Sobre webqualis, revistas de graduação em antropologia e a “boa vontade” de “antropólogos”

Eu lembro de pelo menos DUAS vezes quando eu não pude publicar (após o texto ser aceito) porque eu não possuía um título de DOUTOR (em antropologia), onde os periódicos, muito atenciosos e preocupados comigo, e não com o webqualis, me sugeriram incluir “alguém como co-autoria”, onde podiam inclusive sugerir nomes, para assinarem em uma escrita que não participaram. Esses periódicos são todos brasileiros ou controlados por uma ilógica brasileira. A.k.a.: webqualis + concursos públicos federais para cargos de docência.

Devido a essa lacuna das possibilidades de publicação científica no Brasil, é comum alunas e alunos de graduação (das ciências sociais) organizarem revistas científicas, e não raras vezes, restringirem as publicações APENAS à alunos de graduação do curso e áreas afins, e em alguns casos, a alunos recém-ingressantes em cursos de mestrado. Eu já emiti pareceres sobre artigos para pelo menos duas dessas revistas, e por vezes nós descartamos (na verdade sugerimos enviar pra outros periódicos) artigos de qualidades variadas, justamente por se tratarem de docentes universitários (buscando incremento nas letrinhas enquanto pesquisador do CNPq) ou de discentes em nível de doutorado que precisam publicar para receber a bolsa mensal em certos programas de pós-graduação (e em alguns casos para se formar).

Um segundo ponto é que devido as próprias anormalidades do webqualis, se não houver publicações de “senhores doutores” entre as fileiras de textos da revista (que ninguém lê, mas as vezes citam), ela não consegue subir os degraus que separam um periódico indexado (C) para um periódico remotamente PONTUÁVEL em concursos públicos (B4 ou acima). Essa situação acaba afetando, indiretamente, os periódicos que contenham apenas textos de graduação, que dificilmente vão ter alguém se tornando doutor em um espaço inferior à 7 ou 8 anos (2-3 do mestrado e outros 4-5 do doutorado, pelo menos). Essa situação NÃO DEVERIA ser um problema, estamos falando de discentes de GRADUAÇÃO.

Pelo fato do corpo discente de programas de mestrado não serem graduandas ou graduandos, nem serem doutoras ou doutores, essa gente também acaba ficando impossibilitada de publicar em quase todo lado, o que provoca uma situação bastante similar, onde os discentes, que ainda não são diplomados como dôtores nem estão mais na fase de pré-diplomação, veem nas “revistas dos alunos (de específico) programa de pós-graduação” único ponto de salvaguarda. E assim, além das tarefas de pesquisa (que já são raras na curtíssima estadia enquanto mestranda ou mestrando), se colocam a organizar tais periódicos.

Um terceiro eixo é quando as associações nacionais de antropologia, na pior má fé, otimizam alguma revista para maximizar UNICAMENTE os pontos de webqualis, sob três aspectos: 1) somente artigos de docentes universitários. 2) somente artigos em inglês (e que pelo não domínio do respectivo idioma são majoritariamente traduzidos por partes terceiras). 3) reaproveitamento de textos impublicáveis em qualquer periódico pela baixa qualidade, e que fazem uso de referências circulares entre si, visando certos indexadores internacionais (a coisa é tão mal feita que ainda assim os resultados são sofríveis).

Reciclam-se artigos terríveis oriundos daqueles congressos à beira da praia que nunca seriam utilizados, e maximiza-se a pontuação possível de ser adicionada à revista no webqualis, devido à “alta formação dos autores” e a “publicação apenas em idioma inglês”, elevando o “nível de internacionalização do periódico”, seja lá o que for isso. Há um vibrante caso nacional bastante “reconhecido”, mas que não é possível encontrar qualquer artigo de lá ser citado externamente, mesmo em referências circulares. É o ÚNICO periódico no Brasil (de qualquer área) que se tornou A1 em menos de 10 anos de existência.

O caso a ser aqui exposto remete a recente invasão de doutorandas, doutorandos, doutoras, doutores e docentes universitários de antropologia, normalmente auto-declarados como “antropólogas e antropólogos” em revistas de graduação de cursos de ciências sociais e áreas afins.

Hoje, recebi, via facebook, o novo número de certa revista de alunos de graduação, de uma universidade razoavelmente reconhecida enquanto “centro de produção de conhecimento antropológico” no Brasil.

Primeiro ponto: Uma revista de graduação com DOIS dossiês no mesmo número. Raras são as revistas de larga existência que conseguem tamanha quantidade de artigos concentradas em um só número. Sendo que a estrutura administrativa da revista sugere algo como “a Comissão Editorial será composta por no máximo quinze alunos da graduação que tenham completado o primeiro ano do curso e que estejam no máximo em seu primeiro ano do mestrado. Todos devem ser estudantes da UFSCar.

Segundo ponto: Os artigos, aceitos: “Serão aceitos artigos de alunos graduação de qualquer curso e Universidade, desde que adequados a linha editorial da revista, ou seja, dentro de uma das três grandes áreas que compõem as Ciências Sociais ou das duas áreas afins (Economia e História).” O que claramente refere as autorias do primeiro dossiê que consta com: SEIS docentes de instituições federais, um da USP e a orientanda (de doutorado) de uma das partes docentes já citadas. Situação que claramente é MUITO similar ao observado no segundo dossiê, onde é possível identificar que se trata de: 1 doutor (como organizador do dossiê, o que por si é questionável, mas compreensível) além de que TODOS os demais artigos são escritos por 9 discentes de graduação (e normalmente aos pares e majoritariamente da UFSCar). Já na sessão de artigos de temática livre constam 8 discentes de graduação, 2 recém-graduadas (e vejam só, em co-autoria entre si), e praticamente todos são externos à UFSCar. Há ainda uma resenha que está lá após a queda de um paraquedas, mas que aqui não será comentada, para evitar o desvio de foco.

A minha interpretação é clara: Este dossiê (sobre antropologia da ciência) foi arrancado de outra revista qualquer (provavelmente devido ao longo calendário de espera para ser publicado, e acredito se tratar de certa revista no nordeste brasileiro) e sobre os mais absurdos convites, convenceu alguém a incluir o dossiê neste número da revista.

Não bastou estas senhoras e senhores doutores em antropologia mafiosamente destruírem qualquer possibilidade de manutenção de um sistema minimamente interessado em produção e discussão antropológica, pois visam apenas garantir os seus aumentos salariais enquanto funcionários públicos, ainda conseguem promover o desfavor e destruir as mais básicas e minimamente acessíveis revistas de graduação da área. Colocar artigos de docentes universitários, aos montes, em um dossiê em uma revista de graduação vai ter impactos bastante questionáveis para a revista, além do óbvio precedente que gerou.

As partes discentes de graduação envolvidas, das duas uma, ou inocentes ao estratégico uso que estão sofrendo, ou integrantes intencionais ao processo, visando bolsas e aceites de mestrado. E isto será identificável, se e de acordo ao conteúdo da posição pública sobre a situação. O silêncio é conivência. Recomendo FORTEMENTE uma retratação e um selo de “artigo removido” no dossiê inteiro sobre antropologia da ciência. Apenas apagar os artigos não isentará de culpa. E defender a atitude, muito menos.

Aos docentes universitários que acreditam ser antropólogas ou antropólogos, lembro a todas e todos que o antropólogo e a antropóloga deveriam ABRIR as caixas-pretas e as instituições*, e não se aproveitar das condições ontológicas delas, explorando seus recursos individualmente. E muito menos auxiliar na criação de novas reproduções de cópias destas para benefício próprio. É por atitudes de pessoas como vocês que a antropologia ainda pode ser chamada como a filha bastarda da colonização. Eu nem vou entrar nas questões envolvendo abuso de poder e hierarquia, novas formas de colonização, e deturpação de valores acadêmicos.
*Pelo exageradamente exposto, repetidamente auto-declarado, e insalubre amor de wannabe-antropólogas/os por Latour e Deleuze eu penso que não preciso citar as referências.

Fonte: Mural do facebook e experiências prévias como parecerista, editor e autor.

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