Orçamento Legislativo Participativo: as gentes decidindo Com a presença de entidades sociais e populares na abertura dessa generosa proposta, o lançamento do Orçamento Legislativo Participativo foi um respiro de alegria nesses tempos tão sombrios.

Uma das experiências mais bonitas tocadas pelo Partido dos Trabalhadores no início de sua trajetória como institucionalidade foi a do Orçamento Participativo. As cidades sendo pensadas pelas gentes mesmas, as que as constroem e que as vivem. Florianópolis viveu esse momento durante o governo de Sérgio Grando, no qual Afrânio Boppré (então PT)  era vice-prefeito. E foi uma belezura. Todos os bairros faziam suas reuniões e discutiam suas prioridades para obras e serviços. Depois, decidiam o que fazer e quanto gastar em cada coisa. Pela primeira vez na história da cidade os moradores eram chamados para uma participação real e direta, na qual definiam eles mesmos o que fazer com os recursos do município. Foi um tempo em que as …

Um estudo sobre a espera O estado sabe que enquanto está esperando, o pobre não está construindo a rebeldia. É, pois, uma técnica de dominação.

Nas cidades do capitalismo contemporâneo grande parte dos habitantes não pode ser considerada cidadã. Afinal, não têm garantidos nem os direitos, nem a possibilidade de participar ativamente das decisões que envolvem sua própria existência. Por conta disso o professor e etnógrafo argentino Javier Auyero chama essa camada de pessoas, os empobrecidos, de “pacientes do estado”. Na raiz latina dessa palavra – pati – o significado é sofrimento. Assim, o que Javier desvela é que é da natureza do estado capitalista fazer da grande massa pessoas que sofrem. Ele chegou a essa conclusão analisando um fenômeno bastante comum para o empobrecido: as esperas nas filas. Em Florianópolis, os moradores que utilizam o transporte público sabem muito bem o que é essa …

A morte do outro não importa Tragédia na Somália: uma a mais no doloroso processo de libertação

O mundo ocidental se move por uma premissa que vem da cultura grega: o ser é, o não-ser não é. E o que significa essa frase tão enigmática? Que só é reconhecido como ser aquele que é igual. O outro, esse não existe. Não-é. Não tem importância. Sendo assim o que é para o mundo ocidental europeu/estadunidense? Aquele que é igual a eles: branco, rico, capitalista, guardião da ordem e da moral. Tudo o que sai desse script não-é. E, não sendo pode ser destruído sem dó. Sobre a morte desse outro que não-é, não se fala, porque não importa. É por isso que o massacre perpetrado pelos Estados Unidos nos países do Oriente Médio não tem a menor importância …

Os Estados Unidos e a doutrina da guerra permanente As peças do tabuleiro mundial seguem se movendo, a história não é estanque.

Tem sido comum os Estados Unidos inventarem doutrinas para justificar suas ações no mundo. E cada uma delas aparece num determinado tempo histórico, no qual o país do norte vai expandido seu processo de acumulação de capital. Até agora cinco grandes doutrinas se concretizaram, todas aprofundando e justificando o processo de dominação que culmina hoje no que Tierry Meysson chama de neoimperialismo. O capitalismo avançando e se expandindo. E o que é uma doutrina? Um corpo fechado de regras que não pode ser debatido, apenas cumprido. No que diz respeito à América Latina, por exemplo, a primeira grande doutrina é a Doutrina Monroe,de 1823. Nascida de uma declaração do presidente Monroe, ela estabelecia que a partir de então, a América Latina estaria …

Rocinha, quem se importa? O espetáculo na Rocinha logo vai acabar, outros virão. E sempre será o mesmo discurso. Os bandidos, os bandidos, os bandidos...

A lógica é a do espetáculo. Com as câmeras de televisão e os repórteres da mídia comercial subindo o morro junto com os policiais, o que vemos é uma profusão de soldados que agora vão salvar a comunidade da bestialidade dos traficantes. E durante dias, o discurso é o mesmo: bandidos estão em guerra na favela, policiais são chamados para pacificar, pessoas estão sendo protegidas e pela força das armas tudo ficará bem. A operação renderá alguns corpos de bandidos, um que outro “efeito colateral”, leia-se aí corpos de pessoas não envolvidas com o tráfico, muitas denúncias de abuso. O clima vai arrefecer e a comunidade voltará ao seu cotidiano. Nas redes sociais haverá gente denunciando a polícia e outros …

FARC, um novo partido na Colômbia A rotina na montanha não encontra similaridade num espaço onde já não existem as armas, nem a formação continuada, nem todas as atividades culturais e políticas comuns aos acampamentos.

Foram 53 anos de luta armada nas montanhas colombianas, a guerrilha mais antiga da América Latina. Primeiro, chegou como defesa mesmo, das famílias e das comunidades, num país devastado pelo caos político iniciado com o assassinato de Jorge Gaitán. Um exército popular nascido em 1964, em resposta a violência desatada pelo governo sobre a região de Marquetalia. Um grupo que, atuando de maneira mais sistemática, foi então se articulando como uma proposta de libertação, marxista. Mais de meio século enfrentando o poder de um estado militarizado, paramilitares, e narcotraficantes. A Colômbia e seu caldeirão, recheado de mortes, desaparições, desalojamento de gente. Um país marcado pela proximidade política com os Estados Unidos, parceiro na luta contra qualquer possibilidade de vitória de …