Brasil e sua liberação do Politicamente Correto. 3ª parte

«Revelações», beneficio da escravidão, AI-5, desconfiança nas instituições, entre otros exemplos, formam parte da terceira entrega de eventos na «liberação» do politicamente correto emprendida pelo Governo de Jair Bolsonaro.

Brasil e sua liberação do Politicamente Correto. 3ª parte 1
Brasil e sua liberação do Politicamente Correto. 3ª parte 2
Brasil e sua liberação do Politicamente Correto. 3ª parte 3
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O 1 de janeiro de 2020 se cumpriu o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, e desde a posse do presidente nos propusemos acompanhar a “Liberação de Brasil do Politicamente Correto” anunciada no seu primeiro discurso. Já fizemos duas entregas12e agora vamos com a terceira, que inclui episódios que completam o primeiro ano de governo.

Para começo desta entrada, temos uma dimensão nova que assume a “liberação” iniciada no Brasil, na que vemos a integrantes do governo “revelando” situações “desconhecidas” para muitos. Por exemplo Filipe Martins, o Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, que no dia 17 de julho de 2018 publicou a informação de que os canais de noticias New York Time, CNN e da Globo, formam parte de um “experimento de engenharia social”, referenciando a Olavo de Carvalho, quem afirma que esses canais são parte de uma “estratégia do movimento pró-pedofilia”3.  Também o Secretario da Cultura do governo Bolsonaro “compartilhou revelações”, quando no dia 19 de novembro de 2019, na reunião anual da Unesco em Paris, informou no evento internacional que a arte e a cultura brasileira estiveram sendo utilizadas, nas últimas duas décadas, como ferramentas de domínio pelos governos oficialistas; alguns dos trechos da fala de Roberto Alvim foram:

«A arte brasileira transformou-se em um meio para escravizar a mentalidade do povo em nome de um violento projeto de poder esquerdista, um projeto mesquinho que perseguiu e marginalizou a autêntica pluralidade artística de nossa nação”.4 

«A arte e a cultura no Brasil estavam a serviço da bestialização e da redução do indivíduo a categorias ideológicas, fomentando antagonismos sectários carregados de ódio – palcos, telas, livros, não traziam elaborações simbólicas e experiências sensíveis, mas discursos diretos repletos de jargões do marxismo cultural, cujo único objetivo era manipular as pessoas, usando-as como massa de manobra de um projeto absolutista».4

Um outro exponente da dimensão reveladora da liberação do politicamente correto é o presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), instituição subordinada à Secretaria de Cultura e responsável pelo desenvolvimento de políticas públicas de fomento à arte. Dante Mantovani tem “suspeitas” em relação a qualidade e influencia do Elvis Presley, que se pode clarificar no seguinte trecho,

«Na década de 50 apareceu um tal de Elvis Presley com o rock lá que fazia todo mundo sacolejar, balançar o quadril. Todo mundo ama esses caras e começam a ser introduzidos certos comportamentos. O Elvis Presley, por exemplo, morreu de overdose»5.

 E seguindo sua linha de pensamento, o presidente da Funarte considera que “o rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto” e para “fechar” seu raciocínio também esclarece que,

«A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que ele fez um pacto com o diabo, com o satanás para ter fama, sucesso»5.

Na contemporaneidade parece indicar, segundo o pensamento do presidente da Fundação Cultural Palmares (órgão que promove a cultura afro-brasileira), que a visão negativa da época da escravidão é uma coisa politicamente correta da que Brasil se deve libertar, devido a que Sérgio Nascimento de Camargo, embora considerando que a escravidão foi terrível, ele argumenta que também foi “benéfica para os descendentes dos escravos” porque, na visão dele “negros do Brasil vivem melhor que os negros da África”6. E acrescente ser contrario ao Dia da Consciência Negra (comemorada no Brasil no dia 20 de novembro) porque,

“(…) é uma data da qual a esquerda se apropriou para propagar vitimismo e ressentimento racial. Isso não é uma data do negro brasileiro. Isso é uma data de minorias empoderadas pela esquerda, que propagam o ódio, ressentimento e a divisão racial»6.

O Ato Institucional Número Cinco (AI-5), decretado no dia 13 de dezembro de 1968 pelo general e então presidente Artur da Costa e Silva, é considerada a mais importante medida que possibilitou que o regime intensificasse ainda mais a repressão durante a ditadura militar no Brasil,

“Ele autorizou uma série de medidas de exceção, permitindo o fechamento do Congresso, a cassação de mandatos parlamentares, intervenções do governo federal nos Estados, prisões até então consideradas ilegais e suspensão dos direitos políticos dos cidadãos sem necessidade de justificativa”7.

Pelo anterior, fica evidente que plantear seu uso em um pais democrático seria contraditório e além, até cruel, pelo simbolismo que tem o AI-5 para os que sofreram/vivenciaram essa época. Porém, isto parece ser considerado também como politicamente correto por um deputado oficialista e pelo Ministro da Economia do Brasil. No dia 31 de outubro de 2019, em resposta aos questionamentos que se lhe fizeram respeito ao como se deveria enfrentar uma possível manifestação social, como as que estavam acontecendo em vários países na América Latina, o deputado Eduardo Bolsonaro (filho do Presidente) falhou o seguinte:

«Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legislação aprovada através de um plebiscito como ocorreu na Itália, alguma resposta vai ter que ser dada, porque é uma guerra assimétrica, não é uma guerra onde você tá vendo seu oponente do outro lado e você tem que aniquilá-lo, como acontece nas guerras militares. É um inimigo interno, de difícil identificação aqui dentro do país. Espero que não chegue a esse ponto né? Temos que ficar atentos»8.

Quem também mencionou o AI-5, como “advertindo” pela sua possível petição em resposta a manifestações populares no Brasil, foi o Ministro da Economia Paulo Guedes (lembrando que o Governo Bolsonaro teve como exemplo/inspiração o modelo econômico do Chile desde a época das eleições presidenciais, pais que na época da fala de Guedes estava imerso numa profunda crise social em rejeição ao modelo neoliberal), quem expressou que,

«É irresponsável chamar alguém pra rua agora pra fazer quebradeira. Pra dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém pra quebrar nada na rua. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?»9.

No seguinte exemplo vamos descrever o atuar do presidente Jair Bolsonaro na investigação de um crime. Aconteceu que no dia 29 de outubro de 2019 foi informado publicamente que no marco da investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, o porteiro do condomínio onde morava Bolsonaro antes de ser presidente, declarou que horas antes do assassinato um dos suspeitos do crime iria para a casa do então deputado Jair Bolsonaro.10 Bom, considerar que todas as pessoas deveriam ser tratadas iguais pela Justiça, e que numa democracia as instituições, como a Polícia Civil, que investigam os crimes são confiáveis, parece ser um pensamento politicamente correto para o Presidente do Brasil, porque Bolsonaro afirmou que «nós pegamos, antes que fosse adulterada, ou tentasse adulterar, pegamos toda a memória da secretária eletrônica que é guardada há mais de ano. A voz não é a minha»11, acrescentando sua desconfiança inclusive no Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel ao indicar que,

«A minha convicção é de que ele agiu no processo para botar meu nome lá dentro. Espero agora que não queiram jogar para cima do colo do porteiro. Pode até ser que ele seja responsável, mas não podemos deixar de analisar a participação do governador. Como é que pode um delegado da Polícia Civil ter acesso às gravações da secretária eletrônica?»11.

O fato anterior significou uma nota conjunta de repudio de entidades de delegados de polícia do Brasil nos seguintes términos,

“Valendo-se do cargo de Presidente da República e de instituições da União, [Bolsonaro] claramente ataca e tenta intimidar o delegado de polícia do Rio de Janeiro, com intuito de inibir a imparcial apuração da verdade”11.

«O cargo de chefe do Poder Executivo Federal não lhe permite cometer atentados à honra de pessoas, muito menos daquelas que, no exercício de seu múnus público, desempenham suas funções no interesse da sociedade e, não, de qualquer governo»11.

Na 2ª parte de “Brasil e sua liberação do Politicamente Correto” incluímos episódios de ofensas emitidas pelo Presidente da República a seus compatriotas e pessoas em geral2; nesta 3ª parte vamos mostrar que o trato educado, cordial e amável parece ser algo politicamente correto, não só para o presidente. O Ministro da Educação, Abraham Weintraub, depois de elogiar a Monarquia no dia da Proclamação da República do Brasil (o que também se poderia considerar um exemplo da “liberação” do politicamente correto), se defendeu com ofensas a internautas de redes sociais, quando uma das pessoas indicou “se voltamos a monarquia, certamente você será nomeado bobo da corte!”, ao que o ministro contestou assim, “uma pena, prefiro cuidar dos estábulos, ficaria mais perto da égua sarnenta e desdentada da sua mãe”, posteriormente outra pessoa escreveu “Ministro: andando na rua encontrei seu bom senso. Ele mandou lembranças e disse que está com saudades!, para o que Weintraub adicionou “Quem (sic) bom, agora continue procurando pelo seu pai..”; e para finalizar o “dialogo” em redes sociais do Ministro da Educação do Brasil, em resposta ao tuíte “Vai cuidar da educação seu incompetente, e para de postar porcaria no twitter», Abraham Weintraub postou, “Miguel, sinto em avisar, porém, seu caso não resolve estudando. Tem que reencarnar. Aproveita e peça para não voltar tão feio (parece mistura de tatu com cobra)”12. E finalizamos com uma frase que é um paradoxo quando é falada pela Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, acrescentando que foi no seu discurso no evento da Conferência e Ação Política Conservadora, onde enalteceu o conservadorismo e criticou a ideologia de gênero decidiu começar falando, “estou aqui há 24 horas e ninguém me ofereceu ainda um cigarro de maconha e nenhuma menina introduziu um crucifixo na vagina”13.

Com esta 3ª parte finalizamos o primeiro ano do Governo de Jair Bolsonaro, com a que se confirma a suspeita planteada na 2ª parte, que a “liberação” do politicamente correto, iniciada no 1º de janeiro de 2019, irá gerar futuras outras partes.

Notas

  1. https://iberoamericasocial.com/brasil-e-sua-liberacao-do-politicamente-correto-1a-parte/
  2. https://iberoamericasocial.com/brasil-e-sua-liberacao-do-politicamente-correto-2a-parte/
  3. https://twitter.com/filgmartin/status/1019404060414431232?s=20
  4. https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2019/11/20/secretario-diz-na-unesco-que-arte-brasileira-servia-a-projeto-absolutista.htm
  5. https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/12/02/dante-mantovani-novo-presidente-da-funarte-e-maestro-e-disse-que-rock-leva-ao-aborto-e-ao-satanismo.ghtml
  6. https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/12/10/dia-da-consciencia-negra-propaga-vitimismo-diz-chefe-da-fundacao-palmares-apos-reuniao-com-bolsonaro.ghtml
  7. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50747553
  8. https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/10/31/eduardo-bolsonaro-diz-que-se-esquerda-radicalizar-resposta-pode-ser-via-um-novo-ai-5.ghtml
  9. https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/11/26/paulo-guedes-fala-da-possibilidade-de-novo-ai-5-se-corrige-e-diz-que-e-inconcebivel-declaracao-provoca-reacoes.ghtml
  10. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/10/29/suspeito-da-morte-de-marielle-se-reuniu-com-outro-acusado-no-condominio-de-bolsonaro-antes-do-crime-ao-entrar-alegou-que-ia-para-a-casa-do-presidente-segundo-porteiro.ghtml
  11. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/11/03/caso-marielle-entidades-de-delegados-civis-repudiam-declaracoes-de-bolsonaro-e-defendem-daniel-rosa.ghtml
  12. https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/ministro-da-educacao-abraham-weintraub-surta-no-twitter-e-agride-internautas/
  13. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/10/12/nenhuma-menina-introduziu-crucifixo-na-vagina-afirma-damares-em-evento.htm?cmpid=copiaecola&fbclid=IwAR2oJLs-NRiRyryCiBOKcFTABw_k4dHVMgxk2oNWWHLC1FCgLvyVzoPhYas
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Doctorando en Difusión del Conocimiento, Universidad Federal de Bahia, Brasil.

Maestro en Ciencia Animal, Universidad Federal de Bahia, Brasil.

Médico Veterinario, Universidad Católica de Temuco, Chile.

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