“Global citizens wanted” (II): confrontando o discurso dominante sobre a internacionalização do currículo na educação superior

Para os situados “deste lado” da linha abissal, mais relevante do que a “internacionalização do currículo” é a “decolonização do currículo”.

Decoloniza tu mente - Cidadania global

No último texto, tratamos de como a noção de “cidadania global” enfatizada pelo discurso hegemônico sobre internacionalização do currículo na educação superior se refere a um construto naturalizado da modernidade/colonialidade, que só pode existir por vias da degradação ontológica e epistêmica do “outro”; de seu desaparecimento como realidade. Dado o histórico desmantelamento do sistema de referências da sociedade colonizada, que passa a ser descrita como uma sociedade sem valores, o Sul Global emerge no contexto de internacionalização como um espaço que demanda desenvolvimento e serviços e a serem supridos pelo Norte, com uma população cujas aspirações de “ser alguém”, “tornar-se um cidadão global” são valorizadas por aqueles capazes de “proporcionar” tais feitos. A ênfase nesse discurso tem relação íntima com […]

“Global citizens wanted” (I): cidadania global como construto do imaginário moderno/colonial da internacionalização do currículo

Para que o cidadão global exista, o “outro” – cidadão não-global, sujeito sujeitado, menos racional e humanamente inferior – também precisa existir.

Em tempos de expansão e consolidação de um mercado mundial para a educação superior, a proliferação de rótulos, classificações e indicadores para fazer referência às tendências transnacionais no ensino e na pesquisa significa mais do que um exercício de tautologia ou tentativa imparcial de organização de um campo de estudo. Na ótica do capitalismo acadêmico, expressa a criação de novos “produtos” e “serviços”, construtos destinados a transformar-se em aspirações e atuar no imaginário daqueles que compram. No plano da experiência imediata, o colonizado, que viu o mundo moderno penetrar até os cantos mais remotos da mata, toma uma consciência muito aguda daquilo que ele não possui (Frantz Fanon – Os condenados da terra). Entre as tendências mais recentes no discurso […]

“Internacionalização invertida”: reflexões críticas sobre a educação superior mundial contemporânea

Desnaturalizar a ideia de internacionalização enfatizada pelo discurso político dominante implica em situar esse processo em seu próprio espaço e tempo.

America Invertida

Com referência a um símbolo de afirmação da identidade cultural latino-americana, o desenho “América Invertida” (1943), do artista uruguaio Joaquin Torres García, faço uso deste espaço junto à Iberoamérica Social: Revista-Red de Estudios Sociales para apresentar reflexões que problematizam, de um ponto de vista contextualizado, a educação superior mundial contemporânea e o processo que convencionou-se chamar de internacionalização.

Embaso os argumentos aqui dispostos em teóricos situados na matriz do conhecimento crítico e pós-colonial/decolonial – dentre os quais destaco Frantz Fanon, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Boaventura de Sousa Santos, Catherine Walsh, Antonio Gramsci, Alberto Guerreiro Ramos, Celso Furtado e Darcy Ribeiro – para dialogar sobre temas como universidade; globalização; ciências sociais; produção de conhecimento em internacionalização; políticas supranacionais, nacionais e institucionais para o setor educacional; capitalismo acadêmico; relações internacionais institucionais e acadêmicas; mobilidade; regionalização; internacionalização do currículo; políticas de idiomas; ranqueamentos; produtivismo acadêmico e participação social.

“A população colonial é uma população que compra”: A colonialidade inerente à internacionalização da educação superior

A educação superior latino-americana tem sido particularmente funcional ao atual estágio de capistalismo acadêmico global e à perpetuação de relações neocoloniais nesse domínio.

Universidade colonial

Em tempos de reconfiguração do papel exercido pela educação superior no mundo, esforços direcionados à internacionalização se intensificam e se manifestam nos discursos como imperativo; como caminho para que os sistemas educacionais respondam a um contexto global complexo e incerto. Ao enaltecerem suas virtudes e suprimirem suas contradições, tais discursos acabam por neutralizar um fenômeno que envolve motivações e interesses distintos, um fenômeno que legitima determinados países, universidades e indivíduos como naturalmente superiores em relação a outros. Os relatórios sobre educação superior no mundo revelam um flagrante descompasso na colheita dos benefícios proporcionados pela internacionalização. Enquanto o Sul, amparado em um imaginário global dominante, mimetiza estratégias exógenas e se consolida como cliente de produtos educacionais, é o núcleo do sistema […]