A Biblioteca Ayacucho e Ángel Rama

Pedro Demenech
Pedro Demenech

Neste ano, 2015, a Biblioteca Ayacucho completa quarenta e um anos dando sinais positivos da vitalidade da cultura latino-americana. Fundada em 1974, na Venezuela, durante o governo de Carlos Andrés Pérez, a Biblioteca Ayacucho no seu projeto inicial procurou criar um espaço para a divulgação dos “clássicos” do pensamento social e artístico produzidos nesta parte do mundo.

Entre os principais idealizadores desse projeto, é o nome do uruguaio Ángel Rama (1926-1983) que merece o devido destaque, pois partiu dele a concepção inicial de organizar essa coleção.

A criação da Biblioteca Ayacucho ocorreu num momento delicado da história do continente, principalmente pela proliferação de governos autoritários e ditaduras civis-militares que se espalhavam pelo continente. Toda essa conjuntura acabou por criar uma série de consequências prejudiciais política, social e culturalmente.

No caso do Uruguai, o golpe de Estado de 1973 trouxe consigo uma diáspora populacional, em que muitos intelectuais foram forçados a abandonar o país para preservarem sua vida. E nesse cenário, a Venezuela se apresentava como porto seguro, pois o clima democrático do país foi propício a receber muitos dos exilados que não podiam retornar para a terra natal.

Entre esses intelectuais, estava Ángel Rama, nascido em Montevidéu em 1926, e que chegava a Venezuela, em 1972, após haver sido extraditado três vezes, em menos de trinta e seis horas, pelo governo colombiano. O nome de Ángel constava numa lista oficial de pessoas consideradas subversivas. Isso gerou a manifestação de diversos intelectuais e escritores, como Júlio Cortázar e José Maria Arguedas, que se pronunciaram em favor de Ángel Rama, exigindo explicação sobre o assunto.

Foi nesse cenário, em que o autoritarismo abafava a liberdade de expressão, que Ángel Rama se tornou um intelectual latino-americano. Desde de os anos 1960, quando dirigiu a seção de literatura do semanário Marcha (importante revista cultural) já dava sinais de sua preocupação com a cultura latino-americana, através da literatura. Assim, com a experiência que já havia ganho, pôde consolidar a empreitada da Biblioteca Ayacucho.

A peculiaridade de Ángel, em relação a outros intelectuais da época, reside no modo como ele optou por pensar a América Latina. Procurando fundar suas análises a partir de uma experiência sociocultural, ele foi se aproximando de elementos da cultura popular, expandido o debate para temas pouco estudados. Foi o que fez com a literatura gauchesca e indígena, que lhe rederam livros importantes como Los gauchipolíticos rioplatenses e Transculturación Narrativa.

Ángel se aproximou do grande público, pois colaborou para jornais de grande circulação. Desde o Uruguai até o momento em que viveu na Venezuela, seu trabalho como crítico extrapolou o ambiente acadêmico. Ele estava mais interessado e concentrado na relação entre público, autor e as obras da cultura na América Latina.

Ele foi um dos principais articuladores e críticos do boom literário latino-americano, onde escritores como colombiano Gabriel García Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa apareceram. Pelo mercado criado em torno da literatura, Ángel foi um crítico que olhou com alegria e desconfiança para esse fenômeno e, por isso, dirigia suas análises aos conteúdos das formas literárias ditadas pelo mercado.

Ángel defendia um campo autônomo da crítica literária latino-americana fosse mobilizado, também, pela política e pela cultural. E, como consequência do exílio, o projeto se tornou mais importante, quase que uma obsessão de vida.

Para Ángel construir e organizar uma cultura era uma atividade ética. Não podendo retornar ao Uruguai, encontrou na sua atividade intelectual algo que lhe ajudasse a reconstruir, também, sua trajetória pessoal.

E, nesse cenário, a construção da Biblioteca Ayacucho foi fundamental. A partir de sua construção, Ángel remodelou o cânon, inserindo textos que vão dos povos pré-colombianos até autores contemporâneos. Isso significou uma posição na literatura Ocidental, pois reinvidicou-se a inserção de obras nada convencionais.

O constante contato com a produção cultural interna e externa – tanto a estadunidense, quanto europeia – sobre América Latina, o vasto conhecimento das teorias de sua época e a contínua formação caracterizaram um pensador que a partir de sua experiência passou a ser latino-americano. Focado em entender a formação do campo cultural latino-americano, mediante a atuação de seus agentes políticos e sociais, Ángel foi tecendo a cultura latino-americana onde vislumbrava inserir cada pedaço sem que ele perdesse suas singularidades.

Nessa trajetória, o contato estabelecido com antropólogo Darcy Ribeiro e o crítico Antonio Candido foi crucial. Ángel passou a inserir o Brasil e sua cultura numa tradição onde o país pouco participava, tanto pela questão da língua como pelas posições políticas da história brasileira. Com isso, Rama deu lugar especial ao Brasil na Biblioteca Ayacucho.

A vida e obra de Ángel Rama, nos anos de 1970, são fundamentais para se compreender o passado latino-americano em variadas formas. Enquanto intelectual, as contribuições que ele legou acabam se cristalizando e perdendo força no debate sobre a cultura latino-americana. Com a Biblioteca Ayacucho fazendo aniversário, vale conhecer um pouco mais sobre a história desse autor e da biblioteca, pois preservam peculiaridades da América Latina.

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Doutorando em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, interessado na história intelectual, pensamento e teoria social.

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