As Romani/Ciganas do Cerrado e a existência de uma cultura milenar

Guardiãs da sabedoria cultural, as mulheres romani/ciganas lutam para que as próprias narrativas sejam contadas e mantidas de pé junto ao Cerrado.

Romani/Cigana
Romani/Cigana

No Brasil, há mais de 400 anos, os romani, também conhecidos como ciganos, representam um dos povos tradicionais formadores da sociedade brasileira. Uma cultura e percepção de mundo milenar, que encontra no Cerrado a sua continuidade histórica. São mulheres sábias, pesquisadoras, artistas, advogadas e defensoras de direitos humanos que lutam pelo direito à existência frente à ignorância do Estado brasileiro, que não concretiza políticas públicas efetivas que combatam a violência tanto ao modo de ser romani/cigano, quanto do direito de ser mulher.

Apesar da Constituição de 1988 e o Decreto n° 6.040/2007, de Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, estabelecerem o reconhecimento dessas comunidades e instaurar o direito à manifestação cultural, o acesso à educação, à saúde, à proteção ao modos de criar, fazer e viver, ainda é desafio diário frente a invisibilidade enquanto cidadãos de direito. Isso se espelha com a carência de dados atualizados sobre essa população, de forma que no censo de 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não os considerou enquanto um povo. Foi apenas em 2011 que o IBGE começou a mapear os acampamentos que existiam no Brasil e em 2013 publicou um número aproximado de 500 mil romani/ciganos no país.

Atualmente, a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Seppir/MMFDH) estima que a população romani/cigana seja por volta de 1 milhão de pessoas localizadas em todo o Brasil. Eles são constituídos por três grandes etnias: os Calon, os Rom e os Sinti, e cada uma é constituída por línguas, culturas, costumes e trajetórias diferentes.

No final do século XVI os primeiros romani/ciganos chegaram ao Brasil deportados pela política segregacionistas de Portugal que os viam como ameaça à civilização e o modo de ser europeu. A etnia Calon, a maior no Brasil, foi a que primeiro chegou e se espalhou pelos estados. Anos mais tarde, fugindo da guerras e do nazismo, a etnia Rom (vindos da Romênia, Turquia e Grécia a partir do século XIX) e Sinti (vindos da Alemanha, Itália e França a partir do século XIX) buscaram refúgio no país.

Transitando à procura de território e sendo expulsos de vários lugares, os romani/ciganos ainda são atingidos pelo preconceito e estereótipos. Histórias difundidas tanto como forma de retirar a importância da pluralidade cultural desse povo, quanto de reconhecer que são pessoas que também constroem esse país todos os dias. Somente em 2015, o Governo Federal cedeu a primeira terra à comunidade cigana, o local é chamado de “Terra Prometida”, um acampamento localizado no Distrito Federal que ainda demanda de uma infraestrutura básica para se viver com dignidade.

A autopreservação contra a imposição cultural guia a resistência desses povos do Cerrado. O direito de promover a percepção de mundo enquanto romani/cigano passa pela garantia do acesso à terra e ao território, seja de forma itinerante, semi-itinerante ou sedentária. Assegurar isso é possibilitar que as mulheres desses povos continuem promovendo os saberes ancestrais e as experiências de vida que partem do chão cerradeiro e são sustentados por ele.

Sabedoria milenar mantida no e pelo Cerrado

Um dos legados mantido pelas mulheres é a força das plantas medicinais que encontra no Cerrado uma gama de possibilidades para enriquecer esse conhecimento. Pelas mãos das romani/ciganas, as narrativas de seu povo são ensinadas e perpetuadas. A natureza se transforma não só em saúde ao corpo físico, mas, principalmente, em saúde cultural, isto é, no fortalecimento da comunidade para viver e sonhar novos futuros.

Projeto coordenado por Dona Diva tem o objetivo de passar o saber para as próximas gerações. Foto: Karen Ferreira.

Integrante permanente do conselho de anciãos da etnia Calon e membra fundadora da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), Maria Divina Cabral, mais conhecida como Dona Diva, é mestra da cultura mato-grossense, raizeira e benzedeira. Sua sabedoria, a partir da filosofia Calon, já ganhou destaque em documentários e pesquisas, e a torna uma referência nacional sobre um dos povos que constituem a história do Brasil. Além de aconselhamento entre os seus familiares, é uma guardiã dos conhecimentos referentes aos aspectos simbólicos que marcam os Calon, como as leis do casamento, do luto e do funeral.

«Eu tenho prazer em curar muitas pessoas. A floresta pra mim é tudo, é minha medicina. A terra pra mim é alegria, significa muito pra mim, fazer plantação, colher, é tudo na vida, a gente vem da terra e volta pra terra”, conta a mestra que honra o legado sobre a terra e a cura que foram aprendidas com a avó, Maria Madalena de Jesus, e depois da mãe Maria de Lurdes Rodrigues.

“Garrafadas para útero, para ovários, para os rins, pulmões, banho para mal de simioto (doença do verme na pele), para mulher com infecção, para engravidar, para não engravidar”, descreve alguns dos tratamentos, e contínua sobre algumas, das várias, plantas que utiliza: “algodãozinho, barbatimão, cancerosa, aguniada, a cuiabana, que todo mundo não conhece, tem o piãozinho, a infalível, erva moura, garco velho, a pinha dos rins”.

Atualmente, com residência em Rondonópolis – Mato Grosso, a mestra é a ministrante do projeto “Diva e as Calins de Mato Grosso: ontem, hoje e amanhã”, que venceu o edital Conexão Mestres da Cultura da Lei Aldir Blanc. “Calin” é como a mulher Calon é nomeada na comunidade. O projeto, que já tem dois anos, é constituído pelas filhas e netas de Dona Diva e se consolida com a promoção da roda de diálogo “Princípios Introdutórios à Medicina Tradicional Cigana”, a produção do etno documentário chamado “Diva e as Calins”, a exposição virtual multimídia “Calin” e a roda de diálogo “Rememorando a Chibe”. Também chamada de romanon ou romanó-kaló, Chibe é o modo como os ciganos brasileiros da etnia calon denominam sua língua, da qual a anciã possui um vasto conhecimento.

O projeto ainda contribui para romper com a ignorância cultural e perpetuar os saberes ancestrais. “Eu fiquei muito feliz por ela [a mestra], porque é um momento que nós não poderíamos proporcionar. E ela já ajudou bastante as pessoas com seus remédios, banhos em crianças e tantas outras coisas. Muitas pessoas que não conhecem viram a cara, não entendem, e  acredito que tendo esse reconhecimento as pessoas possam mudar o conceito sobre a nossa cultura”, relata Leidiane Alves, participante do projeto e uma das netas de Dona Diva, a respeito da importância do reconhecimento da mestra pelo Estado e do quanto isso contribui para que a sociedade conheça a verdadeira história dos povos romani.

“Eu tenho muito orgulho da minha origem de ser cigana. Ser cigana é igual ser como você, só que muda o astral, a vida”, afirma a mestra.

Como uma árvore do Cerrado, Dona Diva foi e é resistente e resiliente aos enfrentamentos que precisou vivenciar enquanto mulher romani/cigana, e devido a suas raízes profundas, nunca se deixou apagar o conhecimento de seu povo. Uma riqueza evidente a cada vez que ela acessa as águas de saberes cultivados há séculos.

Ministra a oficina sobre plantas medicinais do Cerrado. Foto: Karen Ferreira.

«O Cerrado é tudo pra mim, tem todos os remédios que preciso. [Mas] desmatou muito e acabou muito com os remédios. Antes se achava pelo ramo, aí com o desmatamento você vai ter que conhecer pelo cheiro e pela raiz”, relata sobre a ameaça que o bioma sofre, uma ameaça também aos saberes populares. A anciã, que muitas vezes precisa andar longe em busca das plantas que já não se encontram mais tão perto, ainda diz que caminhar pelo Cerrado é muito prazeroso, o ar é outro. A manutenção do Cerrado é a garantia de saúde aos povos tradicionais.

Arte como veículo de manutenção dos saberes

Após pesquisar na América Latina e na Europa lendas sobre os romani/ciganos, Aline Miklos do povo Rom, etnia Kalderash, e doutoranda em história da arte, se deparou com narrativas que reforçam a rejeição e a violência. Como resposta e protesto, decidiu contar outra narrativa a partir da música, uma arte que aprendeu no dia a dia com os pais, desde criança e junto às festas da comunidade. Aliás, entre outras contribuições, foram os povos romani/ciganos que fundaram o Circo, a arte circense no país. São comunidades que sustentam a circulação de percepções de mundo, tradições e pluralidades que compõem o que se chama hoje de cultura brasileira.

Como cantora e compositora, Aline integra a banda Kalo Chiriklo e lançou recentemente o álbum musical “Pajaro Negro”. A artista usa a arte para contar a história em primeira pessoa e combater os estereótipos difundidos pelo mundo. Além de ser uma forma de expressar sua identidade, a arte para os povos romani/ciganos é veículo de transmissão da história e das tradições.

A cantora e compositora faz da música uma forma de contar a história do seu povo em primeira pessoa. Foto: Sol Janik.

As pessoas da etnia Rom-Kalderash são conhecidas, historicamente, como as que trabalham na transformação do metal e do cobre, e do império austro-húngaro, no final do século XIX, quando vieram para o Brasil. A família de Aline chega pelo Estado do Maranhão e ao longo dos anos foi descendo até Minas Gerais, depois Bahia até chegar em Goiás onde estão desde a década de 50. O encontro de culturas já está bem misturado, como a artista mesmo diz, tanto a culinária goiana quanto as garrafadas com plantas do Cerrado fazem parte de sua trajetória e de sua família.

“A gente não é folclore, a gente não é mito, a gente existe”

Apesar de tantos anos no país, esses povos ainda se deparam com o desrespeito, especialmente a mulher. “Assim como qualquer mulher de outra etnia, ela sofre preconceito duas vezes: uma por ser mulher e outra por ser romani. Muitas mulheres romani sustentam suas casas através do trabalho de adivinhação e do trabalho de leitura de mão, a sociedade dúvida muito porque é trabalho feminino, se fosse masculino eu acredito muito que a sociedade, no geral, não iria duvidar tanto”, diz a respeito do estereótipo de desconfiança ao qual muitas mulheres romani/ciganas são lançadas.

Junto ao ato de deportar esses povos para o Brasil, a Europa também projetou discursos preconceituosos e racistas que tentam eliminar a riqueza e a forma de se relacionar com o território. Essa violência ainda persegue esses povos em diáspora a séculos pelo país, povos que são, muitas vezes, estereotipados, com direitos humanos retirados e barrados ao bem viver, à vida digna e ao respeito de sua diversidade.

As histórias dos povos romani são passadas pela oralidade, tradições milenares que encontram enfrentamentos históricos sobre o seu modo de viver e sua forma de se organizar. E as mulheres foram e são fundamentais na manutenção desses saberes, da memória e da transmissão de valores.

Elas são educadoras por excelência, porque é preciso ser. Para além do ser comunidade, é preciso ser porque o Estado não cumpre o seu papel. A educação formal é feita para povos sedentários, não se tem oportunidades para ciganos itinerantes. Se cria burocracia para impedir que a gente esteja nesse espaço”, conta Sara Macêdo.

Criada em meio às cavalgadas de Trindade e puxadoras de folia, Sara Macêdo vem de uma família localizada, atualmente, em Pontalina, Goiás. Mulher romani, pertencente a etnia Calón, o maior grupo romani no Brasil, a mestranda em direito agrário pela Universidade Federal de Goiás (UFG), é ecossocialista, assessora jurídica popular e integrante do Coletivo Ciganagens, e vem para Goiânia em 2013 para estudar, mas o retorno ao campo já está em seus planos. “Enquanto povo tradicional nesse Cerrado velho, eu tenho muito orgulho de ser um dos povos que tenta barrar a extinção desse bioma e que tenta prevalecer apesar das atribulações”.

Sara é integrante do Coletivo Ciganagens que busca valorizar a riqueza cultural dos povos romani/ciganos. Foto: Arquivo Pessoal.

“A gente não é folclore, a gente não é mito, a gente existe”, pontua Sara sobre o quanto a existência cultural de tais povos se encontra ameaçada e pautada em um processo de desumanização que não os reconhece enquanto seres de direito. A garantia tanto de transitar quanto de se fixar em um território é direito constitucional. Porém, segundo a assessora jurídica, a construção das leis são estruturadas de forma econômica, jurídica e psicológica para que a única forma de viver no mundo seja a sedentária, aquela que aceite viver em casas pequenas, sem contato com a natureza e com pessoas presas a uma rotina burocrática. “É nós por nós. O direito dos povos transitarem pelo território deveria ser tão natural, tão simples, é o direito e a liberdade de andar pelo nosso próprio territorio”, ressalta.

Pelo direito à terra e ao andarilhar

Contra a ideia de terra mercadoria e pelo direito de transitar, os povos ciganos se constroem nos trânsitos, nas trocas, nas festas, no cuidado com a família. A luta pelo acesso à terra é o direito de não se submeter ao projeto hegemônico, que tenta a todo custo os enquadrar em uma caixinha de modo de ser e estar. “A perspectiva de se sedentarizar é imposta a nós. Muitas comunidades andam e ficam muito tempo num lugar porque ali tem mais qualidade de vida e andam com menos tempo em outro lugar porque ali tem menos qualidade de vida. É o básico da existência”, pontua sobre a falta de reconhecimento sobre as tradições dos povos romani/ciganos que não são respeitados, mesmo estando na Constituição o direito à liberdade, à moradia e do ir e vir.

“Não gosto do termo nômade, porque é como se fosse algo de livre e espontânea vontade e, na maioria das vezes, não. Os ciganos, na concepção popular, no imaginário popular são vistos como filhos do vento, que a gente anda por esporte, que a gente não gosta de ter casa e eu falo: olha quem que gosta de pagar aluguel? pagar energia? gosta de pagar água para viver? A gente, enquanto povo tradicional, acredita que isso não é normal”, diz Sara sobre as questões que dizem respeito ao básico para se viver, como casa, terra, educação, saúde, que deveriam ser inerentes a qualquer sociedade e não espaços privados atrelados a apenas uma forma de viver.

“O povo do Cerrado é esse povo que consegue se transformar e viver de várias maneiras”, diz Sara Macêdo.

O ser itinerante em busca de condições melhores de vida vai de encontro também à busca pelo acesso à saúde pública, pois em muitos postos de saúde ainda é exigido comprovante de endereço e identidade, além da falta de um atendimento que respeite a cultura de tais povos, o que atinge o direito à vida. “Todas as plataformas políticas criadas para povos ciganos no país, vieram dos próprios povos ciganos”, diz a assessora jurídica.

«A Terra é a minha pátria, o céu é o meu teto, a liberdade é minha religião», provérbio dos povos Romani/Ciganos e que são expressos na bandeira. Foto: Divulgação.

Aline Miklos, da etnia Rom-Kalderash, complementa que o preconceito e perseguição desabrigam esses povos, depois o Estado começa a nomeá-los como “nômades por natureza” e os culpam pela própria precariedade de vida.

Além disso, são pessoas que realizam trabalhos que precisam viajar muito para fechar vendas. “Inclusive minha família viajava acompanhando as festas populares, mas sempre tinham casa em algum lugar e voltavam. Então, eu não chamo isso de nomadismo, eu chamo isso de trabalho itinerante”, destaca.

A efetivação dos direitos é preocupante, mesmo com a aprovação tardia da portaria 4.348, de 28 de dezembro de 2018, da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Povo Cigano/Romani. Ainda tramita também no Senado Federal brasileiro o Projeto de Lei 248/2015 que propõe o chamado “Estatuto do Cigano” que visa garantir a partir de regime jurídico específico os direitos fundamentais dos povos romani, especialmente os relacionados à educação, à cultura, à saúde, ao acesso à terra, à moradia, ao trabalho e à promoção da igualdade.

Povos do Cerrado e o direito de permanecer no Cerrado

Reconhecer a diversidade dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado é reconhecer outras relações com a terra-território. Nisso, a importância de se preservar os ritos e as espiritualidades é parte da manutenção cultural que carece de proteção por parte de políticas públicas. Isso é necessário para que tais saberes não sejam apagados, como a própria história do Brasil já realiza ao nem mesmo mencionar esses povos e comunidades tradicionais na história oficial, povos tão antigos quanto o próprio Brasil.

“Precisa-se criar uma conscientização de que o nosso modo de vida não é errado, mas sim de uma riqueza enorme. Temos nossos cantos, nossa própria língua, diversas espiritualidades”, diz Sara sobre o anticiganismo e a violência etnico-racial contra os romani/ciganos. “O território para os romani está sempre relacionado a comunidade e a família. Geralmente eles transitam onde eles têm família e isso é fundamental, é muito importante. A comunidade e o território são duas coisas importantes”, relata Aline Mikos sobre o território não só ser uma morada, mas também a força que faz permanecer viva o modo de ser romani/cigano.

A pesquisadora luta pela efetivação dos direitos aos povos romani/ciganos. Foto: Arquivo Pessoal.

“Ser uma mulher cigana, de comunidades seminômades, semi andarilhas, que estão em transição, transacionar, principalmente em Goiás, é uma dificuldade muito grande. A gente tem a questão da propriedade da terra e da posse da terra aqui de uma maneira que não possibilita esse andarilhar, essa possibilidade de transitar nos territórios. Acho que isso, na verdade, não é igual para todas as pessoas, porque as mais ricas têm direito ao território e as pessoas mais pobres não. Essas têm que lutar bastante por aquele espaço em que ela está, mesmo se ela está ali durante muito tempo”, analisa Sara sobre a ideia de domínio da terra e a urgência de se ter espaços que tanto acolham os povos itinerantes, quanto políticas que possibilitem o direito à terra.

A pesquisadora ainda conta que seus avós trabalharam por muito tempo em cafezais no sul de Goiás e afirma que a pior questão do país é o agronegócio nesses espaços, especialmente, no que diz respeito ao trabalho escravo. Hoje vivem em Pontalina, Goiás, e apesar de ter acesso à terra vivem cercados de monoculturas que envenenam o solo, as águas e provoca a falta de chuvas.

“A terra é poder, é subsistência. E foi uma estratégia muito grande da hegemonia criar uma sociedade, no geral, de maioria na cidade. Porque um povo que não decide o que come, que tem que depender de um supermercado caro, com as coisas cheio de veneno para comer, é um povo que não tem poder de nada”. Afirma sobre a construção histórica do «êxodo rural”, que foi e é uma forma de expulsar as pessoas do campo e encurralá-las na cidade sob o controle do Estado.

 

“A terra é espírito, a terra tem poder, é onde a gente enterra nossos ancestrais, nos dá de comer, onde montamos nossas barracas, montamos nossas casas, onde a gente cria raízes, é onde tem rio que dá o peixe pra gente comer”. Sara ressalta que essa reverência à terra também se encontra no respeito aos ancestrais vivos, às anciãs e anciãos romani/ciganas, pois são eles que tem a maior sabedoria e experiência sobre a tradição, são eles que dividem a herança, às práticas de cura, passam os segredos espirituais aos mais novos como forma de preservar o legado e sobreviver no mundo gadjo (não romani). Por isso, a ideia de asilo para idosos não faz parte da concepção sociocultural deste povo, que vê como um ato de abandono e desrespeito à memória.

Para Sara, os povos do campo são todos povos tradicionais, porque estão segurando um modo de existência que a cidade não segura. A pesquisadora acredita na formação de uma frente ampla dos povos tradicionais na América Latina para trazer esse país de volta.

“Na medida que o Cerrado está bem, está vivo, nosso povo tradicional está bem e está vivo”, finaliza.

Arte em Destaque: Júlia Barbosa | Edição: Renato Silva.

Conteúdo republicado do Favela em Pauta.

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Doutora em Linguística e Mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás.
Jornalista no Favela em Pauta.
Pesquisadora no Coletivo Magnífica Mundi – UFG, na Gira Leodegária de Jesus - UFG e no OBIAH – Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais e decoloniais da Linguagem – UFG.
Coordenadora de comunicação na Articulação Agro é Fogo.

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