A arte como território de resistência: uma perspectiva polilógica

No âmbito da arte radical os números só importam como afetos e perceptos, o que afeta e o que é vivido por cada ser humano em seu corpo próprio.

downloadpdfConsiderar a arte como território de resistência implica em uma compreensão da atividade artística como sendo da ordem do imprevisível e fora de controle. Somente o que não está previsto no campo dos saberes dominantes pode formar territórios de resistência, pois o que foi capturado pela força dos territórios materiais e simbólicos dominantes não tem poder transformador por carecer de força vital e criadora. Claro, nem só a arte pode se constituir em território de resistência, mas sem dúvida ela é uma forma avançada de resistência, justamente porque lida com perceptos e afetos, o que pode ser considerado uma forma de linguagem de primeridade, sem que seja possível reduzi-la à lógica binária da racionalidade instrumental territorializada e hegemônica, sobretudo nos âmbitos acadêmico e empresarial. Entretanto, é preciso tensionar o sentido da arte na sociedade contemporânea marcada pelo conhecimento, informação, aprendizagem e controle, uma sociedade submetida ao complexo de Midas atualizado: tudo o que toca vira dinheiro. E o mundo da arte também é capturado pelo sistema do capital em todas as suas frentes, existindo de modo impactante a chamada indústria cultural envolvendo expressões artísticas de toda espécie, o que também faz parte do fenômeno artístico que se encontra em uma zona além do bem e do mal. Entretanto, a arte como território de resistência se dá em processos de subjetivação em múltiplas circunstâncias, seja na esfera individual como na esfera coletiva, pela reunião de pessoas em torno de instintos incomuns e compartilhados. Trata-se da arte que se encontra nas margens dos processos da estética consumista dominante e que envolve atores e autores dos mais distintos registros e formas de expressão. Aliás, a arte radical, com raras exceções, sempre esteve às margens do poder instituído e suas grandes revoluções sempre foram incompreendidas no tempo de seu acontecimento.  E hoje não se tem motivo para se pensar diferente: a arte como processo criador instante, como acontecimento e não representação encontra-se sempre além da compreensão do que já foi, do que já passou. A arte como processo e não apenas produto. Aliás a arte só se mantém adiante dos agenciamentos coletivos passados na sua instância de processo aprendente aberto ao acontecimento da singularidade irredutível instante.

Focando a atenção na territorialidade de resistência que se atribui à arte resistente, o que mais se vai descobrindo é o anonimato. A arte anônima de resistência é também nômade em suas deambulações devindo. É sempre um fluxo o que se captura na ação poética anônima. Nas megalópoles contemporâneas há zonas de fuga em que processos de subjetivação estão além da captura dos dispositivos de controle disponíveis na semiótica monológica hegemônica. O que significa dizer que os movimentos artísticos de resistência que eclodem em todos os cantos e recantos do mundo mostram a dinâmica do pensamento divergente coletivo, como ação propriamente vital em relação às instituições moduladoras de padrões homogêneos e manipuláveis de comportamento. E a arte viva é sempre uma afirmação de mais-vida, acréscimo e não diminuição de potência na medida em que não é uma contemplação estética passiva, e sim uma ação de trabalho criador que torna a contemplação uma atividade em que o contemplado não para de agir: a arte como devir – processo e ultrapassamento.

Ao meu redor, em um campo de territórios simbólicos múltiplos, os sinais mostram atividades artísticas de resistência em duas direções distintas. Há os que resistem e propagandeiam a resistência, e há os que anonimamente criam-se como metamorfoses ambulantes, ressoando com o poeta-pensador Raul Seixas.  A potência de vida da arte propriamente feita em seu devir-acontecimento está para além dos territórios estratificados cujos dispositivos de controle atendem ao ímpeto bélico do capitalismo reprodutor de subjetivações manipuladas em seus desejos e perceptos.

E se pode chamar de território artístico de resistência aquele que atua nas zonas desejantes do querer-ser fluxo na superfície dos acontecimentos. De uma janela debruçada em uma varanda tenho a vista de uma multiplicidade de resistências artísticas. Umas são muito próximas, outras chegam a alcançar distâncias desconhecidas.

Um território de resistência na arte se constitui pelas ações desejantes de seus criadores e curadores. Fora da experiência humana a arte deixa de ser um acontecimento para se tornar apenas um registro, um número, uma coisa abstrata, distante – uma mera informação sem sentido algum. Pois sem que alguém atribua sentido a algo este algo só existe como parte de um cosmos inconsciente de si.

Uma perspectiva polilógica dos atos de resistência na criação artística reúne em um único âmbito a totalidade dos acontecimentos resistentes à inércia crua da nulidade ontológica. Com todos os triunfos da cultura cibernética disponível, entre eles o de potencializar e atualizar a emergente sociedade do controle a serviço de centros de comando capitalistas avançados, a arte radical continua a produzir territórios de resistência e estes territórios desnudam a condição humana de passagem e finitude, de fragilidade e inacabamento que tornam a vida uma potência de ser-mais-vida em expansão, mesmo no retraimento protetor de todo ato criador resistente.

Os territórios de resistência na arte radical estão em toda parte, não há centralidades de qualquer grau e extensão capazes de conter a potência que escorre das rachaduras e fendas dos mil platôs estratificados do fenômeno humano, as ilhas de sobrevivência das multidões fechadas em suas identidades de representação. A imagem dos guetos e modas, dos estilos e marcas, das formas e aparências com que se mascaram os entes para seguir adiante em direção ao Nada. Justamente aí está a virtude da resistência artística: a certeza opaca do Nada. Mas é justamente esta constatação da condição humana inacabada que abre as passagens para a vida de passagem, o agir nômade e anárquico em sua radical ação própria e apropriada — ação única do ser-aparência (fenômeno) e precariedade aparente que liberta para o incomensurável pulsar: o puro Nada — todas as possibilidades reunidas além de tudo o que se encontra aparecendo, para em seguida desaparecer como singularidade. A sina da arte resistente: realizar o sumo banquete do ser vivente criando-se além do já criado, deixando de ser para tornar-se transformatividade dadivosa.

A polilógica como teoriação do sentido próprio e apropriado paradoxal é o campo de força do exercício da diferença e da heterogênese criadora incontornáveis. Neste âmbito, importa tomar o “território de resistência” não no âmbito físico-geográfico e sim no âmbito do que possui a velocidade do raio e ressoa trovejante rasgando a inércia das opiniões petrificadas. A polilógica mostra os múltiplos agenciamentos coletivos de resistência artística, compreendendo a todos como pontos-presenças de ímpetos criadores fora do controle da razão calculadora. O sinal de que múltiplas são as vozes da arte resistente em sua produção territorial acêntrica, policêntrica, multicêntrica. A questão é saber de que modo a potência de resistência da arte radical constitui territórios paralelos com sua ecologia própria, ambiental, social, mental e cibernética. E de como a ecologia da arte resistente é suficientemente potente para liberar-se dos mundos escravocratas que persistem como núcleos duros da repressão do desejo-vontade-ação de seres pertencentes ao multiverso inteligente e por sua própria dinâmica, um multiverso criador, conservador e transformador de toda matéria-energia simultaneamente, constituindo tudo o que conhecemos c desconhecemos como mundo e não-mundo em devir,  obra de arte em devir que é o multiverso de nossa pertença espiritual, material, simbólica e poética em reunião polilógica. Uma polifonia para os ouvidos, uma justaposição do tempo em seu fluxo para a visão.

Sem a resistência artística e seus territórios criadores o mundo-da-vida pode facilmente ser fixado em programações previamente dadas nos dispositivos de replicação do programado: a semiose da Inteligência Artificial emergente, para a qual tudo se reduz a procedimentos programáveis por funções matemáticas e pela delimitação de algoritmos operacionais, como se tudo pudesse ser reduzido à dimensão dos números ideais com os quais o Divino teria constituído todas as potencialidades ontológicas do universo macrofísico. No âmbito da arte radical os números só importam como afetos e perceptos, o que afeta e o que é vivido por cada ser humano em seu corpo próprio. No plano de imanência da arte radical, a experiência da abstração conceitual e matemática dão lugar ao fluxo de imagens corporais que afetam e atravessam o percebido como fenômeno, aparência, captura de superfícies sensíveis. Este diferencial afetivo do mundo da arte é o oxigênio do artista e da artista criadores de seu caminho poético singular. A diferença também se mostra na compreensão de que o que aqui passa a importar não é mais o jogo dialético da polarização política, e nem se deveria mais atribuir ao individualismo burguês neoliberal toda arte que carregue a potência da realização ontológico de cada ser em sua singularidade radical. A polilógica também pode ser a salvaguarda contra o fechamento mental dos indivíduos em relação à multiplicidade criadora que atende ao ímpeto da vida abundante, e não da vida infeliz e impotente. A ação artística de resistência é o caso exemplar de reconhecimento da inevitabilidade trágica, cômica e satírica de todo o viver consciente dos seres humanos. E é justamente nas condições dadas humanamente que o agir artístico radical transpassa os limites do esperado e do conhecido, abrindo outros horizontes atuais e virtuais, ambos os horizontes/campos de força participando da Realidade em suas diversas circunstâncias autopoéticas, em suas múltiplas combinações interatômicas, intermoleculares, intersociais e intersubjetivas. O encontro com os territórios de resistência artística com a ação da Diferença em seu ímpeto de tudo reunir em suas singularidades, projeta a ação resistente da arte em território do imprevisível e do ainda não pensando. O que convida à experiência artística como ação transformativa e resistente o bastante para suportar a inércia da “obrigação moral” imperante e constituir o seu próprio lugar de trabalho e recolhimento, de ação e de repouso, de criação e descriação das coisas mesmas. Encontro dos desencontros de toda resistência criadora: Sim! Um mais um mais um mais um…o infinito sentir poeticamente ser-mundo.

 

Para citar este artículo: Galeffi, D. (2017). A arte como território de resistência: uma perspectiva polilógica. Iberoamérica Social: revista-red de estudios sociales VIII, pp. 22 – 25. Recuperado en http://iberoamericasocial.com/arte-territorio-resistencia-uma-perspectiva-polilogica

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Autor

Maestrado en Arquitectura y Urbanismo, y Doctor en Educación por la Universidad Federal de Bahía.

Docente del DMMDC en la Universidad Federal de Bahía, Brasil.