América Central: a luta ainda vibra

Os governos da América Central (Guatemala, Nicarágua, Honduras, El Salvador e Costa Rica) celebram nesse mês de setembro o bicentenário de independência da colônia espanhola.

Os governos da América Central (Guatemala, Nicarágua, Honduras, El Salvador e Costa Rica) celebram nesse mês de setembro o bicentenário de independência da colônia espanhola, quando, em 1821, esses países criaram a União das Províncias da América Central. Integravam-se assim ao furacão revolucionário que tomava toda a América Latina e como acontecia no México e na América do Sul, igualmente expulsaram os espanhóis do mando, buscando vida melhor para toda a gente. Foi uma independência curta, visto que um ano depois eram anexadas pelo então Império do México, mas tão logo o México torna-se república em 1823, esses países aproveitam para voltar a constituir a União das Províncias, aí sim livres e autônomas, sem mais vínculos com a Espanha ou México. A união das Províncias chegou a participar do Congresso Anfictiônico do Panamá, promovido por Simón Bolívar em 1926, justamente para dar consequência ao que ele chamava de constituição da Pátria Grande. Aquele foi um sonho que embalou muitos dos libertadores.

Mas, tal qual aconteceu na América do Sul, onde os oligarcas regionais resolveram trair a ideia da Pátria Grande e fatiar o continente em pequenas repúblicas, nas quais cada um pudesse exercer o seu poder, a União das Províncias da América Central também se desfez em 1838 quando a Guatemala decidiu sair do bloco. Logo em seguida, uma a uma, as demais províncias também foram se separando e acabou o sonho de uma América Central unificada.

A partir dessa balcanização a águia do norte decidiu fincar as garras no lugar e foi quando os Estados Unidos passaram a ocupar a região, começando pelo Caribe. E resto é história. Nunca mais esses países conseguiram sair da esfera de influência dos Estados Unidos, que mantêm o processo de dependência e de subdesenvolvimento sempre firme, resguardando seus interesses geopolíticos e econômicos. Não é sem razão que é da América Central que saem milhares de pessoas em fuga, todos os anos, em colunas de migrantes, buscando sair do círculo de miséria, fome e violência que grassa nos países da região. Basta uma olhada na história de cada um desses países para se deparar com ditaduras sanguinárias, ocupações militares, genocídios, etnocídios e extrema exploração dos trabalhadores, o capitalismo dependente com todos os ingredientes autoritários. O que fez, inclusive, com que as populações buscassem, durante anos de guerras civis e revoluções de libertação nacional, a verdadeira independência. Uma independência que não aconteceu.

Justamente por isso que nesse mês de setembro quando começaram a pipocar as celebrações do bicentenário da libertação de Espanha, as gentes dos países da América Central não deixaram por menos. Na semana do dia 15 de setembro, manifestações, atos de protesto e  marchas foram realizadas na região. Os trabalhadores sabem muito bem que nada está bem e que pouco há para celebrar, portanto não se vincularam às festas governamentais.

Na Guatemala, os camponeses e os indígenas (que na verdade se misturam) lembraram o massacre do povo maia e a guerra sem fim que tem sido imposta à população governo trás governo, a tal ponto de obrigar famílias inteiras à fuga constante. Isso sem falar na sangria de riqueza através da corrupção endêmica da classe dominante. Em El Salvador também aconteceram massivas marchas de protesto exigindo a verdadeira independência e o fim do governo anti-democrático de Nayib Bukele.  Na Nicarágua os protestos no dia de independência se somaram à rejeição ao que denominam governo autoritário de Daniel Ortega. Trabalhadores do campo e da cidade de Honduras também realizaram manifestações de protesto: nada a celebrar. E até mesmo na Costa Rica, ainda que não tenham acontecido protestos massivos, foram registradas manifestações, principalmente desde os partidos políticos de esquerda, por uma independência real.

Assim, para além dos discursos governamentais ufanistas, as gentes que padecem a vida real, nos campos e nas cidades, os trabalhadores que não encontram mais como reproduzir a vida, os indígenas massacrados, os camponeses expropriados, as mulheres, as crianças e os velhos empobrecidos pela exploração capitalista dependente, seguem lutando – cotidianamente – para garantir a vida boa e bonita que um dia foi vislumbrada pelos sonhadores da Pátria Grande soberana e popular, verdadeiramente livre da opressão e da dependência.

A luta não esmorece na América Central e mesmo aqueles que, sem saída, decidem migrar, carregam com eles o desejo de ver um mundo novo para os seus. Ainda há muita estrada para trilhar até a liberdade e os lutadores estão de pé.

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Jornalista e Diretora de comunicação do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Educadora popular.

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