Desafiando o império positivista na prática da internacionalização da educação superior

A ideia de decolonizar a universidade e seu modo de inserção internacional faz parte do projeto mais amplo de busca por justiça social e econômica.

Educação superior, universidade e internacionalização coloniais As interpretações dominantes do mundo em determinada época facilitam, possibilitam e validam as transformações sociais conduzidas pelos grupos hegemônicos. Notadamente, a expansão mundial do sistema capitalista não teria se concretizado sem a legitimação dos princípios de apropriação e exploração conferidos pela ciência moderna e sua diferenciação hierárquica radical entre humanidade e natureza ou sujeito e objeto. A universidade é simultaneamente produtora e produto desse projeto civilizatório. Suas divisões disciplinares, seus modelos teóricos e suas histórias eurocentradas consagram o padrão de poder capitalista/moderno/colonial. Do mesmo modo, trata-se de uma instituição cujas práticas se alimentam do modo binário pelo qual o conhecimento é majoritariamente produzido e organizado. É nesse sentido que a “internacionalização da educação superior” […]

A armadilha da competição entre instituições universitárias

À medida que os rankings acadêmicos globais excluem de seu escopo funções universitárias, tradições e especificidades contextuais distanciadas da lógica cultural eurocentrada e de seus interesses particulares, eles não somente “privilegiam os já privilegiados”, como também silenciam epistemologias, práticas e modos de existência.

Se a educação superior contemporânea pudesse ser sintetizada a partir de suas tendências mais recentes, tal síntese incluiria aspectos como a redução global do financiamento público para as instituições universitárias; as pressões para o isomorfismo em termos de forma de construção e disseminação do conhecimento, de modelo institucional, de estrutura curricular e de idioma; o predomínio da ideia de formação universitária voltada a suprir as necessidades instrumentais do mercado mundial de trabalho capitalista, além da acentuada ênfase na produção de conhecimento útil à indústria. Em grande medida, tais tendências resultam da proliferação e do aprofundamento de imperativos mercadológicos na totalidade do setor. Inscritas na conjuntura socioecômica mais ampla do neoliberalismo, configuram-se como distintas, porém entrelaçadas manifestações de “capitalismo acadêmico”. Se articulam, […]

“Los dolores que quedan son las libertades que faltan”: A Conferência Regional de Educação Superior e o centenário do Movimento de Córdoba. Princípios para a internacionalização das universidades públicas latino-americanas?

Os cem anos da Reforma Universitária de Córdoba, movimento político, social e cultural que ecoou, de diferentes formas, nas universidades públicas da América Latina, vem nos recordar da função social dessas instituições e nos despertar para princípios a serem considerados em seus processos de internacionalização.

Como narrativa política hegemônica, a internacionalização da educação superior tem sido projetada como bem incondicional; via para a “excelência universitária” e caminho inequívoco a ser percorrido por aqueles que almejarem incluir-se à “economia do conhecimento”. Em contraponto a essa narrativa – que em grande medida se desenvolve distanciada das discussões sobre os riscos que o excesso de racionalidade econômica tem provocado no setor e na sociedade em geral – diversos estudos explicitam problemas políticos e éticos atrelados à ressignificação dada às relações internacionais acadêmicas e universitárias contemporâneas. O argumento central é de que a recente ênfase na internacionalização1Cabe, aqui, uma breve distinção entre a ideia reducionista de internacionalização projetada pelos organismos internacionais e acriticamente aceita por governos, instituições e estudiosos […]

“Global citizens wanted” (II): confrontando o discurso dominante sobre a internacionalização do currículo na educação superior

Para os situados “deste lado” da linha abissal, mais relevante do que a “internacionalização do currículo” é a “decolonização do currículo”.

No último texto, tratamos de como a noção de “cidadania global” enfatizada pelo discurso hegemônico sobre internacionalização do currículo na educação superior se refere a um construto naturalizado da modernidade/colonialidade, que só pode existir por vias da degradação ontológica e epistêmica do “outro”; de seu desaparecimento como realidade. Dado o histórico desmantelamento do sistema de referências da sociedade colonizada, que passa a ser descrita como uma sociedade sem valores, o Sul Global emerge no contexto de internacionalização como um espaço que demanda desenvolvimento e serviços e a serem supridos pelo Norte, com uma população cujas aspirações de “ser alguém”, “tornar-se um cidadão global” são valorizadas por aqueles capazes de “proporcionar” tais feitos. A ênfase nesse discurso tem relação íntima com […]

“Global citizens wanted” (I): cidadania global como construto do imaginário moderno/colonial da internacionalização do currículo

Para que o cidadão global exista, o “outro” – cidadão não-global, sujeito sujeitado, menos racional e humanamente inferior – também precisa existir.

Em tempos de expansão e consolidação de um mercado mundial para a educação superior, a proliferação de rótulos, classificações e indicadores para fazer referência às tendências transnacionais no ensino e na pesquisa significa mais do que um exercício de tautologia ou tentativa imparcial de organização de um campo de estudo. Na ótica do capitalismo acadêmico, expressa a criação de novos “produtos” e “serviços”, construtos destinados a transformar-se em aspirações e atuar no imaginário daqueles que compram. No plano da experiência imediata, o colonizado, que viu o mundo moderno penetrar até os cantos mais remotos da mata, toma uma consciência muito aguda daquilo que ele não possui (Frantz Fanon – Os condenados da terra). Entre as tendências mais recentes no discurso […]

“Internacionalização invertida”: reflexões críticas sobre a educação superior mundial contemporânea

Desnaturalizar a ideia de internacionalização enfatizada pelo discurso político dominante implica em situar esse processo em seu próprio espaço e tempo.

Com referência a um símbolo de afirmação da identidade cultural latino-americana, o desenho “América Invertida” (1943), do artista uruguaio Joaquin Torres García, faço uso deste espaço junto à Iberoamérica Social: Revista-Red de Estudios Sociales para apresentar reflexões que problematizam, de um ponto de vista contextualizado, a educação superior mundial contemporânea e o processo que convencionou-se chamar de internacionalização.

Embaso os argumentos aqui dispostos em teóricos situados na matriz do conhecimento crítico e pós-colonial/decolonial – dentre os quais destaco Frantz Fanon, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Boaventura de Sousa Santos, Catherine Walsh, Antonio Gramsci, Alberto Guerreiro Ramos, Celso Furtado e Darcy Ribeiro – para dialogar sobre temas como universidade; globalização; ciências sociais; produção de conhecimento em internacionalização; políticas supranacionais, nacionais e institucionais para o setor educacional; capitalismo acadêmico; relações internacionais institucionais e acadêmicas; mobilidade; regionalização; internacionalização do currículo; políticas de idiomas; ranqueamentos; produtivismo acadêmico e participação social.