Com o coração dividido: emigração e imigração na Iberoamérica. Uma visada transversal

downloadpdfSpainOs sentidos das palavras emigração e imigração são comumente confundidos e não é sem razão. Os termos são compostos do substantivo feminino migração e dos prefixos “emi-” e “imi-“, “sair” e “entrar” respectivamente. Então, dependendo do ponto de vista de quem fala, pode-se usar os dois termos para indicar o deslocamento de pessoas para fora ou para dentro de seu lugar de origem.  Migração, então, designa a movimentação de entrada (imigração) e saída (emigração) de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos entre seu lugar de origem e outro país, outro estado ou simplesmente outra cidade do mesmo pais. De qualquer modo, os termos se referem à movimentação de pessoas pelos espaços geopolíticos da Terra de forma voluntária e por razões diversas.

Falando especificamente da migração na Iberoamérica temos de imediato um volume significativo de fluxos e complexas e irredutíveis condições sócio-políticas distintas em cada um dos países que compõem esta constelação linguística, porque não há nenhuma unidade política entre os países desta rede, mas sim um processo histórico de colonização portuguesa e espanhola e sua diáspora.  A comunicação entre os falantes do português e do espanhol é bastante fluente e há um sentimento de comum pertencimento que vem também das origens ameríndias e africanas do lado latinoamericano. O sentimento ameríndio e africano é de uma pertença mais radical à mãe Terra, apesar de ser relegado à periferia do ponto de vista simbólico, algo que se aproxima ao fenômeno contemporâneo da globalização e sua mirada distante de uma cidadania global para todo ser humano do planeta. Estamos, porém, muito longe de alcançar a cidadania global e a Terra deixou de ser um lugar de aflições intermináveis para se tornar o lugar dos operários produtores vorazes e disciplinados do capital devorador de tudo.

Um caso específico de relação com emigrados e imigrados se pode ver hoje nas universidades com a crescente internacionalização da educação, onde se têm atraído, por exemplo, estudantes iberoamericanos para a realização de cursos de mestrado e doutorado nos países da rede. Isto me parece o sinal de um fenômeno novo aberto também pelas redes sociais cada vez mais extensivas ao mundo em sua totalidade imaginada e representada, mas também intuída. Nos deparamos aqui com a experiência da alteridade, da outridade implicada nas relações interpessoais de pessoas de distintos países e regiões, até mesmo de vizinhos e parentes. Vê-se, portanto, uma abertura para o novo, o inusitado, o que não tem fronteiras nem contornos acabados. É um devir complexo o que se vê nas relações acadêmicas entre estrangeiros e nada se pode deduzir de certo nas relações de cordialidade, solidariedade e colaboração recíproca entre os “diferentes”, os “viajantes”, os que se encontram em plena experiência migratória, porque não se pode por decreto garantir nenhuma afetividade vivida e partilhada, isso só depende dos mistérios do coração, uma razão desconhecida pela razão geométrica e técnica.  Perfila-se, então, um horizonte de potencialidades que não são o espelho e o reflexo de um mundo ideal norte-americano e europeu. Não se trata, pois, de ver a divisão do coração entre dois mundos, mas de vivenciar a construção de outro mundo em processo de devir infinito e imprevisível.  Pois cada vez mais as fronteiras entre os países se tornam mais controladas, cada vez mais se restringe o tamanho do mundo para as migrações humanas e só os muito ricos são favorecidos em seus interesses pessoais ou empresariais de se deslocar pelo mundo “sem fronteiras”, pois o passaporte virou dinheiro.

Na sociedade do controle na qual vivemos, o clamor pelo diálogo inter e transcultural tornou-se uma necessidade profunda e radical do espírito humano para deixar de lado o mundo fratricida e insustentável que domina. O “estrangeiro”, o Outro, o “desconhecido” convida a todos nós a fazer o esforço criador necessário para que ultrapassemos o padrão da civilização hegemônica que há muito deixou de lado o instinto de vida a partir da relação de comum-pertencimento com as forças vitais, materiais e mentais que formam o universo e sua natureza pulsátil, mutante, impermanente em suas configurações, mas permanente na impermanência. Afinal, tudo flui e conflui, vai e vem, respira sem pausas no respirar.

Creio que só o diálogo radical e afetivo nos salvará da indisposição para o Outro, e da mania de excluir e de controlar. Pois o ser humano precisa aprender a viver em um mundo em acelerada transformação e desmantelamento de toda fronteira e de toda nacionalidade fundamentalista, que é a racionalidade tecnocientífica hegemônica. Só os países e indivíduos em desenvolvimento têm interesse em dialogar com o Outro, porque os países que se acham desenvolvidos pararam no tempo, chegaram ao que consideram a meta da vida: o mero e assegurado bem-estar compulsório. Vamos ao diálogo antes que seja tarde. Vida longa à migração e à crioulação! Com o coração reunido.

Para citar esté artículo: Galeffi, D. (2015). Com o coração dividido: emigração e imigração na Iberoamérica. Uma visada transversal. Iberoamérica Social: revista-red de estudios sociales (IV), Pp. 30-31. Recuperado de: http://iberoamericasocial.com/com-o-coracao-dividido-emigracao-e-imigracao-na-iberoamerica-uma-visada-transversal

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Autor

Maestrado en Arquitectura y Urbanismo, y Doctor en Educación por la Universidad Federal de Bahía.

Docente del DMMDC en la Universidad Federal de Bahía, Brasil.