A ofensiva golpista e a tímida resposta dos movimentos populares no Brasil

Como mais um capítulo infame deste processo, o ex-presidente Lula foi encarcerado em abril deste ano. Lula é definitivamente um preso político.

A ofensiva golpista e a tímida resposta dos movimentos populares no Brasil
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Movimientos populares en brasil

EspañolO Brasil vive sob o signo do golpismo e do estado de exceção desde que a presidente Dilma Rousseff foi destituída do posto em abril de 2016 numa manobra casuística, ilegítima e ilegal. O consórcio golpista (mídia hegemônica, capital rentista, oligarquias fundiárias e uma casta judiciária sequiosa de poder e distinção) solapa por todos os lados os fundamentos e as perspectivas de uma inserção soberana do país no cenário global, destruindo também as janelas para um desenvolvimento humano capaz de enfrentar as abissais desigualdades, assimetrias que guardam estreitos vínculos com o brutal passado escravocrata.

Como mais um capítulo infame deste processo, o ex-presidente Lula foi encarcerado em abril deste ano. Lula é definitivamente um preso político. Foi levado ao cárcere como produto de uma condenação farsesca, originada num processo eivado de ilegalidades, arbitrariedades e carente de provas sólidas. Lá será mantido porque as pesquisas indicam que ele é franco favorito para vencer as eleições em outubro deste ano. Tudo isso correu numa velocidade inaudita para todos os padrões do poder judiciário brasileiro e com o clamor escancarado e ininterrupto de uma mídia hegemônica que há tempos abandonou qualquer conduta ética, assumindo função de grêmio político/partidário.

Embora seja um político de viés conciliador, reformista, Lula passou a ser encarado como um risco inaceitável para os planos do consórcio golpista que espera eleger um candidato definitivamente alinhado com o ideário neoliberal, alguém como Macri o foi na Argentina. O teatro eleitoral funcionaria assim para afirmar que da eleição em diante o país adentraria num novo ciclo de normalidade e pacificação, discurso que, no entanto, só será vendido caso o candidato a ser ungido por essa confraria vença o pleito. Retirar Lula do páreo é um passo importante, mas ainda há grande risco para esta turma porque seus candidatos não conseguem decolar, a confiança nas instituições se evapora e a população está mais atenta sobre quem representa o quê.

Movimientos populares en brasil

As forças golpistas lideram um projeto antidemocrático contra os que vivem do trabalho, os grupos minoritários, os marginalizados pela pobreza e a miséria – em maioria negros – e mesmo contra os direitos civis e humanos. É neste contexto de ataque aberto aos direitos sociais e as próprias regras do Estado Democrático de Direito que se pode perceber a atual fragilidade dos movimentos populares e sociais de desempenharem um papel a altura da crise que engolfa o país. Falta unidade, organização e mobilização para se travar com vigor a guerra em defesa de uma pauta mínima que cancele a escalada regressiva ora em curso.

Partidos e sindicatos do campo progressista tampouco oferecem algum sopro robusto de iniciativa e contra-ataque. A única “saída” no horizonte está sendo aguardar o mesmo processo eleitoral que será modulado e regulado pelo estado de exceção e que deverá já partir da ilegitimidade com a interdição da candidatura Lula!

A falta de musculatura demonstrada pelos movimentos populares e sociais é debitada ao amolecimento das ações que não teriam sido desenvolvidas como parte de uma “boa vontade”, quando não da cooptação direta, a ser demonstrada com o ciclo do Partido dos Trabalhadores na liderança do aparelho de Estado entre 2003 a 2016, durante os governos Lula e Dilma. É verdade que o arrefecimento por demandas mais ousadas podem ter domesticado o espírito mais combativo, mas isso por si só não explica a incapacidade de responder com destreza ao que está em jogo neste momento do país. Quando a situação é grave, os que lutam devem redobrar a obstinação e deixar a zona de conforto. Se o caso fosse apenas o de ter controlado por demais impulsos de combate, tudo seria diferente. Não, trata-se de uma desorganização e desarticulação intensa e de erros mais estratégicos.

A avalanche das ideias neoliberais encontrou terreno fértil no Brasil e lá mesmo na subjetividade dos desassistidos e explorados. As atividades de politização assim como de construção de necessários círculos de solidariedade foram relegadas a um plano secundário por diferentes movimentos populares e sociais que não podem alegar terem sofrido constrangimento para avançar nestas bases. A tarefa não foi tomada nas mãos e o vácuo acabou sendo preenchido mais consistentemente pelas religiões neopentecostais que tem na multinacional Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) símbolo privilegiado.

Com sua agenda conservadora/reacionária no plano dos costumes, mas bastante alinhada com o neoliberalismo no que toca a individualização do “sucesso” de cada um – a alcunhada “teologia da prosperidade” – avançou uma ideologia despolitizada que já possuía na mídia hegemônica uma grande aliada. Grosso modo, segundo estes pastores de alma, qualquer melhora dos padrões de vida do sujeito é fruto exclusivo de sua vontade e fé, da graça divina, concertos e arranjos socioeconômicos derivados da disputa pública/política não concorrem para o caso. Contudo, não se pode negar e deixar de reconhecer, que sob o ponto de vista da criação de laços de assistência e de solidariedades, onde reina o desalento, estes vendilhões de ilusões sobre o processo social oferecem o consolo imediato.

Além disso, concorrendo como fator não menos danoso está a incapacidade de fazer com que diferentes bandeiras e pautas se reúnam sobre um programa mínimo. Concentrados em causas específicas, parece ausente a compreensão por parte dos movimentos de que o consórcio golpista está a atacar tópicos pontuais caso a caso e mirando sua carga em questões da vida econômica que têm impactos transversais e gerais. Já se deu, por exemplo, a entrega de patrimônio estratégico do país para conglomerados estrangeiros no caso da concessão dos poços de petróleo do pré-sal e está a se desenrolar o processo que pretende privatizar o controle da Eletrobras, responsável por relevante oferta da energia nacional. Isso para não falar na derrota praticamente sem resistência que foi a aprovação do desmanche das leis trabalhistas, situação que já pavimentou o quadro de precarização de rendimentos e de perversas condições contratuais de trabalho.

Nesse ínterim se formaram duas importantes Frentes no país, a Frente Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular. Reunindo partidos, centrais sindicais, movimentos populares e sociais, estas iniciativas, no entanto, ainda não se comportam como associações firmes e fortes, capazes de representarem uma decidida coesão. Têm procedido mais como um aglomerado, uma proposta de investimento para o futuro, incapaz de gerar a necessária sinergia de forças que o presente está a exigir.