Por uma poética da diversidade: a crioulização da América em Édouard Glissant

Escrito em um cenário de expansão da globalização, a questão de fundo que dá sentido ao argumento do martinicano é a defesa de uma “diversidade cultural” em meio à padronização voraz imposta pelo capitalismo ocidental contemporâneo.

Édouard Glissant e Félix Guattari

A crioulização é a mestiçagem acrescida de uma mais-valia que é a imprevisibilidade. Édouard Glissant, Introdução a uma poética da diversidade   Entre os séculos XVI e XIX, as Américas foram povoadas por invasores europeus que se estabeleceram em busca de riquezas, matérias-primas e mercados consumidores. Os povos que lá viviam tiveram suas constituições culturais solapadas pela lógica da voracidade capitalista mercantil, que atravessou as florestas e os rios excitada pelo novo fetiche do lucro e da reprodução de riquezas. Com a Martinica, ilha situada no mar do Caribe, não foi diferente: tomada por volta de 1635, constituiu-se, até hoje, como um departamento ultramarino francês no mar Atlântico. Como não poderia deixar de ser, a Martinica foi alvo da ação […]

O ensaio crítico de Bella Jozef e o horizonte hispano-americano

No Brasil de hoje, resgatar o trabalho de Bella Jozef é tarefa primordial.

A intenção inicial deste espaço era apresentar a um público mais amplo um conjunto bastante variado e diverso de intelectuais, especialmente aqueles envolvidos na atividade da crítica literária em suas múltiplas facetas (do rodapé na imprensa à institucionalização universitária).  O único pressuposto intransponível é nossa fronteira espacial: o espaço latino-americano. Esta é uma opção não somente territorial, mas também, e sobretudo, política e epistemológica. Na prática, isso tem se tornado um grande desafio. Há um punhado de críticos já canonizados no espaço público da América Latina, seja pela densidade de suas obras, seja pela circulação de suas ideias em ambientes não somente nacionais, mas continentais, chegando à Europa e aos EUA. Nomes como o próprio Antonio Candido, que foi tema […]

Pedro Henríquez Ureña: do sepulcro à exumação

Uma de suas reflexões mais importantes, na esteira de certo arielismo latino-americano, se orienta pela contundente crítica às sociedades europeias no contexto após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Pedro Henríquez Ureña

Pedro Henríquez Ureña nasceu em Santo Domingo, na República Dominicana, em 1884. Importante filólogo, filósofo, ensaísta, escritor e crítico literário, é autor de obras como Horas de estudio (1910), Nacimiento de Dionisios (1916), En la orilla: mi España (1922) e La utopía de América (1925), dentre outras. Circulou entre México, Cuba, Estados Unidos da América e Argentina, local onde faleceu em 1946. Viveu quase sempre sob o signo do exílio, do desenraizamento nacional e do deslocamento espacial. A despeito dos prejuízos à vida, foi esta condição de viajante que o possibilitou construir um olhar pautado em pontos de observação móveis, não reificados e não cristalizados, capazes de enxergar a cultura latino-americana a partir de uma ampla variedade de prismas e perspectivas. Em geral, […]

Antonio Candido e a América Latina

A divulgação da correspondência epistolar trocada com Ángel Rama, importante crítico literário uruguaio, nos permite resgatar um além: seu projeto de aproximação entre Brasil e América Hispânica.

Antonio Candido

Estava eu em Belo Horizonte, Minas Gerais, para participar do VI Encontro de Pesquisa em História (EPHIS), quando recebi a notícia: havia morrido Antonio Candido de Mello e Souza, consagrado intelectual brasileiro. 12 de maio. Salvo engano, uma fatídica sexta-feira. Perto de completar 100 anos, faleceu repentinamente no hospital. A repercussão foi grande, com noticiários em jornais, rádios, programas de televisão, nos mais diversos veículos de comunicação. Os textos sobre ele variavam: dos mais sentimentais e emotivos, passando pelos sisudos e distanciados, chegando até os apaixonados e absolutamente devotos. Chamou-me a atenção o fato de que todos aqueles que se dedicaram por algum tempo a escrever sobre Candido consideravam-no intérprete, historiador, sociólogo e/ou crítico literário das coisas do Brasil. Ideias […]

Apresentação

Providências da crítica desde a periferia.

Literatura periferica

Salvo engano, a crítica literária é um espaço fronteiriço capaz de reunir diversas áreas do conhecimento. Hoje fortemente atrelada à instância universitária, devido sobretudo à diminuição do espaço público antes aberto à figura do estudioso das letras, tem sido cada vez mais relegada à categoria de “atividade complementar”. Mas na América Latina nem sempre foi assim: da forte participação ativa na imprensa no século XIX; passando pela atuação decisiva na cena intelectual do início do século XX; chegando à institucionalização do campo no pós anos 1950, quase sempre a figura do crítico literário foi decisiva na conformação da ideia de cultura. A ideia deste espaço, contudo, é resgatar a dimensão crítica dos estudos literários. Nosso foco recairá, do ponto de […]