Colômbia e a partida perdida

O caucano Mina não sabia, mas na sua região a derrota perdura por meses, a morte de líderes e defensores comunitários tornou-se algo comum.

Colômbia e a partida perdida
Morte de lideres Colombia

Quando Yerry Mina subiu para última jogada da partida contra a Inglaterra, o voo e a consequência pareciam pesadas demais para deixar um homem de 94 kilos no ar. Pela pequena área o zagueiro pairou…segundos prolongados que a realidade não deixaria por se concretizar. O gol, no último minuto, do zagueiro que mancava, somente auxiliou uma sobrevida de um time sulamericano contra o milionário futebol inglês. A derrota nos pênaltis, o choro copioso, a decepção futebolística, o estafe muscular foi interrompido durante a transmissão pela notícia da morte de sete campesinos na região do Cauca colombiano.

O caucano Mina não sabia, mas na sua região a derrota perdura por meses, a morte de líderes e defensores comunitários tornou-se algo comum. Aqui é o lugar onde não temos tempo para prorrogação e nenhum gol no final do jogo pode garantir sobrevida.

Na última sexta-feira (6), os colombianos que antes se reuniam para os jogos da Copa, dessa vez tomaram as praças e ruas em protesto pelo número de mortes de líderes sociais. O #VelatónPorLaVida buscava alertar, e apoiar as investigações sobre o extermínio que acontece no país. Na Bolívia, Brasil, México e Argentina, e em outras regiões, também houveram manifestações de apoio e garantia pela paz. Quem assiste ao documentário Nos Están Matando compreende essa manifestação apoiada por diferentes países. Infelizmente, na América Latina nos reconhecemos também pela dor: “Tenemos que nos unir a nível continental para hacer esa expresión de resistencia”. O depoimento de Feliciano Valencia, líder indígena, é contundente na unificação de demandas comunitárias e sua fortificação frente aos desafios e reconhecimentos sociais.

Os documentaristas Daniel Bustos Echeverry, Emily Wrigth e Tom Laffay durante um ano acompanharam os defensores de direitos humanos ameaçados e sobreviventes do norte do Cauca: Feliciano Valencia, líder indígena nasa, e Héctor Marino Carabalí, líder afrodescendente. O filme, muito mais apoiado na sua função de denúncia do que de estética, exerce abertura para uma análise do processo de paz no país. Após a assinatura entre FARC e governo, liderado por Juan Manuel Santos – que lhe garantiu o prêmio Nobel da Paz –, ocasionou que nas regiões que antes eram dominadas pela FARC passasse a pulverizar grupos menores de narcotraficantes e mineradoras ilegais que estão em plena disputa pelo território. No registro documental de uma manifestação em Cali, uma líder indígena explica: “Queremos decirle al gobierno Santos, premio Nobel de Paz, que la paz no se construye desde el escritorio de Bogotá. Se construye con el pueblo, con los pueblos indígenas, con los pueblos campesinos, con pueblos afros, con los estudiantes, con los sindicatos, con todos que hacemos parte de la sociedad civil. Una paz, sin la participación del pueblo no es una paz verdadera”. A defesa dos recursos naturais passou a valer a vida de muitos líderes. O filme que passeia pelo céu do Cuaca, registra momentos tensos de familiares, da subjetividade afetada, de liberdade vigiada, inicia com um velório que entre o choro contido, é transformado em grito de auxílio, segundo o diretor Laffay: “En los medios internacionales no se habla del tema, porque en Colombia el interés de la paz está enfocado en la desmovilización de las Farc. Y está bien, porque eso es clave para el proceso de paz. Sin embargo, quienes tienen que cargar con la responsabilidad de construirla son los líderes sociales y ellos son los que están siendo asesinados. Por eso, este documental es un grito de auxilio”.

Os dados na Colômbia variam entre 200 e 260 mortos de lideranças das regiões afetadas pelo conflito – com destaque para os departamentos de Cauca, Antioquia e Nariño que dividem a maioria dos casos. Para Valencia, que desde 2006 sofreu três atentados e teve familiares mortos, a superação está no entendimento de uma resistência civil e cultural. Valencia, junto ao povo nasa organizaram uma guarda que supervisiona e controla a entrada em suas terras. A luta do povo nasa (também conhecidos por paeces) já foi registrado pelo jornalista José Navia em 2009, num trecho da crónica La fuerza del Ombligo relatava: “los guardias han frenteado a grupos guerrilleros que intentan realizar patrullajes y ejercer control en un territorio que los paeces han defendido con fiereza por cientos de años. En realidad, el principal objetivo de estos retenes y de las caminatas nocturnas de la Guardia Indígena es enviarles un mensaje a los grupos armados sobre quién manda en el resguardo; y advertiles que no están dispuestos a someterse a las amenazas de nadie. Así, radicales en la defesa de su territorio y temerarios frente a la muerte, han sido los paeces durante toda su vida”. As cenas do documentário comprovam isso, a destruição de uma mineradora ilegal pela Guardia Indígena e o forte senso coletivo reafirmam a importância de uma vida pelo comunitário. O mesmo acontece com a formação de uma Guardia Cimarrona pela região de maioria formada por afrocolombianos.

As medidas protetivas são, até o momento, enuviadas pelo governo colombiano e o recém presidente eleito Iván Duque não apresenta movimentos concretos para sua resolução. Alberto Brunori, Representante de Direitos Humanos da ONU, em artigo fala que “la impunidad que ronda estos ataques agrava la situación, puesto que, ante la ausencia de sanción oficial, el reproche social se reduce y la violencia encuentra justificación”. Por isso, que esse movimento – que também é genocida – fortalece a impossibilidade democrática. Essa tese, é apresentada no documentário pela representante do programa não-governamental Somos Defensores, Diana Sanchez: “Hoy tenemos um Estado y una clase política profundamente classista y los muertos, agredidos y amenazados son sectores populares. Los sectores populares no cuentan para los dueños de este país”. Portanto, o que se exemplifica novamente é uma atuação racista e classista dos mandatários, e não por acaso o número de mortes de líderes é dividido entre a população indígena e afrocolombianos – 45% líderes comunitários, 23% líderes afro e indígenas, 11% campesinos e 5% líderes sindicais (Fonte: Pacifista).

O cronista Alberto Salcedo Ramos, resolveu encontrar em Gabriel Garcia Márquez algum entendimento para algo tão surreal, e Ramos declarou: Cuando Gabo escribió esta novela tenía un ojo puesto en nuestra realidad. Si hoy sentimos tan cercano lo que nos cuenta es, en parte, porque el país es el mismo. El país del eterno retorno a la barbárie.

E assim, governos e sistema vão perpetuando Macondo:

“En la noche, después del toque de queda, derribaban puertas a culatazos, sacaban a los sospechosos de sus camas y se los llevaban a un viaje sin regreso. Era todavía la búsqueda y el exterminio de los malhechores, asesinos, incendiarios y revoltosos del Decreto Número Cuatro, pero los militares lo negaban a los propios parientes de sus víctimas, que desbordaban la oficina de los comandantes en busca de noticias. «Seguro que fue un sueño -insistían los oficiales-. En Macondo no ha pasado nada, ni está pasando ni pasará nunca. Este es un Pueblo feliz.» Así consumaron el exterminio de los jefes sindicales”
(MÁRQUEZ, Cien años de soledad)

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Autor

Jornalista. Fronteiriço. Mestrando em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).