competição entre instituições universitárias

Se a educação superior contemporânea pudesse ser sintetizada a partir de suas tendências mais recentes, tal síntese incluiria aspectos como a redução global do financiamento público para as instituições universitárias; as pressões para o isomorfismo em termos de forma de construção e disseminação do conhecimento, de modelo institucional, de estrutura curricular e de idioma; o predomínio da ideia de formação universitária voltada a suprir as necessidades instrumentais do mercado mundial de trabalho capitalista, além da acentuada ênfase na produção de conhecimento útil à indústria. Em grande medida, tais tendências resultam da proliferação e do aprofundamento de imperativos mercadológicos na totalidade do setor. Inscritas na conjuntura socioecômica mais ampla do neoliberalismo, configuram-se como distintas, porém entrelaçadas manifestações de “capitalismo acadêmico”. Se articulam, […]

Reforma universitaria

Como narrativa política hegemônica, a internacionalização da educação superior tem sido projetada como bem incondicional; via para a “excelência universitária” e caminho inequívoco a ser percorrido por aqueles que almejarem incluir-se à “economia do conhecimento”. Em contraponto a essa narrativa – que em grande medida se desenvolve distanciada das discussões sobre os riscos que o excesso de racionalidade econômica tem provocado no setor e na sociedade em geral – diversos estudos explicitam problemas políticos e éticos atrelados à ressignificação dada às relações internacionais acadêmicas e universitárias contemporâneas. O argumento central é de que a recente ênfase na internacionalização1Cabe, aqui, uma breve distinção entre a ideia reducionista de internacionalização projetada pelos organismos internacionais e acriticamente aceita por governos, instituições e estudiosos […]

Decoloniza tu mente - Cidadania global

No último texto, tratamos de como a noção de “cidadania global” enfatizada pelo discurso hegemônico sobre internacionalização do currículo na educação superior se refere a um construto naturalizado da modernidade/colonialidade, que só pode existir por vias da degradação ontológica e epistêmica do “outro”; de seu desaparecimento como realidade. Dado o histórico desmantelamento do sistema de referências da sociedade colonizada, que passa a ser descrita como uma sociedade sem valores, o Sul Global emerge no contexto de internacionalização como um espaço que demanda desenvolvimento e serviços e a serem supridos pelo Norte, com uma população cujas aspirações de “ser alguém”, “tornar-se um cidadão global” são valorizadas por aqueles capazes de “proporcionar” tais feitos. A ênfase nesse discurso tem relação íntima com […]

Em tempos de expansão e consolidação de um mercado mundial para a educação superior, a proliferação de rótulos, classificações e indicadores para fazer referência às tendências transnacionais no ensino e na pesquisa significa mais do que um exercício de tautologia ou tentativa imparcial de organização de um campo de estudo. Na ótica do capitalismo acadêmico, expressa a criação de novos “produtos” e “serviços”, construtos destinados a transformar-se em aspirações e atuar no imaginário daqueles que compram. No plano da experiência imediata, o colonizado, que viu o mundo moderno penetrar até os cantos mais remotos da mata, toma uma consciência muito aguda daquilo que ele não possui (Frantz Fanon – Os condenados da terra). Entre as tendências mais recentes no discurso […]

America Invertida

Com referência a um símbolo de afirmação da identidade cultural latino-americana, o desenho “América Invertida” (1943), do artista uruguaio Joaquin Torres García, faço uso deste espaço junto à Iberoamérica Social: Revista-Red de Estudios Sociales para apresentar reflexões que problematizam, de um ponto de vista contextualizado, a educação superior mundial contemporânea e o processo que convencionou-se chamar de internacionalização.

Embaso os argumentos aqui dispostos em teóricos situados na matriz do conhecimento crítico e pós-colonial/decolonial – dentre os quais destaco Frantz Fanon, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Boaventura de Sousa Santos, Catherine Walsh, Antonio Gramsci, Alberto Guerreiro Ramos, Celso Furtado e Darcy Ribeiro – para dialogar sobre temas como universidade; globalização; ciências sociais; produção de conhecimento em internacionalização; políticas supranacionais, nacionais e institucionais para o setor educacional; capitalismo acadêmico; relações internacionais institucionais e acadêmicas; mobilidade; regionalização; internacionalização do currículo; políticas de idiomas; ranqueamentos; produtivismo acadêmico e participação social.

Universidade colonial

Em tempos de reconfiguração do papel exercido pela educação superior no mundo, esforços direcionados à internacionalização se intensificam e se manifestam nos discursos como imperativo; como caminho para que os sistemas educacionais respondam a um contexto global complexo e incerto. Ao enaltecerem suas virtudes e suprimirem suas contradições, tais discursos acabam por neutralizar um fenômeno que envolve motivações e interesses distintos, um fenômeno que legitima determinados países, universidades e indivíduos como naturalmente superiores em relação a outros. Os relatórios sobre educação superior no mundo revelam um flagrante descompasso na colheita dos benefícios proporcionados pela internacionalização. Enquanto o Sul, amparado em um imaginário global dominante, mimetiza estratégias exógenas e se consolida como cliente de produtos educacionais, é o núcleo do sistema […]