Antonio Candido e a América Latina

A divulgação da correspondência epistolar trocada com Ángel Rama, importante crítico literário uruguaio, nos permite resgatar um além: seu projeto de aproximação entre Brasil e América Hispânica.

Antonio Candido e a América Latina
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Antonio Candido

Estava eu em Belo Horizonte, Minas Gerais, para participar do VI Encontro de Pesquisa em História (EPHIS), quando recebi a notícia: havia morrido Antonio Candido de Mello e Souza, consagrado intelectual brasileiro. 12 de maio. Salvo engano, uma fatídica sexta-feira. Perto de completar 100 anos, faleceu repentinamente no hospital. A repercussão foi grande, com noticiários em jornais, rádios, programas de televisão, nos mais diversos veículos de comunicação.

Os textos sobre ele variavam: dos mais sentimentais e emotivos, passando pelos sisudos e distanciados, chegando até os apaixonados e absolutamente devotos. Chamou-me a atenção o fato de que todos aqueles que se dedicaram por algum tempo a escrever sobre Candido consideravam-no intérprete, historiador, sociólogo e/ou crítico literário das coisas do Brasil. Ideias como identidade, formação, civilização, cultura, dentre outras, serviam para enquadra-lo como um pensador que aparentemente se limitava à análise da nação. “A morte do último intelectual da geração ensaísta brasileira”, sentenciou um dos que prestaram homenagem póstuma.

Candido era tudo isso, e um pouco mais. No contexto brasileiro, exercitou a crítica pública, “de rodapé”, escrevendo para revistas e jornais de grande circulação, além de ter sido peça fundamental na institucionalização das ciências sociais – disciplina de sua formação universitária – e da crítica literária no ambiente acadêmico. Como professor, foi fundamental na consolidação dos cursos de Letras da USP, da UNICAMP e da UNESP, três das maiores instituições de ensino superior de São Paulo. Formou gerações intelectuais e virou referência bibliográfica incontornável em diversos cursos superiores no Brasil e no mundo.

A divulgação da correspondência epistolar trocada com Ángel Rama, importante crítico literário uruguaio, nos permite resgatar um além: seu projeto de aproximação entre Brasil e América Hispânica. Ao menos no âmbito dos estudos de literatura, quase sempre houve dificuldade de contato. Vigorava, em geral, o desconhecimento mútuo. A perspectiva de comparatismo era muito mais voltada às culturas do centro de que às da periferia do capitalismo. Mas a partir de janeiro de 1960, período em que o crítico brasileiro foi ditar cursos de verão em Montevidéu, as coisas tomaram outro rumo. Um encontro marcou esse momento.

O encontro com Rama, que à época atuava em semanários locais e editoras, além de ser professor de ensino secundário, sedimentou uma amizade que possibilitou gerou troca de cartas até 1983, ano da morte do uruguaio em um trágico acidente aéreo. Esse contato foi fundamental para que se iniciasse um projeto comum, que pretendia construir redes, contatos, pontes, diálogos e aproximações, no sentido de entrosar os países da América Latina em um cenário de expansão das ditaduras, ou seja, de crise política, violência de Estado e revogação de direitos civis.

No caso do crítico brasileiro, foi esse também o período em que passou a se interessar, do ponto de vista intelectual, pela literatura latino-americana. Escreveu textos formidáveis, tais como “Literatura e subdesenvolvimento” (1970), “Le roman latino-américain et les novateurs brésiliens” (1973) e “Os brasileiros e a literatura latino-americana” (1981), que permitem falar em uma ampliação dos objetos de estudos até então mais comuns e usuais na cena crítica nacional. Esses ensaios, se combinados e colocados em perspectiva, demonstram apontamentos críticos importantes para entender o movimento geral da produção poética continental nos séculos XIX e XX.

Antonio Candido
Candido, Fernando Sabino e Otto Lara Resende em Paris, 1965, anoem que participou do Terzo Mondo e Comunità Mondiale, na Itália. Foto: Alécio de Andrade / acervo Instituto Moreira Salles.

Fato é que Antonio Candido foi mais que um simples estudioso das coisas brasileiras. Em sua inesgotável obra, que precisará de muitas décadas para ser devidamente estudada, encontram-se ainda intactos alguns escritos soterrados, textos que foram pouco ou quase nunca estudados e que não circulam nem nos cursos de pós-graduação em letras, quiçá no restante do espaço público nacional. Há certo alento na notícia de que a família do crítico doou parte considerável de seu acervo pessoal ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). Um ânimo aos pesquisadores. Ao que parece, lá constam cartas, ementas, fotografias… material valioso que pode apontar caminhos e horizontes de análise desta relação entre o maior crítico literário brasileiro do século XX e a história intelectual e cultural de Nuestra América.

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Autor

Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Pesquisador de mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Membro da Comunidade de Estudos de Teoria da História (COMUM-UERJ) e professor do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais (CEPE).