As hipocrisias visíveis nas violências contra indígenas em Santa Catarina

Ano novo, velhas violências

As hipocrisias visíveis nas violências contra indígenas em Santa Catarina

São conhecidos apenas três grandes povos indígenas [1] que conseguiram sobreviver aos massacres realizados contra eles durante os últimos cinco séculos em Santa Catarina, no sul do Brasil. Esses povos são institucionalmente reconhecidos pelo Estado brasileiro pelos nomes de Xokleng, Guarani e Kaingang. Primeiras informações sobre cada um dos povos podem ser encontradas no site do Instituto Socio Ambiental (ISA): Guarani, Kaingang e Xokleng. O objetivo deste post é recuperar parte das hipocrisias visíveis nos discursos midiáticos sobre as violências promovidas contra os povos indígenas em Santa Catarina.

O ano de 2018 começou nos lembrando como o ano de 2017 havia acabado. E como foram os anos de 2016 e de 2015. E como foram todos os anos anteriores para as populações indígenas em Santa Catarina. Não há novidade. Há na verdade severas e intencionais impunidades.

No dia 30 de dezembro de 2015, uma criança Kaingang de dois anos foi covardemente assassinada em frente a mãe enquanto era alimentada. Nas imagens é possível ver o aparato policial reservado para garantir a segurança do assassino após a sua identificação e prisão. No texto da notícia, mesmo sendo um assassino confesso, e com várias testemunhas que confirmaram a identidade e as ações, as menções em todo o texto alternam entre “jovem” e “suspeito”. O próprio ato do assassinato é frequentemente mencionado como “ataque”. Nem mesmo o nome [2] deste animal colocaram: Matheus de Ávila Silveira, e aqui incluo um link com fotos e videos dele. O nome da criança, e fotos, estavam no entanto disponíveis, inclusive com videos do momento do assassinato sendo circulando nas redes sociais, nas notícias e nos celulares de todos desde minutos após o assassinato.  Os requintes de crueldade e covardia são traduzidos nos textos das notícias, que repetem mais vezes o termo “carinho” do que a própria execução que foi feita. O provável é que ele cumpra apenas um terço da pena, e em uma instituição psiquiátrica – onde descansa desde março de 2017.

1 – Quantas vezes foram e são feitas acusações que as crianças indígenas são criadas “largadas” e “abandonadas”, seja pelas mães seja pelos pais? Esta criança estava junto à mãe ao ser assassinada.

Em novembro de 2017, a mãe de uma ex-cacica Guarani teve a mão decepada dentro da própria casa, após terceiros invadirem o território indígena. Várias pessoas afirmam que os interesses locais envolvem desde mineração até empreendimentos imobiliários na região. O próprio estado de Santa Catarina tenta há anos suspender a demarcação do território. A cacica é ameaçada há mais tempo do que é possível ser lembrado, especialmente pelas suas ações políticas na luta por direitos mínimos aos Guarani. Vamos lembrar que um índio Pataxó foi incendiado vivo em Brasília em plena noite do dia do índio, ao tentar levar reivindicações trazidas desde a Bahia. É importante alertar também sobre a excessiva desinformação que é disseminada nos municípios arredores, para alimentar diversas formas de violência.

2 – Quantas vezes foram e são feitas acusações que os indígenas devem “permanecer em seus territórios – no mato” e distantes – diria isolados – da sociedade envolvente? Esta senhora teve a mão amputada dentro de casa e o próprio Estado tenta remover o direito dos índios de permanecer lá.

O ataque não se restringe as pessoas, ocorrendo desde barcos que são incendiados até casas de reza que também encontram o fogo “misteriosamente” à noite. E na hipótese de índios conseguirem um veiculo ou bem maior, este também não será poupado. Obviamente a destruição, ainda que tente passar por anônima, não espera ser – e não é discreta. Ela é acompanhada de tiros de alerta sobre óbvios episódios futuros que vão acontecer. Tiros de alerta que não são raros ou novos.

3.1 – Quantas vezes foram e são feitas acusações que os indígenas não mantém as suas “culturas tradicionais” – seja lá o que for isso – e que estão presos à “cultura não-indígena” – idem – , que já “não são mais índios”? Os barcos e a casa de reza que foram incendiados são parte da cultura material indígena que conseguiu ser mantida após os mais de cinco séculos de tentativas de extermínio. Repare que uma casa de reza não está tão distante simbolicamente da sacralizada igreja católica ou do purificador templo evangélico. Inclusive não são excludentes entre si.

3.2 – Quantas vezes foram e são feitas acusações que os indígenas “invadem” territórios ilegalmente e que vivem intocáveis nestes redutos? Os barcos, as casas de reza e o carro foram incendiados dentro de territórios que estão demarcados pela justiça há mais de uma década. Quem são os verdadeiros violadores da lei?

E o que dizer então daquelas famílias que abandonam seus locais de moradia, para trabalhar em outra cidade ou estado, visando receber algum dinheiro, e que ao chegar lá, ao invés da prometida casa de passagem precisam se amontoar debaixo de pontes e viadutos, dormir na rua, e armar barracas feitas de papelão e lonas plásticas? Esta situação não é nova, o Estado brasileiro é responsável pela tão famigerada CPI da FUNAI, que busca deslegitimar uma série de ações e entidades envolvidas com a questão indígena, gerando novamente desinformação e principalmente descrédito. O objetivo é um só: Índio bom é índio morto. Lembra alguma outra famosa “frase de impacto” – vulgo expressão de ordem? Bom mesmo é índio apenas em livros de história, com cocar, arco e flecha em torsos nus.

4 – Quantas vezes foram e são feitas acusações de que os indígenas são sustentados pelo Estado? Alguns grupos se deslocam até 700 quilômetros para trabalhar durante o verão – enquanto não-indígenas estão de férias, comemorando e se divertindo. Distante de qualquer apoio estatal, o que recebem é desprezo e intencional silêncio. O terminal do Saco dos Limões está acolhendo os temporariamente, recomendo a visita para abrir os olhos. A situação, distante do que é alardeada, não é nova.

E foi exatamente assim, durante o réveillon – ao trabalhar no horário de folga -, que um professor Xokleng foi covardemente espancado e assassinado. Enquanto vendia picolés para poder construir uma casa para morar. Estava com mais uma dezena de índios trabalhando numa cidade longe de casa, da família e dos amigos. Durante o réveillon. O réveillon dos outros.

5 – Quantas vezes foram e são feitas acusações que os indígenas são vadios e que não querem trabalhar ou estudar? O professor é concursado, licenciado, trabalha como juiz e como professor. Durante o recesso escolar – vulgo FÉRIAS – estava trabalhando, fazendo bicos em uma função muito distante de sua formação para ter renda extra.

Desnecessário relembrar, que esta situação está muito longe de ser pontualmente observada nos últimos anos, ou territorialmente limitada à Santa Catarina.

Notas

[1] É possível que os remanescentes dos Xetá sejam considerados como um quarto povo por diversas autorias. Além disso, tanto os Xokleng, como os Kaingang e principalmente os Guarani possuem organizações internas que consoante determinadas perspectivas podem ser vistas como bastante distintas, inclusive nominalmente, entre si. Outras autorias ainda podem analisar grupos atualmente denominados como caboclos, cafuzos ou mesmo os remanescentes quilombolas como povos autóctones ou até povos originários. Não cabe aqui nenhuma dessas discussões e elas não serão realizadas.

[2] É intencional a ocultação do nome de todos os indígenas que foram violentados neste texto. É uma resistência contra o oportunismo da mídia ao relacionar tais nomes nos motores de busca destacando-os nos títulos e durante todo o corpo do texto. Estes nomes – assim como o video de várias agressões – são (in)felizmente facilmente recuperáveis nos textos das notícias como pode ser visto ao ler qualquer uma delas.