Quando The Smiths serve para combater a misoginia

Histórias que, ao final, além de revelar a impossibilidade do amor, demonstram a misoginia em sua melhor forma: o homem que, após desqualificar o seu amor, desqualifica a si mesmo e, renunciando ao amor, abre mão dele próprio.

A letra da música “Some girls are bigger than others”, da banda inglesa The Smiths, lançada em 1985, talvez pudesse ser lida como sobreposição de distintos tempos que, na verdade, confluem para afirmar uma única verdade: some girls are bigger than others. Quando Morrisey, vocalista da banda, escreveu essa letra, parecia, por um lado, interessado em brincar com elementos diversos e, por outro, bastante zeloso de que a sua combinação pudesse ser útil para produzir algo próximo de um poema. Contudo, ao misturá-la com a melodia, algo se inverte e a letra, que parecia ter forma definida, torna-se ainda mais elástica. Assim, se de uma era a outra (from the ice-age to the dole-age), o cantor descobre que a humanidade se ocupa […]

Esboço de uma teoria da fama (parte I)

O artista autorizaria-se pelo fracasso e por suas falhas diante do suposto êxito.

Boris Pasternak (1890-1960), poeta russo, num de seus poemas escreveu que “Ser famoso não é bonito./ Não nos torna mais criativos”. A fama em questão estaria mais próxima da bajulação e bem distante da ideia de engajamento, engajamento esse que torna “dispensável os arquivos” e faz com que um manuscrito seja apenas “só um escrito”. Pasternak, suponho, por um lado, brinca com a ideia de que o artista é um tipo de herói moderno, alguém disposto a experimentar uma certa experiência limite que o coloca acima da sociedade e do tempo que ele habita, mas, pelo outro lado, assume as consequências de não aceitar essa glória quando escreve: O fim da arte é doar somente. Não são os louros nem as loas. Constrange a […]

Jorge Luis Borges, um ultraísta

Em 2016 completam-se trinta anos da morte de Jorge Luis Borges (1899-1986), escritor argentino do século XX que integra a literatura universal. Muitas vezes lembrado por sua cegueira, um fato interessante em sua trajetória é o vínculo que Borges estabeleceu com Buenos Aires, sua cidade natal, lugar indissociável de sua criação literária. Nascido em 1899, Borges, já na infância, teve formação cosmopolita. Desde cedo, em sua casa e pela família, foi incentivado a desenvolver habilidades e qualidades literárias e intelectuais (cf. MICELI, 2012, p. 44-85). O contato com os livros da biblioteca de seu pai (1874-1938), Jorge Guilhermo Borges, e com a tradição argentina, através da história familiar de sua mãe, Leonor Acevedo Suárez (1876-1975), além de fazer parte do […]

Ricardo Benzaquen de Araújo, um professor

Sem dúvida, a maior contribuição de Ricardo Benzaquen de Araújo (1952-2017), para as ciências humanas, num Brasil pouco afeito ao passado e dado à adjetivação, foi a de revalorizar Gilberto Freyre e sua obra, principalmente Casa-grande & Senzala. De fato, passei a entendê-lo melhor após ler sua tese escrita entre 1987 e 1993, no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na contramão de muitos acadêmicos que excluíam Gilberto, reduzindo-o a simples defensor do regime militar, Ricardo fez uma leitura ousada ao mostrar como a valorização dos antagonismos seria fundamental para entender esse pensador. Ricardo, aliás, nos ensinou a ler o mundo e a valorizar suas contradições. Ele, inclusive, prezava mais os antagonismos do que as sínteses. Isso, […]

Dando corpo a uma história, a princípio, sem lugar

Comecemos este ensaio com quatro versos de um poema inacabado, dedicado ao Novo Mundo: Divina Poesía […] tiempo es que dejes ya la culta Europa y dirijas el vuelo adonde te abre el mundo de Colón su gran escena. (BELLO, 1979, p. 20) “Alocución a la poesía” é um fragmento do poema América, escrito por Andrés Bello (1781-1865). No conjunto, o poema expressa a abertura para um horizonte no qual o Novo Mundo começou a se descolar da Europa: a América, dada sua idade e circunstância, seria o lugar ideal para a construção de uma nova experiência que não florescera no Velho Mundo. Essa oposição entre dois mundos remonta ao período do Renascimento e é anterior às Navegações. Aliás, deu-se […]

A Biblioteca de Jorge Luis Borges

Para Reinaldo Santos Neves A epígrafe do conto “A Biblioteca de Babel” (1941), de Jorge Luis Borges (1899-1986), é do livro A anatomia da melancolia (1621 é a data da primeira edição) de Robert Burton. Nela, está escrito: “Através desta arte você pode contemplar a variação das vinte e três letras…”. Abertura do conto, a frase de Burton relaciona-se ao segundo axioma da Biblioteca: a variação de 25 símbolos ortográficos (o ponto, a vírgula, o espaço e as vinte e duas letras) seria suficiente para enumerar o desconhecido. A Biblioteca se divide da seguinte forma: “O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, […]