O tajá místico

Não é apenas pelo seu feitio decorativo que o tajá (Caladium bicolor) é festejado na Amazônia como planta de estimação.

Nas andanças pela Amazônia um rico patrimônio biocultural se descortinou aos meus olhos, sempre atentos aos detalhes, revelando aspectos imperceptíveis para quem vê a floresta apenas sob a ótica da biodiversidade ou da preservação ambiental destituída de seus fatores humanos, que há tanto convivem ali e manipulam a biodiversidade existente naquelas áreas. Assim, pesquisando o uso medicinal da fauna (tema de minha pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas, pela Universidade Federal do Pará) me deparei com o uso mágico-religioso das plantas, muitas das quais tidas em casa como verdadeiras protetoras do lar e de seus habitantes. Estes usos acabam se propagando de maneira difusa no contexto urbano, mas mantendo a origem no imaginário popular que mescla …

Documentário “Belo Monte: Depois da Inundação”

Abordando aspectos de resistência e dos impactos socioambientais de mais este gigante do progresso que chegou onde antes havia paz e harmonia entre a sociobiodiversidade, o documentário “Belo Monte: depois da inundação”, dirigido pelo premiado cineasta Todd Southgate, proporciona uma importante reflexão sobre os caminhos distintos que, na última década, levaram à efetiva implantação, construção e funcionamento da quarta maior usina hidrelétrica do planeta. Apresentando um histórico do desenvolvimento do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte desde meados dos anos 2000, a produção ressalta as evidências de abusos de poder e descumprimentos legais presentes em todo o processo. Foram interesses políticos e econômicos que permitiram que o projeto prosseguisse mesmo com evidências claras e denunciadas ao redor do mundo de violações …

“Como vamos saber o tempo da nossa história acontecer?”

Como os indígenas do Parque Nacional do Xingu, hoje uma ilha de preservação socioambiental em meio ao monocultivo de soja e milho, percebem as alterações climáticas e suas implicações para a sobrevivência de seu povo? Produzido em parceria pelo Instituto Socioambiental e o Instituto Catitu, o filme “Para onde foram as andorinhas?” retrata como a sabedoria ecológica desses povos, tradicionalmente conhecidos como os guardiões da floresta, está sendo impactada pelas alterações no ecossistema. O ciclo das borboletas, que surgiam na época da seca dos rios, e o ciclo das cigarras, que anunciavam as primeiras chuvas propícias para o plantio das roças, parecem ter sofrido alterações drásticas, deixando alarmados os indígenas do Xingu. O que para alguns pode parecer um mero …

Resistir para quê?

Por Uwira Xakriabá* Na manhã de anteontem (14/06/2016) o Conselho Aty Guasu informou que, segundo o Cacique Lopes, a Comunidade do Tekoha Pyelito Kue, no município de Iguatemi-MS, passou a noite sem dormir por conta dos tiroteios, tentando se proteger dos pistoleiros que cercavam a aldeia. Ao mesmo tempo, mais de 70 fazendeiros e seus pistoleiros atacaram a tiros as comunidade Guarani e Kaiowa ferindo mais de dez indígenas e matando o jovem agente de saúde indígena Claudionor Souza. Enquanto isso, no Congresso Nacional, deputados pediam ao presidente interino da república, Michel Temer, que revogasse as portarias de demarcação de várias terras indígenas. Na manhã de ontem (15/06/2016), com o nascer do sol veio a notícia de Santa Isabel, no Araguaia, …

A língua que somos

Paca, tatu, cotia sim. Esses e outros bichos desconhecidos na Europa foram encontrados no litoral brasileiro e na Amazônia pelos portugueses, que tomaram emprestado das línguas indígenas os nomes de animais, peixes, plantas, práticas culinárias, tecnologias tradicionais e formas de fazer as coisas. Mas, por outro lado, os portugas trouxeram um mundo de coisas novas que não existiam aqui: enxada, machado de ferro, papel, catecismo, bíblia, pecado, cupidez, padre, soldado, pólvora, canhão e até animais como vaca, cavalo, cachorro, galinha. Com as coisas, trouxeram os nomes das coisas. A língua portuguesa e as línguas indígenas, através de seus falantes, ficaram se esfregando e se roçando uma nas outras, num intenso troca-troca. Esse atrito, que a sociolinguística chama delínguas em contato, …