A armadilha da competição entre instituições universitárias

À medida que os rankings acadêmicos globais excluem de seu escopo funções universitárias, tradições e especificidades contextuais distanciadas da lógica cultural eurocentrada e de seus interesses particulares, eles não somente “privilegiam os já privilegiados”, como também silenciam epistemologias, práticas e modos de existência.

A armadilha da competição entre instituições universitárias
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competição entre instituições universitárias

Decolonizar

Se a educação superior contemporânea pudesse ser sintetizada a partir de suas tendências mais recentes, tal síntese incluiria aspectos como a redução global do financiamento público para as instituições universitárias; as pressões para o isomorfismo em termos de forma de construção e disseminação do conhecimento, de modelo institucional, de estrutura curricular e de idioma; o predomínio da ideia de formação universitária voltada a suprir as necessidades instrumentais do mercado mundial de trabalho capitalista, além da acentuada ênfase na produção de conhecimento útil à indústria.

Em grande medida, tais tendências resultam da proliferação e do aprofundamento de imperativos mercadológicos na totalidade do setor. Inscritas na conjuntura socioecômica mais ampla do neoliberalismo, configuram-se como distintas, porém entrelaçadas manifestações de “capitalismo acadêmico”. Se articulam, assim, a um imaginário social que, ao normalizar a competição na educação superior de forma estrutural, simplifica complexidades, molda discursos, regula expectativas, transforma e estabiliza relações.

Plan Bolonia
Ilustración: ENEKO

Ao mesmo tempo em que esse imaginário situa o conhecimento como pilar do desenvolvimento da humanidade e exalta o papel da educação superior, faz com que o domínio da produção desse conhecimento seja pensado segundo uma perspectiva instrumental, controlado por um mundo de mercados. Com base no pressuposto de que instituições universitárias funcionam melhor quando operam como “empreendimentos”, o setor se projeta na forma de commodity, forçado a acomodar-se e a responder proativamente a novos imperativos. Submetidos a critérios de desempenho, pesquisadores competem por reputação, enquanto que instituições universitárias competem por acumulação de capital. Em verdade, todos lutam por sobrevivência.

Rankings acadêmicos globais e a hegemonia de um modelo específico de universidade

Um dos mecanismos que reflete e reforça o posicionamento altamente desigual que as instituições universitárias e seus sujeitos ocupam dentro do panorama global de competitividade em que a educação superior contemporânea se insere é a classificação promovida pelos rankings acadêmicos.

Cada um dos três rankings mais difundidos globalmente – Academic Rankings of World Universities (ARWU) ou “Ranking de Shangai”; Times Higher Education World University Rankings (THE); Q&S World University Rankings (Q&S) – adota uma metodologia própria, sem consenso em relação aos seus indicadores. Todavia, de modo geral, os dois primeiros estabelecem como critério central de avaliação a “pesquisa”, que é mensurada com base na quantidade de publicações e de citações de artigos difundidos em meios específicos (geralmente bases pertencentes aos gigantes Thomson Reuters e Elsevier), enquanto que o terceiro respalda-se principalmente na “reputação” e no “prestígio” das instituições, que são mensurados a partir das opiniões de um “peer review global” e de “empregadores globais.

Pensamiento colonialNenhum deles faz menção significativa à função de ensino ou quaisquer referências à extensão, deixando transparecer seus papeis na promoção e na hegemonia global de um modelo específico de universidade – a universidade anglo-saxã e elitista de pesquisa (Ordorika & Lloyd, 2014) – e no consequente “desaparecimento como realidade” de quaisquer outras formas institucionais que, mesmo cumprindo seu papel social, não se enquadrem nos sistemas de valores dominantes.

A despeito das críticas dirigidas a essas hierarquizações e de certo reconhecimento em relação às suas limitações na mensuração de “qualidade”, os rankings acadêmicos – ou ao menos seus princípios fundamentais – são cada vez mais absorvidos e naturalizados pela diversidade de atores e instituições que integram o cenário contemporâneo da educação superior, exteriorizando-se no desenho de políticas nacionais e institucionais. Maringe, Foskett e Woodfield (2013), nesse aspecto, constatam que 90% dos representantes de universidades anglófonas consideram a conquista de altas posições nos rankings como objetivo atrelado ao seu processo de internacionalização. Altbach e Hazelkorn (2017), por sua vez, argumentam que as universidades estão atualmente obcecadas em elevar seu status nessas classificações, ainda que algumas delas jamais admitam isso.

O caso brasileiro

A crescente obsessão pelos rankings não se limita ao contexto dos países que integram o núcleo do sistema mundial. No Brasil, especificamente, instituições como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federais de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Estadual Paulista (UNESP) declaram em seus Planos de Desenvolvimento Institucional (PDI) sua ambição em conquistar o selo de “universidade de classe mundial” (Thiengo, 2018).

Nos portais dessas mesmas instituições é periódica a divulgação e a comemoração de resultados a cada nova classificação, ainda que tais resultados sejam insignificantes quando comparados aos de universidades estadunienses. Nos portais da USP e da UFSC, por exemplo, se lê respectivamente: “Na 118ª posição, USP é a brasileira mais bem avaliada no QS Ranking. É a melhor posição alcançada pela Universidade desde que o ranking começou a ser publicado” (7 de junho de 2018 – USP, 2018) e “UFSC ocupa a posição de 101-150ª no rankingGolden Age University Ranking’” (8 de junho de 2018 – UFSC, 2018).

Os rankings acadêmicos globais também são tema recorrente nas conferências anuais promovidas pela Associação Brasileira de Educação Internacional (Faubai). O programa da edição de 2018, por exemplo – em que mais de 770 assessores de relações internacionais, reitores e vice-reitores de instituições universitárias; representantes de organizações internacionais, governos e empresas; especialistas e pesquisadores do Brasil e do exterior se fizeram presentes – incluiu o workshopLatin American Universities and their performance in QS Rankings” e a apresentação “Academic Reputation of Universities In Latin America”, ambos oferecidos por agentes do QS (Faubai, 2018).

No mesmo país se observa uma influência implícita da lógica dos rankings e da corrida pela criação de “world-class universities” na atual política de internacionalização da educação superior. Lançado em 2017, o Programa Institucional de internacionalização (PrInt) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) promove tanto uma diferenciação institucional em relação às instituições que integram o sistema de educação superior brasileiro, já que se limita às universidades sólidas em pesquisa1Consta no Edital: “[…] Ao menos 4 (quatro) Programas de Pós-graduação (PPGs) stricto sensu recomendados pela Capes na avaliação trienal de 2013 e na quadrienal de 2017, dentre os quais deverá haver, pelo menos, 2 (dois) com cursos de doutorado, e que possuam um Plano Institucional de Internacionalização”.; quanto uma diferenciação intrainstitucional que envolve funções universitárias (com claro negligenciamento do ensino e da extensão), campos do conhecimento2Consta no Edital: “[…] Deverá indicar os seus temas prioritários para as ações de internacionalização a serem desenvolvidas de acordo com as competências e as áreas prioritárias definidas pela Instituição proponente”. e programas de pós-graduação3Consta no Edital: “[…] Descreverá os temas prioritários e enumerará todos os PPGs que atuarão sobre estes temas. A escolha destes PPGs deverá ser justificada”.. Tais diferenciações se confirmam no resultado do processo seletivo, que – em meio a cortes progressivos de recursos públicos que têm comprometido todo o sistema nacional de educação superior – selecionou 25 de instituições de 108 concorrentes para receber até R$ 300.000.000,00 de investimentos. Evidentemente, instituições universitárias com vocações “internacionais”, porém consideradas sem potencial para cumprir o papel instrumental projetado pelo Governo,a exemplo da Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA), a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFF), passaram longe da lista.

Diferenciações coloniais de poder, de saber e de ser

Thiengo (2018), em sua tese doutoral intitulada “Universidades de classe mundial e o consenso pela excelência: tendências globais e locais”, demonstra como os critérios estabelecidos pelos rankings equivalem-se às características centrais do modelo de universidade de classe mundial proposto pelo Banco Mundial. Segundo consta em seu estudo, o consentimento em torno da ideia de “excelência acadêmica” tem sido fundamental para a edificação de uma sociabilidade que atribui à instituição universitária formatos e finalidades que atuam sob a égide do capital financeiro.

UniversidadeÀ medida que os rankings acadêmicos globais excluem de seu escopo funções universitárias, tradições e especificidades contextuais distanciadas da lógica cultural eurocentrada e de seus interesses particulares, eles não somente “privilegiam os já privilegiados”, como também silenciam epistemologias, práticas e modos de existência. De modo análogo, enraizam ainda mais as bases coloniais em que a universidade ocidental se assenta, cujas divisões disciplinares, modelos teóricos e narrativas intelectuais forneceram e continuam a fornecer, reproduzir e justificar hierarquias radicais da humanidade.

Pensar a educação superior a partir de uma ótica que, no lugar de suprimir, compreenda a multiplicidade de funções que lhe são atribuídas – incluindo seu papel na promoção da justiça social e no debate sobre futuros alternativos – significa romper com a hegemonia de visões e enquadramentos vinculados a uma ordem global específica. Os rankings são instrumentos de raíz mercadológica, inscritos na conjuntura socioecômica mais ampla do neoliberalismo. Como tal, atendem a interesses que se assentam na lógica do capital. Sua legitimação por parte dor formuladores de políticas institucionais e nacionais favorece a imposição de seus valores pela sociedade de forma generalizada, ainda que tais valores não a representem em sua totalidade. Daí a necessidade de radicalizar a crítica à hierarquização que tais instrumentos promovem.

Referências

Altbach P. & Hazelkorn, E. (2017). Pursuing rankings in the age of massification: for most- forget about it. International Higher Education, 89, 8-10, Spring 2017. https://ejournals.bc.edu/ojs/index.php/ihe/article/view/9834/8616>. 6 out 2017.

Faubai. FAUBAI 2018 Conference brings together over 770 participants to discuss the internationalization of higher education. http://www.faubai.org.br/conf/2018/. 25 set 2018.

Maringe, F., Foskett, N. & Woodfield, S. (2013). Emerging internationalisation models in an uneven global terrain: findings from a global survey. Compare: A Journal of Comparative and International Education, 43(1), 9-36.

Ordorika, I. & Lloyd, M. (2014). International rankings and the contest for university hegemoni. Journal of Education Policy, 1-21.

Thiengo, L. (2018). Universidades de Classe Mundial e o Consenso pela Excelência: Tendências Globais e Locais. Tese (Doutorado em Educação). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina.

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Autor

É doutoranda em Administração na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), pesquisadora visitante no Center for International Higher Education (CIHE), Lynch School of Education – Boston College e secretária-executiva na Secretaria de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Desenvolve pesquisa crítica em internacionalização da educação superior.

Notas   [ + ]

1.Consta no Edital: “[…] Ao menos 4 (quatro) Programas de Pós-graduação (PPGs) stricto sensu recomendados pela Capes na avaliação trienal de 2013 e na quadrienal de 2017, dentre os quais deverá haver, pelo menos, 2 (dois) com cursos de doutorado, e que possuam um Plano Institucional de Internacionalização”.
2.Consta no Edital: “[…] Deverá indicar os seus temas prioritários para as ações de internacionalização a serem desenvolvidas de acordo com as competências e as áreas prioritárias definidas pela Instituição proponente”.
3.Consta no Edital: “[…] Descreverá os temas prioritários e enumerará todos os PPGs que atuarão sobre estes temas. A escolha destes PPGs deverá ser justificada”.