Ancestralidade é futuro – Capítulo 5

Pela profundidade dos brasis, os quilombos mostram que lutar pelo direito ao território é a grande pandemia.

Ancestralidade é futuro
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Ancestralidade é futuro
Foto: Ana Carolina Fernandes.

“O contrário de casa grande não é senzala. É quilombo!”, como afirma o pesquisador Clóvis Moura. Quilombo é centro. É o povo com engenhosidades de vivências que rompem com o projeto de morte capitalista. Aqui a referência de centralidade permeia o renascimento de África em território diaspórico, em que o centro do ocidente é apenas uma outra possibilidade de mundo. “O que nos mantém vivos até hoje, é a gente entender que existe um mundo além desse. Eu não posso estar na África, mas a África vive dentro de mim” diz Biko, sobre a importância de sabermos nossas origens, nossas ancestralidades.

As histórias que constroem esse texto, apesar de serem emitidas recentemente, na verdade vem de muito longe. São histórias de resistências e re-existências. Muito antes de liberdade estar atrelada a chamada “lei áurea”, o povo negro já sabia o que era liberdade dentro dos Quilombos. Isso porque o que sustenta tanta força e rebeldia, é a descendência. Que vem de realezas, sábias, sábios, das práticas de ebós, das matripotências que gestaram a nós e a essa terra, os brasis, para que tantas vozes pudessem ecoar e se encontrar aqui e agora. Mesmo o inimigo oferecendo a fome, o Quilombo próspera e frutifica, porque a terra não deixa ninguém na mão.

“Nossos passos vêm de longe”, premissa que nos rege a não esquecer quem fomos, quem somos e quem queremos ser. “A ancestralidade está em tudo o que é vivo” e mais, “o futuro é ancestral”, como afirma a quilombola e pesquisadora Katiúscia Ribeiro. É a força que move o nosso “ser sendo”, sustenta o nosso presente e faz construir o nosso futuro. Rejeitar isso é estar em desequilíbrio. “O passado vive dentro de mim para eu projetar o futuro. Ninguém chega aonde está sem ter uma história por trás. E nossas histórias são nossos anciãos nos territórios quilombolas” reitera Biko.

Na disputa para que os direitos sejam respeitados, o cansaço, a desesperança e a propagação de histórias forjadas são perversidades implantadas pelos poderosos que insistem em tomar o que já é desses povos. “É preciso ter os povos quilombolas como parte do processo histórico, como sujeitos da história e não como coadjuvantes” diz Laura Ferreira, integrante da Conaq, Bacharel em Direito e quilombola na Comunidade Negra Rural do Quilombo Ribeirão da Mutuca, Mato Grosso.

Foto: Ana Carolina Fernandes.

Quilombo é uma experiência vivida, primeiramente em África, pelo povo Bantu, uma experiência que existe muito antes do Brasil ser Brasil. Quilombo é local de refúgio, acolhimento, coletividade, rebeldia contra as imposições de destruição do colonizador, lugar onde podemos encontrar as nossas e os nossos. Local de respeito às raízes, às rezas, aos chás, a benza, às músicas, à fé, aos festejos, ao sentir as energias e reverenciá-la. A diáspora forçada nunca tirou e nem irá tirar isso de nós. No Brasil, ou nos brasis, nossa criatividade e potência está em reinventar a vida e multiplicá-la.

“Esse ato estabelece um sentido de nação estritamente africano e Bantu. A nação aculturada. Essa textura do Bantu, essa rede de relações que o Bantu estabelece na África entre as várias etnias, está fundamentada na própria raiz da língua Bantu, que é a raiz do “ntu”. O sentido de “ntu” é a relação de pessoa pra pessoa” afirma Beatriz Nascimento. É desse gesto e modo de se organizar que o fundamento a partir do “eu sou, porque nós somos” é exercido.

“Tudo nosso é na circularidade” afirma o Mestre Nêgo Bispo, que defende o saber orgânico como uma condição de vida, um saber resolutivo, em que se “pensa pelo sentir”. “O saber orgânico, como sendo os saberes que envolvem o ser e des-envolvem o ter” e que não apenas evidencia os problemas, mas propõe como compreende e como resolve as questões do mundo.

“Quilombo não é lugar de negro escravizado não, Quilombo é lugar de uma civilidade humana diferente. Nos Quilombos não tem mendigo. Nos Quilombos não tem gente morando na rua. Nos Quilombos não precisa creche e nos Quilombos não precisa de asilo” continua o Mestre, “os Quilombos são as organizações contra-colonizadoras mais antigas que se construiu”. Por isso, “o nosso conceito de mundo é outro, o nosso conceito de nossa riqueza é outro”, destaca.

Além disso, o Mestre ainda frisa que “no Quilombo não tem democracia, tem compartilhamento”, isso porque o território é cosmológico, a terra e seus seres, inclusive nós, precisam estar em constante confluência, em diálogo. E ainda diz, “democracia rima com polícia. Não tem democracia sem polícia. Nas comunidades não tem polícia e vai ver aonde é que tá mais violência, se é onde tem polícia ou onde não tem polícia?”, conta.

Foto: Ana Carolina Fernandes.

Diferente do discurso de ódio propagado pelo ocidente patriarcal, os povos quilombolas nos ensinam, a partir da cosmologia em diáspora, que é preciso pedir benção a quem viu o sol antes de nós, a quem lutou para que esse futuro estivesse aqui. “O nosso medo é a perda da memória, porque são os mais velhos que carregam toda a história do quilombo” diz Vercilene. “A memória são conteúdos de um continente, da sua vida, da sua história, do seu passado. Como se o corpo fosse o documento”, diz Beatriz Nascimento.

“Eles [os mais velhos] são os nossos espelhos. A nossa história só deu continuidade graças a esses anciãos, sem eles não tinha história. A nossa identidade começa com os mais velhos, esquecer eles é esquecer a nossa trajetória” reforça Laura. “Lá em Furnas a gente dá muito mesmo valor para seus idosos, para as pessoas mais velhas. A família que tem seus idosos, um da casa toma conta, um filho toma conta. Não tem nenhum idoso lá que está em asilo, não tem nenhum idoso que precisa ir para casa de repouso. Se precisa ir ao médico a família está junto, se fica doente a família está junto. E quando perde-se um idoso é uma perda doída, porque é uma parte da comunidade que se foi, é uma sabedoria, é uma vivência que se foi”, diz Vera Lúcia, funcionária pública, estudante de educação do campo e vice-presidente da associação do Quilombo Furnas do Dionísio, Mato Grosso do Sul, ao recordar sua criação e os ensinamentos de respeito para com os mais velhos, mesmo que estes não sejam parentes, sempre é preciso pedir a benção.

“Por mais que um sistema social domine, é possível que se crie aí dentro um sistema diferenciado, e é isso que o Quilombo é. Só que não no estado de poder no sentido que a gente entende, poder político, poder de dominação, porque ele não tem essa perspectiva. Cada indivíduo é o poder, cada indivíduo é o Quilombo” afirma Beatriz Nascimento.

Para quem ainda não sabe, a humanidade surge no continente africano. Sim, esse é o nosso berço matricial e o mesmo que somos ensinados a anular de nossas vidas. Essa primeira experiência foi regida pela estreita inerência entre a natureza e seus seres, nós. “A terra é sagrada. É moradia, mas também é lugar de cultivo, vivemos do cultivo do arroz, da cana, do feijão, do respeito ao tempo da terra para que ela descanse depois dos cultivos. A terra é parte da gente, ela que nos dá sustento”, assinala Hellen Oliveira.

Ainda nessa retomada de princípios africanos em diáspora, também o ser mulher, as matriarcas, gestão os saberes que forjam os levantes da comunidade. “Dentro dos territórios são as mulheres que tem a força de organizar e mobilizar a comunidade, pois a luta está para além do território, é criação de redes” expressa Vercilene. “Ser mulher quilombola é tomar seu próprio rumo, é resistir”. Por isso, “quando uma mulher quilombola tomba, o Quilombo se levanta” como afirma o grupo de mulheres quilombolas da Conaq.

Foto: Ana Carolina Fernandes.

“Elas são guerreiras, lutadoras e são grandes mulheres que deram ênfase a nossa luta quilombola” destaca Laura a respeito da força das mulheres quilombolas na retomada de seus territórios. “Elas sempre estiveram à frente, porque a mulher, no enfrentamento, ela consegue dialogar, prosear e dar paulada, então é pau e prosa”, diz a líder, demonstrando a força da descendência em cada palavra.

Perto de onde Laura vive existia entre 1730 a 1770 o Quilombo de Quariterê, liderado pela rainha Teresa de Benguela. A comunidade abrigava mais de 100 pessoas entre negros e indigenas, se organizava militarmente, transformava os metais das armas em panelas, e tomavam as decisões de forma coletiva. No entanto, a resistência mais uma vez foi interrompida pelo exército brasileiro que destruiu o Quilombo e matou a rainha. Mas, essa mulher quilombola renasceu, não é a toa que seu espírito se encontra na continuidade das comunidades.

Se reinventar significa não morrer. O povo quilombola, além de lutar, atualmente, contra um vírus “invisível”, de efeitos devastadores, ainda precisa estar em atenção constante com a manutenção da saúde plena. O direito ao festejo, as rodas de conversa, as visitas fim de tarde, as idas à benzedeira ou ao benzedeiro, foram reduzidas. A manutenção da espiritualidade também sentiu o momento. A andança pelo Quilombo foi posta em quarentena, mas a vitalidade do compartilhar e cuidar continuou pulsando nos saberes com a terra.

Por isso, nossa imunidade vem da terra e ela nos ensina a circularidade da vida, aqui não existe o fim. As doenças que esse mundo nos causou são profundas e não podem ser curadas apenas com remédios e drogas químicas. O passo atrás é necessário. A pele preta é um presente dado a nós antes mesmo de nascermos e com ela o direito à memória, e às táticas de como sobreviver em tempos de caos. A resistência está nisso também, em poder eternizar a grandiosidade dos ensinamentos quilombolas que permeiam nossa vida, mesmo diante das tragédias que nos são acometidas. A estratégia quilombola aponta que jamais estivemos sós.

Foto: Ana Carolina Fernandes.

Os saberes tradicionais que nutrem as histórias dos brasis não partem apenas do plano material. Ele está para além do DNA, permeia o espírito, nas feridas que abriram em nós e na criatividade em reorganizar nossas vidas. O que foi roubado do povo negro precisa ser retomado. Nossas narrativas precisam ser reivindicadas no incômodo aos da casa grande, que são o grande vetor das pandemias que amaldiçoam as pluralidades da vida.

Ansiamos tanto por uma vacina que vai nos salvar do desastre da covid-19, mas será que tudo será solucionado pela promessa de cura promovida pela indústria farmacêutica? É impressionante o quanto somos direcionadas e direcionados a olhar de forma míope para o mundo. “O que importa é o que eu vejo como importante”.

E com isso, somos movidas e movidos a esquecer que a real cura precisa ser coletiva. O fundamento violento do Brasil homogêneo e irracional acha que rompendo com os antepassados ainda existirá o milagre do futuro. Esse projeto egoísta nunca deu certo e mais do que nunca sua ineficácia está provada.

Não há futuro sem ancestralidade, não se pode avançar sem recuar, a flecha só vai mais longe quando afastamos um pouco para trás e para alcançar o céu é preciso ter raízes profundas. Os povos da floresta, da terra e das águas já nos ensinam isso a muito tempo. São eles que dizem o tempo todo que curar a terra é nos curar, são eles que previram a queda do céu e clamam pelo adiar do fim do mundo, para que outros mundos ainda sejam possíveis.

“Quilombo é começo, meio e começo”, nos desnorteia ao futuro, o Mestre Nêgo Bispo.

 

Texto completo publicado inicialmente em www.brasis.org, Brasis – Histórias da periferia na pandemia. Projeto realizado pelo Favela em Pauta e pelo Instituto Marielle Franco.

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Jornalista e Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de Goiás. Mestra em Comunicação.
Colaboradora no Favela em Pauta.
Pesquisadora no Coletivo Magnífica Mundi – UFG e no OBIAH – Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais e decoloniais da Linguagem – UFG.

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