A elementar história do comum

A forma massiva e a continuidade das narrativas reproduzidas e pré-prontas aparentam que nos resta terceirizar os processos de enunciação.

A elementar história do comum
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La Bendita Manía de Contar

Fomos fadados a criar mundos externos e internos que são resultados de leituras particulares sobre a vida. Não só fazer parte dela, mas também se torna uma constituição prévia de existência: Contar para existir. Ao passar os olhos, ao ter contato e ao intercambiar novas histórias – ora afirmando o novo, ora potencializando o passado, ou ainda mesclando todos os tempos possíveis – temos práticas que se relacionam com esse mesmo dom que estrutura vivência, criticidade e criatividade. O hábito de contar e ouvir histórias também pode ser traduzido como memória social, ou como uma ambientação de certos códigos e costumes. Contar é jogo de interesse compartido. Ganhar e perder entre os ensaios que narradorxs e ouvintes testam a sua dança.

A prática de contar, é também a ação do recordar. Desde eventos íntimos, até práticas coletivas, rememorar antepassados, fazer do esquecimento um espaço “controlado” por reconexões. Movimentos que o documentário La bendita manía de contar (2016) tenta ressaltar. O filme é simples em sua formatação. Ambientado num antigo cinema, cinco pessoas participam de um casting contando as suas próprias histórias como se fosse um filme. Se utilizando da simples prática de compartilhar uma história, ali eles usam adereços, dramaturgia, adaptações e colaborações entre os cinco selecionados que conduzem como diretores um olhar íntimo sobre suas vidas – que se transformam em coletividade. O processo de produção do documentário ocasionou com que as narrações dos personagens tocassem em temas universais – tal como a morte, amor, saudade – partindo dessas miradas sob os acontecimentos pessoais.

La bendita manía de contar - 2A forma como tratamos as nossas histórias, aprendizagens e vivências transformam e refletem também o nosso ao redor. Essa maneira de vida, essa convivência callejera de ouvir, trocar e contar histórias. A elementar constituição daquela pessoa que conta histórias, daquela que ouve, e na interação que existe em todo o processo também ocasiona uma reconfiguração dentro da sociedade capitalista. A forma massiva e a continuidade das narrativas reproduzidas e pré-prontas aparentam que nos resta terceirizar os processos de enunciação. Valorizar esse ambiente, e a proposta do média-metragem cubano, é enaltecer uma oralidade enraizada, fortificada por antepassados e comunidades. Os meios de linguagem, através de seus diferentes formatos e convenções.

Há, portanto, uma consequência direta na maneira de aprender e organizar costumes e crenças perante o processo impositivo e violento colonial. As suas consequências atingem ao mesmo tempo futuro e passado, e a imaterialidade desses causos e dessas formações de interesse e coletividades veem a configuração de um epistemicídio. Sueli Carneiro, através do pensamento de Boaventura Sousa Santos, indica que o epistemicídio é um dos instrumentos da dominação étnica/racial que atua diretamente na compreensão do conhecimento e no autoreconhecimento do grupo dominado.

o epistemicídio é, para além da anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados, um processo persistente de produção da indigência cultural: pela negação ao acesso a educação, sobretudo de qualidade; pela produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de conhecimento e de rebaixamento da capacidade cognitiva pela carência material e/ou pelo comprometimento da auto-estima pelos processos de discriminação correntes no processo educativo. (p. 97)

A aplicabilidade daquilo que se convencionou a se reconhecer como cultura, na formação e compartilhamento de nossas histórias, também exerce uma “função” de exclusão. Ou seja, cultura, Estado e desenvolvimento são tópicos do mesmo contexto que permeia o imaginário tendo como plumo a subalternização. Aquilo que condiciona a vida, também determina o espaço público-social dos assuntos e grupos que são possibilitados de serem enunciados e reproduzidos. A repressão da voz e da escuta fazem com que a transformação social seja um ambiente de choque que, em vias alternativas, nos “rebaixam” enquanto produção intelectual e de formatação das sensibilidades que tecem o cotidiano. A via violenta, a aplicação ininterrupta da racionalidade – que reduz a experiência como objetivo-real, sem converter-se sob os elementos que circulam essa possível “realidade” – atinge os meios de recordar, lutar e projetar. Arturo Escobar, em Autonomía y diseño (2016) relata essa percepção:

La primera es que esta noción de lo real refuerza la idea de un mundo único que exige una verdad única sobre él. Los movimientos sociales, como el de los zapatistas, han señalado que este supuesto de un mundo único con una verdad única es uno de los fundamentos de la globalización neoliberal (e.g., Esteva 2005), por lo que se ha convertido en un objetivo de los movimientos que contraponen una visión de un mundo donde quepan muchos mundos —un pluriverso—. (p. 104)

O epistemicídio vigente conduz silenciamentos, e a promoção das figuras que emanam histórias ganham força como ação territorial enraizada desse possível pluriverso. O espaço contido, desse modo, lança a tradição oral como reafirmação e ruptura da “verdade única”, e da ação hegemônica de controle de mundos. As figuras de griots e demais personalidades que incidem suas narrativas de forma relacional, representam uma rede que intermeia o comunicacional e emocional com as sensibilidades comunitárias. As referências são muitas, as técnicas e limitações também, porém ao sentido de intercruzar mecanismos populares traduzem estruturas complexas e legitimadoras.

La bendita manía de contarSão nessas paragens da linguagem, convertida em som, corpo, signo e palavra, que se diagnostica a criticidade do processo. Na enxurrada de imagens que somos abduzidos diariamente, nos privamos de elaborar e criar. Na condição de enunciação repassamos esse valor e posição para outrem. Nesse sentido, o documentário cubano provoca a re-ação. O documentário tem a direção do colombiano Emanuel Giraldo Betancur, que tomou emprestado de seu conterrâneo o título do documentário. “La bendita manía de contar” (1998) é um dos títulos da obra de Gabriel García Márquez, uma oficina de roteiro para cinema que o autor colombiano transformou em livro. Márquez era um contador de histórias que se espalhava pela literatura, pelo jornalismo e também pelo cinema. Na forma como ele pensava um roteiro, ele relata nessa oficina a origem de sua criação:

La  mitad de los cuentos con que inicie mi formación se los escuché a mi madre. Ella tiene ahora ochenta y siete años y nunca oyó hablar de discursos literarios, ni de técnicas narrativas, ni de nada de eso, pero sabía preparar un golpe de efecto, guardarse un as en la manga mejor que los magos que sacan pañuelitos y conejos del sombrero. Recuerdo cierta vez que estaba contándonos algo, y despúes de mencionar a un tipo que no tenía nada que ver con el assunto, prosiguió su cuento tan campante, sin volver a hablar de él, hasta que casi llegando al final, !paff!, de nuevo el tipo – ahora en primer plano, por decirlo así –, y todo el mundo boquiabierto y yo preguntándome, ¿dónde habrá aprendido mi madre esa técnica, que a uno le toma toda uma vida aprender? Para mí, las historias son como juguetes y armarlas de una forma u otra es como un juego.  (p. 13)

Mesmo essa perspectiva sensível e enraizada de Márquez nos deixa caminhos para uma reflexão que a afirma o passo de querer contar histórias, de escrever, de produzir é também um passo dolorido. O perfil de histórias e representações que o sistema-mundo configurou não permite a voz e a ação de muitos grupos sociais e identidades. Por isso, a atitude de contar a sua própria história torna-se uma luta contrahegemônica de legitimação. Glória Anzaldúa, no texto Falando em Línguas, decidiu compartilhar com outras mulheres a sua decisão em escrever e contar histórias. “Como foi que me atrevi a tornar-me escritora enquanto me agachava nas plantações de tomate, curvando-me sob o sol escaldante, entorpecida numa letargia animal pelo calor, mãos inchadas e calejadas, inadequadas para segurar a pena? Como é difícil para nós pensar que podemos escolher tornar-nos escritoras, muito mais sentir e acreditar que podemos!” (p. 230). O empoderamento da palavra e da sua própria história consta para a escritora mexicana como reivindicação de espaços negligenciados e omitidos.

Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever (p. 232)

Reitera-se, dessa maneira, a expressividade ampliada das múltiplas maneiras de contar. Seja ela sonoramente, visualmente, via estética, como ação política, ou transgressora passa pela corporificação dos sentidos.

Ao cinema documental, cabe o seu efeito como artefato, como elaborador de ligações memorialísticas que possuem consequências infinitas. A técnica, nesse modo de leitura cinematográfica, fica em segundo plano. É o que se destaca na produção do documentário de Emanuel Giraldo Betancur, a propulsão como engate de certas histórias que se ignoram. Histórias da gente miúda, a pequena história do comum convertida em lição pluriversal.

A memória filmada – sem a pretensão da ambivalência real-falso – exige que o tempo e o espaço construídos sejam definidos com significados estruturados também pelo recordar. As pontes que une esse tempo-espaço condicionam, para memórias subalternizadas, uma base para a existência. Portanto, são consequências simbólicas e imaginárias que tendem a conferir a possibilidade da vida concreta. Junto a isso, a popularização de equipamentos, e o acesso para instrumentos de manipulação favoreceram para uma ampliação da criação cinematográfica, alicerçada na função memória de grupos que eram invisibilizados. Esse processo, do início do século XX, levou para distintas identidades a significação da autoria. Ou seja, um retrato enquadrado por suas próprias comunidades – Festivais e Mostras como Cine Kurumin, Anauê e Tela Indígena são exemplos dessa reconfiguração autoral. Assim, a representação da coletividade que encontramos em documentários postam a discussão sobre privilégios e versões sobre a humanidade garante um outro viés à produção de imagens e histórias.

O média-metragem La Bendita Manía de Contar tem a produção da Escuela Internacional de Cine y Televisión, e ganhou o prêmio de melhor documentário cubano em 2016 no Cuba in Film em Frankfurt.

E você pode assistir na página Retina Latina.

 

Referências

ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, p. 229, jan. 2000. ISSN 1806-9584. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880>. Acesso em: 17 ago. 2018.

CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não ser como fundamento do ser. Tese (doutorado) em Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo. 2005.

ESCOBAR, Arturo. Autonomía y diseño : La realización de lo comunal. Popayán: Universidad del Cauca. Sello Editorial, 2016.

MÁRQUEZ, Gabriel García. La bendita manía de contar. Madrid: Plaza y Janes Editores. 1998

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Autor

Jornalista. Fronteiriço. Mestrando em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).