A elementar história do comum

A forma massiva e a continuidade das narrativas reproduzidas e pré-prontas aparentam que nos resta terceirizar os processos de enunciação.

Fomos fadados a criar mundos externos e internos que são resultados de leituras particulares sobre a vida. Não só fazer parte dela, mas também se torna uma constituição prévia de existência: Contar para existir. Ao passar os olhos, ao ter contato e ao intercambiar novas histórias – ora afirmando o novo, ora potencializando o passado, ou ainda mesclando todos os tempos possíveis – temos práticas que se relacionam com esse mesmo dom que estrutura vivência, criticidade e criatividade. O hábito de contar e ouvir histórias também pode ser traduzido como memória social, ou como uma ambientação de certos códigos e costumes. Contar é jogo de interesse compartido. Ganhar e perder entre os ensaios que narradorxs e ouvintes testam a sua […]

Colômbia e a partida perdida

O caucano Mina não sabia, mas na sua região a derrota perdura por meses, a morte de líderes e defensores comunitários tornou-se algo comum.

Quando Yerry Mina subiu para última jogada da partida contra a Inglaterra, o voo e a consequência pareciam pesadas demais para deixar um homem de 94 kilos no ar. Pela pequena área o zagueiro pairou…segundos prolongados que a realidade não deixaria por se concretizar. O gol, no último minuto, do zagueiro que mancava, somente auxiliou uma sobrevida de um time sulamericano contra o milionário futebol inglês. A derrota nos pênaltis, o choro copioso, a decepção futebolística, o estafe muscular foi interrompido durante a transmissão pela notícia da morte de sete campesinos na região do Cauca colombiano. O caucano Mina não sabia, mas na sua região a derrota perdura por meses, a morte de líderes e defensores comunitários tornou-se algo comum. […]

Os laços desfeitos que unem a América Latina

A essencialidade do trabalho, como fonte comunitária, necessita ser rearticulada frente aos espaços de combate e neocoloniais.

O modo de curadoria que esse blog tem costurado tantos temas, produções e agentes culturais da América Latina tem se mostrado, intencionalmente, um espelho de variadas questões que nos formam e nos fazem reagir frente aos desafios contemporâneos e aos problemas enraizados no passado. Assim, a escolha do filme Eslabones Sueltos (2017) evidencia mais um problema crônico em nossa América Latina: a intersecção entre trabalho e infância. A relação trabalho e infância remonta a formação de nossa sociedade, em diversos momentos históricos a importância do corpo infantil estava na sua reelaboração frente aos desafios “modernos”. A visão de massa por sobre a formação de crianças configurou-se em alguns Estados como política social – e de controle. Dados da Organização Internacional […]

As faces da solidão

O filme inicia com dados que afirmam a condição de 48% da população afroequatoriana vivendo abaixo da linha da pobreza, e tendo a mulher negra como alvo de distintas violências sociais.

O sentimento da solidão pode se mostrar de diferentes maneiras, desde algo muito íntimo até chegar em formações coletivas de estar e ser no mundo. Desde o Equador, o documentarista Galo Betancourt resolve registrar a solidão de mulheres afroequatorianas, e nos faz refletir sobre as distintas maneiras da solidão. O filme El bairro de la mujeres solas (2013) realiza o registro de quatro vidas de mulheres negras em sua pluralidade em ser trabalhadora, mãe, amante, agente cultural, e entre tantas condições que se estabelecem em sua cadeia formativa. Na representação fílimica, as componentes do grupo de dança Afrosentimiento Latino fazem da sua organização uma luta por alimentar raízes, reverenciar antepassados e promover avanços identitários. Assim, a temperança da maternidade se […]

“Jaci Paraná é um microcosmo que representa a dinâmica das grandes obras no Brasil” – sobre energia e pessoas

Entrevista com Carlos Juliano Barros (Diretor de "Jaci: Sete Pecados de Uma Obra Amazônica")

Os números da hidrelétrica de Jirau só podem ser contestados com depoimentos e  denúncias que vemos em Jaci: Sete Pecados de Uma Obra Amazônica. Durante o documentário números e palavras traçam um embate sobre quem diz, quem credita e porque diz sobre cada noção da realidade. – “Cidade do pecado”, “aberração jurídica”, “produzir energia a qualquer custo”, “o ônus do progresso”, “o ser humano acostuma com tudo”.

Desarmônicos

A marca nebulosa e violenta da ditadura, as cores da democratização, acompanhada pela “modernização”, pessoas e grupos esquecidos, silenciamentos, ressignificação neoliberal, assim como as suas festas populares.

Contar a história de um país envolve muitos detalhes, possibilita inúmeras leituras, multiplica as interpretações de distintos momentos, e influencia a atualidade revelando os próximos passos. Essa leitura multipolar, de algo convencionado por uma geopolítica impositiva da emolduração das diferenças e a constituição do Estado Nação, coloca e tensiona o universalismo que estabeleceria as relações de dominação e controle. Abrangendo a formação do imaginário e evidenciando as suas particularidades, induzindo significados e padronizações, coloca concomitantemente as ações significativas de grupos de resistências a partir desses cenários. Uma das ferramentas que é possível criar essa linha do tempo sobre a formação de uma nação são os artefatos culturais. Através de um montante significativo podemos dialogar temas complexos como a força da […]