América central: um milhão de migrantes em 2020

Mais de um milhão de pessoas a abandonar os países da América Central só neste ano de 2020

Essa semana uma nova coluna de gente organizou-se em San Pedro Sula, Honduras, para sair em caminhada rumo aos Estados Unidos. Pelo menos 400 pessoas, congregando famílias inteiras, que perderam tudo o que tinham, acossadas pelos furacões, pela violência e pela miséria sistêmica. “Nada mais nos resta que nos colocar a caminho”. A maioria sabe que vai ser bem difícil atravessar a fronteira dos EUA, mas é a vontade de viver que os põe em marcha. De alguma maneira, acreditam que podem ter mais sorte saindo do país do que ficando.

Esse é o sentimento que levou mais de um milhão de pessoas a abandonar os países da América Central só neste ano de 2020, conforme números revelados pela Comissão das Nações Unidas para os refugiados. Há cerca de dois anos, as famílias inauguraram essa nova forma de migrar, caminhando em imensas colunas de gente que já chegaram a juntar mais de quatro mil pessoas. Aprenderam que andando juntas sofrem menor ação dos coiotes e outros tipos de criminosos que se aproveitam do desespero das gentes.

O ano de 2020 teve, além da já tradicional ação das “maras” (grupos de criminosos armados), o descaso dos governos com relação à pandemia do novo coronavírus. As famílias sentem-se abandonadas diante dos desastres naturais, das ações criminosas, da fome e da falta de condições de saúde. A única saída que encontram é fugir. Os Estados Unidos aparecem então como a única alternativa possível e é para lá que se dirigem as colunas de migrantes, embora a maioria das pessoas não consiga entrar e acabe repatriada. Essa volta forçada para o país de origem gera ainda mais desespero e pavor, fazendo com que novas colunas sejam formadas. E assim, o tempo todo, essas fileiras de gente vão e vem pelo território destroçado da América Central.

Os Estados Unidos têm forçado a barra junto aos países da região e também com o México (espaço da fronteira), para que encontrem formas de impedir a saída dos migrantes. Mas, obviamente que isso não tem surtido resultados. Afinal, a única maneira de impedir a migração é garantindo vida melhor à população, coisa que não acontece. Pelo contrário. Honduras segue atuando dentro da lógica do golpe dado em 2009. Guatemala acaba de aprovar um orçamento que retira ainda mais direitos do povo, o que levou a manifestações massivas. El Salvador não encontra saída para as maras. E assim seguem as coisas, sem qualquer perspectiva para os empobrecidos.

O triste paradoxo é que as pessoas marcham para os Estados Unidos, justamente o país que provoca toda a miséria em que vivem nos seus países, contando, é claro, com a ajuda das elites locais. Ainda assim, elas acreditam que viver como ilegais no país do norte é mais seguro do que enfrentar os dramas dentro de seus próprios países, onde estão completamente abandonados. Lá, pelos menos, contam com a ajuda de entidades que lutam pelos direitos dos migrantes.

É uma dolorosa batalha pela vida.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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