadoso.

3.2 – Em diferentes momentos, de maneira aleatória e imprevisível, como achar melhor, entregue informações incorretas, informações que você sabe quais seriam os desenvolvimentos se elas fossem compartilhadas com pessoas fora da comunidade. Estas e outras medidas você deveria imaginar que são desenhadas para mapear eventuais «fugas» de informação. Também se sinta livre para monitorar o pesquisador quando ele não estiver presente em sua comunidade, usando pessoas que o pesquisador nunca imaginaria estar monitorando ele.

3.3 – Depois de qualquer gravação de áudio, video ou fotografias forem feitas, solicite imediatamente cópias de tudo. Informe que o pesquisador somente utilizará as fotografias, trechos de videos, ou pedaços da entrevista que vocês autorizarem para ele. Informe para o pesquisador que se no futuro vocês descobrirem que ele está usando elementos que vocês não autorizaram para uso, você escreverá para denunciar ele para a associação profissional, seu empregador, e sua fonte de financiamento, e que o pesquisador violou a confiança com você e que se envolveu em comportamento anti-ético.

3.4 – Antropólogos tomam «notas de campo». Estas coisas podem ser pequenos pedaços de papel rascunhados, uma agenda, ou cadernos e cadernetas. Frequentemente são produzidos depois de um evento ou encontro. Eles são a coisa mais importante do que seria uma base de dados do antropólogo. Solicite uma cópia completa de todas as notas de campo. Solicite ainda receber cópias de todas as publicações e resumos de conferências que surgirem como resultado da pesquisa feita. Esteja preparado para tornar um assunto público quaisquer discrepâncias sérias entre as informações que estão contidas nas publicações, e o que tinha nas notas de campo e em outros registros.

3.5 – Seguindo o dito no item 3.4, um antropólogo pode argumentar o seguinte: «Há inúmeros casos de situações onde isto não é uma boa ideia, e onde é uma violação da confiança entre o pesquisador e a comunidade. Por exemplo, se uma pessoa X deu uma informação confidencial para um pesquisador sobre ele mesmo na condição de que o pesquisa não revelaria esta informação para outros membros da comunidade, o pesquisador deve preservar isto«. É importante para você ter em mente que o pesquisador pode fazer muito pouco para efetivamente proteger a confidenciabilidade iniciada com o que ele formalmente gravou em qualquer formato (seja áudio, video ou notas). Se o pesquisador recusa a compartilhar as próprias notas, é porque ele registrou algo lá que é potencialmente perigoso para você ou para a sua comunidade, e ele não deveria ter feito isso. Você deve considerar suspender a participação dele e solicitar para que ele destrua imediatamente todas as informações que lhe foram fornecidas. Qualquer código de ética instruiria ele a seguir isso à risca.

4 OLHANDO AO REDOR: QUANDO SER MAIS CUIDADOSO

Você deveria ser muito cuidadoso, não apenas relutante, para hospedar um pesquisador estrangeiro, em circunstâncias como as seguintes:

– O seu país ou território tem sido identificado pelos Estados Unidos da América ou um de seus aliados como um lugar que atualmente ou possivelmente mantém «terroristas»;
– O seu país ou território tem sido identificado pelos Estados Unidos da América ou um de seus aliados como um lugar que atualmente ou possivelmente serve como um ponto de tráfico internacional de drogas;
– O seu país ou território tem sido identificado pelos Estados Unidos da América ou um de seus aliados como um lugar que foi ou pode ser, um «estado falido»;
– O seu país ou território ocupa uma posição geográfica estratégica;
– O seu país ou território possui valiosos recursos naturais, como petróleo, minério e recursos vegetais;
– O seu país ou território está sendo utilizado como espaço de sobrevivência por um país vizinho ou para ações contra o governo de um país vizinho ou sociedade;
– O seu governo tem mantido relações mais hostis com os Estados Unidos ou com um de seus aliados principais;
– O seu país ou território é recebedor direto de ajuda dos Estados Unidos ou de um de seus aliados;
– O seu país ou território hospeda um largo número de empresas estrangeiras controladas, especialmente, pela presença de corporações ocidentais ou de investimento ocidental;
– Você sabe da presença do FBI, CIA, polícia ou especialistas militares no seu território ou país;
– O seu país ou território conduz exercícios militares regulares com forças estrangeiras – esteja desconfiado de todos os exercícios -, como os de «busca e resgate» que são exercícios no mar, ou mesmo meras patrulhas na costa do mar;
– O seu país ou território é alvo de missionários religiosos estrangeiros;
– A sua comunidade, organização, país ou território, apareceu nas «notícias internacionais» e em alguns meses ou talvez poucos anos, antropólogos aparecem declarando interesse na sua comunidade;
– Você, a sua comunidade ou organização tem tido dificuldades de relacionamento com seu próprio governo ou com as instituições da sociedade que envolvem o seu território;
– A sua comunidade ou organização sofre de sérias divisões, conflitos ou desacordos internos.

5 NEGOCIAÇÃO IMEDIATA E COMPENSAÇÕES DE LONGO TERMO

5.1 – Ser investigado toma parte de seu tempo, e é razoável para você esperar e pedir compensações, incluindo em bens materiais ou mesmo em termos financeiros, assim como você está formalmente auxiliando com a pesquisa e fazendo possível o avanço da carreira do pesquisador. Ser pago não elimina nenhum dos seus direitos, e não implica que você cedeu nada além do seu tempo para o antropólogo.

5.2 – Algumas vezes o pesquisador irá contar para você que seu financiamento não prevê pagamento para hospedagens ou mesmo informantes. Isto é problema dele. Você não precisa acomodar ele porque eles resolveram transferir os custos de alojamento para as suas costas. Até o pesquisador ter certeza de que o financiamento suporta tanto o alojamento como eventuais colaboradores, ou até os financiadores se redimirem e reverem isso, você deve se sentir livre para recusar ser pesquisado.

5.3 – Algumas vezes o pesquisador irá te dizer que ele não «paga por informação», porque isso contaminaria a validade da informação, como se ele tivesse «subornado» você para receber a informação para ouvir algo que você disse. Mantenha em mente, entretanto, que o pesquisador está sendo pago para produzir a informação para um público, e que ele é pago para concordar com certas questões de certas maneiras, para que não corra o risco de ele ficar sem financiamento. Assim, a explicação dele não é totalmente honesta, e o assunto é a sua compensação pelo seu tempo, não para os detalhes que você pode ou não revelar. Até se for pago para uma entrevista, não se sinta obrigado para revelar tudo o que for perguntado ou até para responder qualquer questão que te fizer se sentir desconfortável.

5.4 – Se você está formalmente empregado como um assistente de pesquisa, você deve ser pago não menos do que o salário mínimo do país de origem do pesquisador, ou de seu país, o que for maior. Você deve esperar ter o seu nome aparecendo também em todas as publicações e produtos que resultarem de sua assistência.[6]

5.5 – Peça ao pesquisador para descrever os benefícios da pesquisa pra você e para a sua comunidade. Se ele parecer ambíguo ou não for bem desenvolvido, é porque provavelmente o pesquisador nunca deu informações suficientes sobre o assunto e há alguma indignação sobre isto.

5.6 – Solicite que o pesquisador compartilhe com a sua comunidade metade, ou mais, dos royalties pagos por qualquer livro publicado ou por documentários distribuídos. Pergunte para ver os contratos que eles recebem então assim você saberá como e quanto está sendo pago. Solicite isto de maneira adiantada, por escrito, assinado antes de tudo.

5.7 – Quando você se sentir suficientemente bem com o pesquisador, procure por maneiras mais formais de colaborar nos esforços de publicação, com você estando como co-autor. Entretanto, você deveria também considerar qualquer potencial consequência negativa de ter o seu nome feito público, e de estar vinculado ao pesquisador.[7]

5.8 – Não aposte todas as suas fichas no pesquisador: Procure por outros caminhos de representar você de maneira independente, de comunicar com pessoas da sociedade envolvente, se este for o seu interesse. Se este não é o que você quer, então você deve se perguntar porque você está concordando em ser pesquisado.

6 ÚLTIMOS PASSOS: QUANDO AGIR E COMO

– Se o pesquisador se tornar abusivo;
– Se o pesquisador ignorar as suas solicitações ou avisos;
– Se o pesquisador encontrar um caminho para pesquisar a sua comunidade ou organização que você considera como contraditório ou intencionalmente fora de seu controle;
– Se o pesquisador for capturado mentindo para você sobre assuntos delicados;
– Se o pesquisar fez algo que colocou em risco o seu bem estar, ou as suas seguranças e saúdes: culturais, econômicas, sociais, políticas, psicológicas e emocionais.[8]

Então, estes são alguns passos que você pode tomar, e contar para o pesquisador que você irá fazer alguns ou todos eles sem hesitação:

– Reclamar oficialmente para o seu governo, ou até para a polícia ou outras autoridades se necessário;
– Escrever para a instituição de vínculo dele, e para a associação profissional que ele faz parte;
– Contactar órgãos de mídia (em jornais, revistas, rádio, internet e TV) e informar eles;
– Contar os membros das universidades locais e para as instituições de pesquisa sobre o que aconteceu, e fornecer para eles toda a informação necessária para eles te exporem publicamente;
– Se você sabe como produzir um site de internet, produzir um listando todos os detalhes de sua queixa – lembre-se que danificar a imagem de uma pessoa com informações verídicas e com fatos que você pode provar não irá ser um problema legal. Você apenas terá que provar tudo que disser;
– Fazer com que a pessoa que o recebeu ou o hospedou expulse ele, com o entendimento que a sua permanência iria alterar as relações entre você, a comunidade e esta pessoa, no longo termo e com impactos imensuráveis;
– Informar membros da comunidade envolvente que você está vivendo momentos de conflito com este pesquisador, e tentar acionar eles para ajudar e te apoiar com isso;
– Não fazer nada para o pesquisador que poderia significar violar as leis de seu próprio país, ou você pode acabar perdendo mais ainda no final.

Por fim, lembre-se de perguntar pra você estas questões:

– Nós realmente precisamos ter esta pesquisa feita sobre nós?
– É interessante para nós?
– Para quem servem os propósitos desta pesquisa?
– Como nós seremos beneficiários desta pesquisa?
– Como nós estaremos pior se a pesquisa não for feita?

Lembre-se que você não deve estar preocupado apenas com antropólogos dos Estados Unidos, mas também qualquer antropólogos de países aliados para os Estados Unidos e trabalhando com eles ao redor do mundo, alguns países como:

Canadá
Austrália
Nova Zelândia
Inglaterra
Membros da União Europeia (UE)
Membros do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)
Procuradores locais conhecidos
Alguns membros de sua própria sociedade

Qualquer versão aumentada deste documento irá aparecer neste blog (com um explícita nota incluída no topo), até se cópias do original aparecerem em outros blogs. Cópias podem ser feitas em outros sites ou publicações, mantendo a licença Creative Commons que manda este site.[9]

Agradeço antecipadamente aos leitores que desejarem comentar sobre o documento acima, e exceto se perguntarem uma questão específica para o autor, o mesmo ficará de fora de toda a discusão que surja no espaço dos comentários.[10]

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[*] Nota da tradução: Tradução realizada por Jefferson Virgílio com base na versão 2.0 que encontra-se disponível online no portal Zero Anthropology em: https://zeroanthropology.net/2008/09/09/how-to-protect-yourself-from-an-anthropologist-a-code-of-ethics-from-the-bottom-up/. A tradução foi realizada para circular entre lideranças e comunidades indígenas após a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil em 2018. O conteúdo não foi alterado. Há uma tradução para o castelhano disponível no mesmo site: https://zeroanthropology.net/2008/09/21/como-protegerse-contra-un-antropologo-un-codigo-de-etica-desde-la-base/.

[1]N.T.: Um livro com alguns ensaios que critica o modo como associações, igrejas, entidades e o Estado exploram comunidades indígenas com uma justificativa e com um comportamento tipicamente assistencialistas.

[2]N.T.: O autor frequentemente limita para as questões envolvendo estrangeiros internacionais pesquisando outras comunidades. Sugere-se ampliar as percepções para qualquer «pesquisador» que não seja parte da própria comunidade.

[3]N.T.: Dependendo do contexto nacional este tipo de alerta pode ser repensado pois o antropólogo pode estar à serviço do governo do país onde o território indígena está localizado. Ver item 4.

[4]N.T.: É importante destacar que este caminho é de dupla via. Instituições locais podem ser as maiores interessadas em impedir que outros pesquisadores identifiquem o que eles estão fazendo contra os indígenas em suas pesquisas, quem são os seus financiadores e quais interesses movem estas pesquisas.

[5]N.T.: No Brasil este tipo de informação deve ser informado e autorizado pela Polícia Federal.

[6]N.T.: Isso inclui mas não se limitará para transcrições de conversas, traduções orais simultâneas e atividades similares.

[7]N.T.: Na antropologia, ao incluir o nome de um indígena enquanto co-autor pode ser lido como um modo de tentar tornar mais legítimo ou mesmo verdadeiro tudo o que estiver escrito sob o nome deste indígena.

[8]N.T.: Podem ser incluídos riscos adicionais como exposições para materiais perigosos ou mesmo na divulgação pública de imagens não desejadas, como de crianças, contextos reservados ou mesmo envolvendo tabus sociais.

[9]N.T.: Esta informação ocorre porque o documento é disponibilizado online em um blog.

[10]N.T.: Idem anterior.

mm

Graduado e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil.

Pesquisador e doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal.

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