A educação no Brasil no primeiro quartel do século XXI

Educación Brasil siglo xxi
Educación Brasil siglo xxi

DescargarEspañolJosé W. Marinho de Aragão
Universidade Federal da Bahia, Salvador de Bahia, Brasil.
jwellingtonaragao@gmail.com

 

Abro este artigo com um depoimento lapidar do professor espanhol Andreu Navarra que de uma forma contundente denuncia em que foi transformada a educação como processo social de formação dos seres humanos para o convívio em sociedade, pelo sistema capitalista no decorrer dos últimos dois séculos, não obstante os modelos alternativos e as várias experiências aqui e acolá extremamente exitosas no sentido de tomar a educação como processo de construção de auto-emancipação da pessoa, do indivíduo, enfim do sujeito social numa perspectiva de transformação social solidária:

“Nós, professores, queremos criar cidadãos autônomos e críticos, mas, em vez disso, estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento, sem léxico. Estamos vendo o triunfo de uma religião tecnocrática que evolui para menos conteúdo e alunos mais idiotas. Estamos servindo a tecnologia e não a tecnologia a nós”, diz Navarra. Constatando também que,

“O professor está exausto, devorado por uma burocracia para gerar estatísticas que lhe tiram a energia mental para dar aulas.” (O testemunho de Andreu Navarra (Barcelona, 1981), historiador, tem o valor de quem leciona há seis anos em escolas públicas e em escolas subvencionadas, em áreas ricas e em áreas degradadas [da Espanha]. Autor do livro Devaluación Continua (desvalorização contínua) pela editora Tusquets, Barcelona, 2019). [A educação dos ciberproletários. Reportagem de Berna González Harbour, El País, 18/09/2019. Republicado pelo Blog Outras Palavras, São Paulo-SP, Brasil].

Este depoimento, típico de um professor imerso no seu que fazer de modo crítico-solidário nos parece comum a todos os processos educacionais na face da Terra. Parece que os educadores em geral querem uma educação mais autônoma, libertadora, mas os interesses maiores do capitalismo ditam e impõem uma outra pedagogia, uma outra didática de formação apática, desmobilizadora e engajadora de autômatos às engrenagens da sociedade e do Estado dominado pelos poderosos de sempre.

Nos países periféricos do sistema capitalista global e, particularmente na América Latina, diversos dados e testemunhos indicam que a educação sempre esteve submetida a carências de toda ordem. Mexida e remexida num cenário árido com a falta constante de recursos financeiros e pedagógicos, com a aplicação de currículos inadequados, além de alienantes, métodos de estudos baseados na memorização de fatos personalísticos e datas, além do repasse passivo de uma visão linear e positivista dos fenômenos culturais, técnico-científicos, econômicos, históricos, sociais e políticos.

A educação como processo de formação de gerações de uma determinada sociedade sempre esteve ligada a um projeto do perfil de ser humano que se quer e deseja formar (cf. Durkheim, 2011). Para que tipo de ser humano a sociedade e o Estado querem passar um diploma, preparando-o para a vida futura? O que temos no Mundo de hoje é a corrosão do modelo de educação passiva, alienante, dando conta do seu fracasso como processo formador no interior da própria sociedade capitalista.

A globalização econômica dos interesses de mercado, os interesses lucrativos da tal mão invisível, a liberação da internet para uso massivo, a invenção dos telemóveis, o uso irracional das redes sociais e das tecnologias da informação e comunicação (TICs) em geral e em todos os ramos de atividades humanas. Ao tempo que parecia que a revolução da microeletrônica iria proporcionar mais liberdade e autonomia dos seres humanos no seu usufruto, essa revolução veio, de fato, fragmentar e aprisionar as pessoas em bolhas, passando a crença de que agora podemos mais, podemos ter. Tudo engodo, não passamos de indivíduos controlados e submissos aos algorítimos das poucas multimilionárias plataformas informáticas a serviço do mercado. O impacto das TICs sobre os currículos de formação dos seres humanos mundo a fora tem sido extremamente deletério à sociabilidade, à moral, enfim, às práticas de uma cidadania saudável, plural, diversa, amorosa para com todas as diferenças.

A educação nos países latino-americanos tem revelado o lado perverso da implantação e imposição política das concepções econômicas neoliberais há mais de 40 anos. O acesso ao uso das novas tecnologias (revolução da microeletrônica, da nano tecnologia e da robótica) têm corroborado asfixiantemente para a acentuada crise na desestruturação das relações de trabalho, reconfiguração do trabalho e produção do desemprego estrutural na sociedade. As consequências bizarras sobre o processo educacional e nas políticas de formação e qualificação de professores da educação básica e superior são perceptíveis.

Mas por que isto se o pensamento único prega outro modo de viver neste mundo, com outras conquistas e realizações dantes nunca alcançadas? Simplesmente porque os currículos pedagógicos aplicados no processo de formação das pessoas já não cumprem o seu papel, e vastas camadas escolares saem mais deformadas do que bem formadas para buscar e se firmar num trabalho bem remunerado. Com a globalização econômica dos interesses lucrativos do mercado capitalista e com a liberação da informática via inserção dos computadores nas práticas sociais, e mais tarde a liberação da internet para uso das organizações e das pessoas, os problemas se agravaram, as crises se generalizaram mundo afora e passamos a conhecer o desemprego estrutural.

Como consequência os movimentos sociais passam a ser perseguidos e desarticulados e impõem-se relações de trabalho precarizado e enaltece-se a ideologia da “qualidade total”, dos “cinco esses”, do “ISSO 9 mil”, a grandeza na reorganização produtiva dos “Tigres Asiáticos”, do empreendedorismo, a instituição do ensino a distância com suporte nas TICs, além de outros pacotes tecnológicos milagrosos.

A expansão vertiginosa das TICs e a difusão de que agora cada indivíduo é livre para se informar, se educar e consumir; pode inclusive trabalhar livremente em casa e até criar o seu próprio negócio (empreendedorismo), tem sido tão avassaladora que nos encontramos tontos diante de tantas possibilidades. Na verdade, o resultado tem se revelado numa implosão dos valores gregários e solidários do ser humano, resultando na imbecilização dos indivíduos, que passaram a ser isolados, mantidos em bolhas assépticas, facilmente controlados pelos aparelhos maravilhosos das TICs.

A armadilha das novas tecnologias está bem plantada e infiltrada no globo terrestre e paulatinamente vem-se destruindo a capacidade que tem cada indivíduo de tornar-se, de fato, Sujeito (com S maiúsculo) capaz de reelaborar os conhecimentos (a cultura) e fazer História (com H maiúsculo). Isto é, de refletir, de repensar-se e assim tornar-se protagonista no processo social.

A educação, a escola, os processos formativos em geral têm-se constituído numa falsa carta de alforria sob o acalanto das maravilhas nano-robótica-tecnológicas inteligentes. Já não precisamos pensar nem refletir nada, porque a inteligência artificial nos providencia tudo! É só dar um clique e tudo estará ao nosso alcance! Parece que nós seres humanos estamos pagando muito caro pelo uso estúpido das aceleradas conquistas das TICs desde a queda negociada do “Muro de Berlim” em 1989 e a desagregação, também combinada, da antiga União Soviética (URSS) em 1991. Assim, neste cenário,

“Também, hoje, se encontram presentes outros elementos próprios do fascismo: o discurso de ódio ao outro – racismo, homofobia, misoginia; o uso das tecnologias de informação que levam a níveis impensáveis as práticas de vigilância, controle e censura; e o cinismo ou a recusa da distinção entre verdade e mentira como forma canônica da arte de governar.” Cf. Chaui, O que é a “nova” ultradireita?)

O movimento do capital transforma toda e qualquer realidade em objeto do e para o capital, convertendo tudo em mercadoria, instituindo um sistema universal de equivalências próprio de uma formação social baseada na troca pela mediação de uma mercadoria universal abstrata, o dinheiro. (Cf. Chaui, O que é a “nova” ultradireita?)

Se houvesse espaço suficiente poderíamos ilustrar com dados estatísticos a involução da civilização humana em geral a partir dos desígnios impostos pelo neoliberalismo. A globalização econômica tem proporcionado uma lenta e gradual destruição do meio ambiente terrestre no seu todo, através do uso maciço das TICs, visando tão somente a obtenção e concentração de lucros numa escala planetária. Neste cenário a educação passou a ser uma mera mercadoria, objetivada apenas como mais um produto de consumo.

Sinceramente, a educação do pensamento único, a supressão da liberdade e dos direitos sociais, além da globalização das desigualdades sociais e da alta concentração de renda em mãos de poucos indivíduos, são indicadores do desastre geral a que o capitalismo financeiro vem conduzindo a humanidade. Como também parece que as realizações maravilhosas da inteligência artificial não vem educando seres humanos mais dignos, felizes e solidários uns com os outros… Muito pelo contrário.

Referências

Chaui, M. O que é a “nova” ultradireita?, A terra é redonda, 08/10/2019. Republicado pelo Blog Outras Palavras. Acesso em 11/10/2019, as 20:00 horas.

Durkheim, E. (2011). Educação e sociologia. Petrópolis, RJ: Vozes.

Harbour, B. González. A educação dos ciberproletários, El País, 18/09/2019. Republicado pelo Blog Outras Palavras. Acesso em 07/10/2019, às 19:50h.

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