As faces da solidão

O filme inicia com dados que afirmam a condição de 48% da população afroequatoriana vivendo abaixo da linha da pobreza, e tendo a mulher negra como alvo de distintas violências sociais.

As faces da solidão

O sentimento da solidão pode se mostrar de diferentes maneiras, desde algo muito íntimo até chegar em formações coletivas de estar e ser no mundo. Desde o Equador, o documentarista Galo Betancourt resolve registrar a solidão de mulheres afroequatorianas, e nos faz refletir sobre as distintas maneiras da solidão. O filme El bairro de la mujeres solas (2013) realiza o registro de quatro vidas de mulheres negras em sua pluralidade em ser trabalhadora, mãe, amante, agente cultural, e entre tantas condições que se estabelecem em sua cadeia formativa. Na representação fílimica, as componentes do grupo de dança Afrosentimiento Latino fazem da sua organização uma luta por alimentar raízes, reverenciar antepassados e promover avanços identitários. Assim, a temperança da maternidade se torna analogia de sua resistência. Força e equilíbrio entre suas filhas e filhos, entre a companhia e a falta.

O filme inicia com dados que afirmam a condição de 48% da população afroequatoriana vivendo abaixo da linha da pobreza, e tendo a mulher negra como alvo de distintas violências sociais. Lélia Gonzalez já refletiu esse panorama, ao argumentar os mecanismos que geram exclusão. O racismo se torna composição multiarticulada entre formações que produzem uma “subcidadania”. A hierarquia social, através da intersecção entre gênero e raça também influenciam os sentidos e as relações íntimas vividas por essas populações.

A vida em Quito, assim como na maioria das cidades latino-americanas, está perpassada pelo patriarcado. E na vida de afrodescentes também se agregam o engendramento de um sistema que oculta e silencia. Sonia Viveros relata o contexto histórico no Equador: “Los afrodescendientes que vivimos en Ecuador somos parte de él desde la época de la colonia. Llegamos esclavizados en el siglo XVII (1553), ubicados geográfcamente en las costas esmeraldeñas y más tarde en las provincias de Imbabura y Carchi, en la sierra (Valle del Chota, Valle de Salinas y Cuenta del Río Mira)” (2009, p. 78). Desse contexto histórico pode-se perceber a herança da representação da mulher afroequatoriana nos meios de comunicação na atualidade. Uma representação enraigada em “infantilizar” e realçar a incapacidade de prover suas necessidades, é o que aponta o trabalho Los medios de comunicación y la población afroecuatoriana. Que ainda afirma que “las mujeres afrodescendientes son habitualmente presentadas como víctimas de la violencia machista interétnica.” (p. 23). Desse modo, a importância da representação construída Betancourt se realça pela intimidade dos relatos. Mesmo assim, o documentário decide focalizar o abandono como regra e condição das mulheres retratadas – realçando estereótipos. Histórias sobre a perda dos pais, de companheiros, de filhas e filhos que se repetem e se confirmam por diversos estudos sobre o contexto social vivido pela mulher afrolatina. Porém, a trampa que o documentário recai é não perceber a coletividade e a união exercida por essas mulheres, estabelecendo outra maneira de ser e estar sola. O bairro Carcelén Bajo e as protagonistas Mayra Chalá, Maria Obregón, Katty Sinisterra, Maria José Mendez e Andrea Chalá criam um quilombo de reconhecimento, afeto e auxílio. Um dos depoimentos de Mayra, líder do grupo, confirma esse sentimento coletivo. Durante uma conferência se apresenta dizendo: “Yo soy madre, soltera, trabajadora, domestica”. Evidencia a sua condição, expõe suas facetas pessoais, e logo em seguida completementa: “y sé que un día tendré mi título de enfermera y si ustedes necesitan, yo estare ahí”. Nessa fala ela reafirma sua pessoalidade, ao mesmo tempo que confirma sua visão comunitária de participação. Portanto, a solidão dessas mulheres recai dentro de um contexto que se reformula e cria espaços coletivos de troca e resistência.

O emblemático poema Me gritaron negra da peruana Victoria Santa Cruz expõe a condição e a formação da mulher negra na América Latina. E é outro elemento que conjuga o desafio entre o íntimo e o coletivo. Até o fim de compreender, de se reconhecer, e de avançar frente sua condição repete-se em versos, mas principalmente em vidas. Não tão solas quanto parecem.

¡Y que lindo suena! (…) ¡Negra soy!

 

O filme completo:

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Jornalista. Fronteiriço. Mestrando em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)