O homem e a floresta: uma relação de pertencimento*

Acostumado a estudar a Amazônia desde muito pequeno e a admirar toda a sua imponência, a vivência naquela localidade não poderia ter sido mais enriquecedora e capaz de valiosas lições de vida.

amazonia

Em 2016 saí do cerrado mato-grossense, onde morei entre o povo Xavante, e me mudei para a babilônia amazônica conhecida como Belém do Pará a fim de cursar a minha pós-graduação em Agriculturas Amazônicas pela Universidade Federal do Pará. Acostumado a estudar a Amazônia desde muito pequeno e a admirar toda a sua imponência, a vivência naquela localidade não poderia ter sido mais enriquecedora e capaz de valiosas lições de vida. Durante o mestrado, pude realizar algumas incursões à campo visitando paisagens distintas, como as iniciativas agroecológicas no Nordeste Paraense, o litoral e as florestas ao sul da Ilha do Marajó, onde desenvolvi minha pesquisa sobre as apropriações da fauna para finalidades medicinais. Realidades visualmente distintas, mas que guardavam elementos […]

Pintura pra alma

Revivi em outras proporções a tragédia do índio pataxó Galdino, queimado vivo enquanto dormia nas ruas de Brasília no ano de 1997, há quase 20 anos, e finalmente pude compreender o motivo pelo qual os jovens nos evitavam.

Pintura pra Alma

Por quatro anos, fui membro de uma equipe que trabalha aspectos de resgate e intercâmbio cultural em duas Terras Indígenas de composição multiétnica do noroeste paulista, Icatú e Vanuíre. Em meio a esses sobreviventes da ocupação daquelas prósperas terras e da ganância do ‘homem branco’, fui introduzido no campo da etnobiologia e compartilhei de momentos únicos, mágicos e de imensa sabedoria ancestral trazidos no sangue de cada um. Certa vez, numa visita à Terra Indígena Vanuíre, tive a oportunidade de me aproximar dos mais jovens de modo atípico: não era no futebol, nem nas festinhas que curtiam a noite, mas numa atenta e especial sessão de pintura corporal feita com tinta de jenipapo, palitos de madeira, atenção e muito talento. […]

Gente que vira bicho, bicho que vira gente…

De colocação em colocação o causo ganhava detalhes e contornos cada vez mais interessantes, onde a cultura popular acabava por apropriar-se de um acontecimento recente explicando-o baseado num sincretismo de cosmovisões distintas, manifestação típica dos rincões da floresta amazônica fortemente influenciada por sua raiz indígena.

Gente que vira bicho, bicho que vira gente... 1

Durante os meses de abril e setembro de 2017, estive imerso na realidade da Reserva Extrativista Mapuá, nas florestas ao sul da Ilha do Marajó/PA, desenvolvendo a minha pesquisa de mestrado acerca das atribuições medicinais conferidas à fauna pelos agroextrativistas daquela localidade. Acolhido com familiaridade por um povo gentil e extremamente conectado com o ambiente natural, vivenciei inúmeros ‘causos’ e um especificamente me marcou: o causo da onça preta. Relatado com naturalidade em todas as colocações que eu visitava às margens do rio Mapuá, este causo havia ocorrido, segundo relatos, entre os anos de 2015 e 2016,  aterrorizando inúmeras famílias haja vista todo o mistério que pairava sobre a aparição de uma velha onça preta, sem pelos em muitas partes […]

O consumo em cheque

Com a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) o estilo de vida da espécie humana foi profundamente alterado em crenças e atitudes e uma questão salta às vistas como algo que não mais poderemos ignorar: o consumo do planeta.

O consumo em cheque

Após algum tempo distante, retorno para colaborar como blogger no Raízes num momento em que o posicionamento esclarecido, o diálogo pautado pelo conhecimento científico e a capacidade de alteridade se fazem essenciais para a sobrevivência no planeta. Com a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) o estilo de vida da espécie humana foi profundamente alterado em crenças e atitudes e uma questão salta às vistas como algo que não mais poderemos ignorar: o consumo do planeta. Não apenas do consumo NO planeta, mas também do consumo DO planeta enquanto fonte de recursos para a existência humana e a propagação de hábitos desenfreados destinados a mover uma engrenagem econômica que pretere tudo ao lucro. Fruto de relações desarmônicas como o desmatamento das […]

Terras Indígenas Xavante

Este artigo apresenta um relato de experiência de cunho etnográfico sobre a vivência junto ao povo indígena Xavante da Aldeia Daritidzé, Terra Indígena Parabubure, Mato Grosso, Brasil. O objetivo principal foi relatar o cotidiano das relações abrangendo aspectos como sociabilidades, alimentação e cultura, saúde, educação e a relação com a sociedade não-indígena do entorno. Observação participante, entrevistas e análises de documentos foram os principais métodos utilizados, apoiados por registros fotográficos e de cunho pessoal. O texto se propõe a apresentar a realidade cotidiana vivenciada pela comunidade, sob a perspectiva do pesquisador, problematizando aspectos cruciais para a melhor compreensão da realidade local e das dinâmicas entre as sociedades indígena e não-indígena no Brasil.

Kaingang, Ancestralidade e Felicidade

Entrevista com Niminon Pinheiro.

Niminon Pinheiro-2

«Fui praticamente expulsa de Vanuire pela FUNAI, apesar do acolhimento dos indígenas. Percebi que não podia ir até as terras indígenas (os indígenas viviam como que em “campos de concentração”, isolados) fui para os museus, arquivos, centros de documentação. Fui buscar tudo que esclarecesse a vida dos indígenas, das florestas e dos animais que viviam ou viveram no oeste do Estado de São Paulo e que foram sendo expulsos ou assassinados para que os latifúndios de propriedade de políticos (como Lélio Pizza, Manoel Bento Cruz, etc) se estabelecessem na área dos indígenas, das florestas e dos animais silvestres.»