Bolívia: algumas notas para entender o golpe

Não é à toa que, hoje, toda essa histórica carga de promessas não cumpridas volta à tona, sempre fomentada pelo poder colonial, hoje representado pelos Estados Unidos. 

Golpe de Estado em Bolivia
Golpe de Estado em Bolivia

A batalha entre a oligarquia rural de Santa Cruz e os povos originários bolivianos não é de hoje. É a marca da colônia que existe e subsiste. Desde que Evo Morales, um aymara, assumiu a presidência do país e iniciou o processo de nacionalização das riquezas, até então entregues às multinacionais, o plano para derrotá-lo foi iniciado. A nacionalização do gás já no início do governo levou a uma primeira tentativa de desestabilização e as propostas de retomada das minas e de outros setores estratégicos como a comunicação também acirraram o ódio da elite branca, capitalista na sua essência, bem como títere dos Estados Unidos.

Foi por isso que em 2008, também desde Santa Cruz foi alavancada uma campanha separatista, visando descolar o oriente (branco e rico) da região da ocidental (indígena e pobre). Naqueles dias, quando a campanha racista foi desatada, nos muros de Santa Cruz amanheciam frases pichadas, com o seguinte recado: “Faça um bem a humanidade, mate um índio por dia”.

Quem teve a sorte de conhecer a magnitude do centro cerimonial de Tihuanaco, a uns 70 quilômetros de La Paz, sabe o quanto esta frase racista é falsa. Os povos originários da Bolívia, que tem suas raízes desde há 11 mil anos naquele lugar, com uma história riquíssima que muitas vezes ultrapassa em esplendor a do tão conhecido Egito, são os depositários de uma proposta de organização da vida absolutamente atual nestes dias em que o planeta agoniza. Carregam, desde sua memória ancestral, a tradição da cooperação, da solidariedade, da comunhão, da repartição de riquezas. E mais, sabem muito bem que o seu espaço geográfico, ao qual chamam pátria, é o lugar onde sabem e querem viver, ainda que com todas as intempéries da vida no altiplano, na solidão da montanha ou na selva.

Pois a terra dos Kolla, dos Tihuanaco, Inca, Guarani e Aymara foi um dia invadida por uma gente estranha que embandeirava uma cruz. Um povo que em nome de um deus e um reino, matou, destruiu e violentou. Uma gente que, não contente em tomar as terras e as riquezas do povo originário, ainda hoje precisa submeter e depreciar. Primeiro, diziam que aqueles que ali tinham construído uma civilização sequer tinham alma e, agora, passados 500 anos, ainda insistem na tese de que eles não têm capacidade para gerir seus próprios destinos.

Pois talvez fosse bom lembrar que não foram os povos originários que entregaram as riquezas bolivianas ao longo de todos esses anos nas sempre bem tratadas mãos estrangeiras. Foi a aristocracia criolla que sugou o guano, o estanho, a prata, o gás, sempre usando o povo autóctone como escravo ou mão-de-obra de segunda classe. Eram eles os que morriam nas minas de estanho ou nas cavernas de Potosí. Alguém até pode dizer que o rei do estanho, Patiño, era um aymara e foi um dos que mais usurpou o solo pátrio. Isso é fato, mas ele foi um entre milhões que logrou escapar do destino de escravo e, perdido no mundo branco/capitalista, se contaminou pela maneira de viver daqueles que dominaram seu povo. A maioria originária vivia sob a opressão.

Pois com a chegada de Evo Morales, um camponês, cocaleiro, a vida e a riqueza da Bolívia começam a voltar para as mãos da maioria das gentes, e a pequena parcela racista e anti-nacional, de uma gente cuja única pátria reconhecida é a do capital, já começou o processo de desestabilização. Sob o manto do racismo, na verdade o que tinham em mente era preservar os recursos da natureza boliviana para as multinacionais, únicos chefes a quem prestam obediência. Não foi só porque odiavam os índios que em Santa Cruz trabalharam com a ideia de separação em 2008. Naqueles dias, na tentativa de retomar o estado para si, eles também tumultuaram as cidades, mataram camponeses, mataram indígenas, humilharam, fizeram o diabo. Mas, o governo conseguiu controlar os protestos e as coisas se acalmaram.

Ao longo dos anos que se seguiram Evo Morales conseguiu fazer com que a Bolívia crescesse, dentro dos padrões capitalistas, mas garantindo que os lucros sobre as riquezas ficassem no interior do país financiando políticas públicas. É fato que Evo nunca se distanciou do capitalismo, apostando unicamente em reformas. Mas, do ponto de vista cultural o seu governo, junto com García Linera, logrou avanços significativos. E, ainda que não fosse uma unanimidade entre os indígenas, que mais o identificam como cocaleiro do que aymara, Evo conseguiu dar à Bolívia sua cara originária.

Essa jornada de 12 anos não foi feita em mar calmo. Sempre houve turbulências, não apenas com os racistas de Santa Cruz. Também os mineiros, trabalhadores historicamente colocados no campo da esquerda, tiveram suas batalhas com o governo de Evo, justamente por conta da nacionalização das minas. Muitas delas já caminhavam como cooperativas e os mineiros não queriam abrir mão do desenvolvimento capitalista das mesmas. Foram muitos os conflitos. Igualmente com algumas nacionalidades indígenas houve batalhas gigantes, como a da tentativa de fazer passar uma estrada por dentro de um Parque Nacional protegido. Inúmeras foram as lutas e as contradições.

Assim que quando Evo e Linera chegaram a essas novas eleições, muitos esgarçamentos já haviam sido provocados, sem que o governo tivesse chegado a bom termo, justamente porque não avançou no aprofundamento das mudanças estruturais. Sequer mexeu na formação do exército.  Havia muitas insatisfações esparsas. E, o fato de a mesma dupla Evo/Linera ter insistido em disputar a eleição acabou sendo o estopim para que a velha direita de Santa Cruz pudesse se levantar outra vez, e desta vez contando com todas essas insatisfações e conflitos que se arrastavam por anos.  Novamente o racismo foi a arma mais poderosa que a elite perdedora encontrou para enfrentar a batalha.

Não é sem razão que a liderança mais expressiva dos atuais protestos, Luís Fernando Camacho, tem caminhado pelas ruas com a imagem da Virgem Maria e a Bíblia. Tomar a Bolívia para os brancos tementes a deus é sua mensagem principal. E, em nome de deus, tal e qual os antigos espanhóis, a proposta tem sido matar e saquear os indígenas. Mas, também, como os espanhóis do passado, deus não é a verdadeira razão da disputa. O que Camacho quer, assim como seus aliados, é tomar o controle das riquezas do país para que a vida volte a ser como antes: as riquezas sendo saqueadas pelas multinacionais e uma pequena parcela da população (a elite) enchendo os bolsos.

Como Camacho conhece bem a realidade boliviana, que desde antes da independência vive essa tensão étnica, faz o que é natural. Acusa os índios de filhos do demônio por cultuarem a Pacha Mama e contra isso carrega a Bíblia, insuflando a massa não-indígena contra os que hoje tem grande poder dentro do governo. Usa, com maestria, o complexo tema racial para esconder seus propósitos reais, dele e dos seus aliados e mentores, que é o de retomar a Bolívia – não para Cristo – mas para os que sempre controlaram as riquezas sem se importar com a maioria indígena.

Foi assim que milhares de pessoas se aliaram a essa “cruzada cívica e cristã” visando derrubar o governo de Evo Morales. Com a ajuda providencial da Organização dos Estados Unidos, que levantou suspeita de fraude nas eleições, a elite entreguista boliviana conduziu os insatisfeitos para a violência extrema. Começaram a queimar casas, sequestrar pessoas, humilhar, ameaçar. Desataram o estopim para o golpe. Sem apoio nas Forças Armadas, tema que deverá ser muito estudado, Evo viu-se premido a renunciar. Horas antes tinham queimado a casa de sua irmã e ele decidiu render-se para evitar maiores desgraças ao povo boliviano. Fez como Jango, no Brasil, que renunciou para evitar um banho de sangue, coisa que não evitou, pelo contrário: o banho de sangue veio com mais força.

E isso pode ser o que aconteça também na Bolívia. Já se movimentam as multidões “abigarradas”, como chamou Zavaleta, ou seja, índios e trabalhadores, trabalhadores/índios, os de abajo, tentando desmobilizar o golpe. Isso significa que muito sangue vai rolar. Os políticos ligados ao MAS, partido do presidente, estão sendo caçados e presos. A casa do reitor da Universidade Mayor de San Andrés foi queimada, a casa de Evo foi saqueada, e o ataque tem se voltado para as figuras do governo que são indígenas. Ou seja. É golpe na sua expressão mais terrível, racista. Haverá resistência, é claro, isso é também típico dos bolivianos. E será dura. Porque o histórico da ação dos brancos/oligarquia/elite dominante na Bolívia é conhecido pelos indígenas desde os primeiros levantamentos por libertação.

Há quase três séculos um aymara chamado Julián Apaza, conhecido mais tarde como Tupac Katari, conduziu as gentes originárias numa luta de libertação. Tal e qual Tupac Amaru, no Peru, ele não excluiu os brancos dos seus exércitos. Era uma luta para extirpar o jugo espanhol e todos os que queriam liberdade foram convocados, mesmo os que não eram indígenas, afinal, aquela era uma luta que deveria unir os que queriam descolar da colônia. A generosidade aymara incluía os filhos dos invasores, certa de que era possível viver em paz, na liberdade. Mas, naqueles dias, os criollos traíram a causa do povo autóctone e ficaram do lado do poder colonial. Não é à toa que, hoje, toda essa histórica carga de promessas não cumpridas volta à tona, sempre fomentada pelo poder colonial, hoje representado pelos Estados Unidos.

O golpe foi dado, mas a luta segue. De novo, como previu Tupac Katari, as gentes bolivianas se levantam e, de novo, há os que preferem se aliar com as forças estrangeiras. Essa é a queda de braço que se dá na Bolívia hoje. De um lado, os capachos do capital, com seus interesses mesquinhos e do outro, as gentes – originárias ou não – bolivianas que querem o controle das suas riquezas e a participação protagônica. Santa Cruz é o foco de mais uma guerra fomentada pelo império, cujo objetivo maior é dividir. Dividir para melhor dominar. Cabe ao povo da Bolívia não cair na armadilha do fundamentalismo, nem branco, nem originário. O inimigo é um só: o capitalismo e seus gerentes. Contra eles lutarão os bolivianos que querem uma Bolívia autônoma, soberana, livre e anticapitalista.

Evo cometeu erros, Evo não aprofundou a revolução, Evo se equivocou em muitas de suas estratégias? Sim, correto. Mas, hoje, é hora de impedir o golpe, de denunciar o golpe, de recuperar a Bolívia para a maioria do seu povo.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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