O último dia de aula

A triple A (AAA, American Anthropological Association) costuma (e gosta de) se autodeclarar (e também dizendo ser mundialmente reconhecida) como a maior associação nacional (ainda que seja mais internacional do que nacional…) de antropologia no planeta, e uma das mais antigas.

Assim acaba ignorando as reuniões e associações que ocorriam nos territórios que hoje são batizados e reconhecidos como Alemanha, China, Egito, França, Índia, Inglaterra, Itália, Japão, México e Rússia, ou até Espanha e Portugal, há no mínimo um século, também.

Ainda hoje, poucos dos novos países constituídos podem tentar competir em número (de pagantes de dízimo) com a triple A. É o caso, por exemplo, da Índia, da China, da Rússia, do Japão e do Brasil.

O que a tríplice aliança não costuma declarar (nem ser mundialmente reconhecida por) remete a como a antropologia estadunidense teve seu largo desenvolvimento envolto nos movimentos de sua presidência, um Ás da antropologia (até hoje), que “denunciou” uma série de “comunistas” durante os “esforços de guerra” e “esforços da nação”, que se resumiam a antropólogos, que estavam ausentes das fileiras de pagantes da associação (AAA), e que acabaram, veja só, desaparecidos, torturados, mortos ou perseguidos durante e após as grandes guerras mundiais. Este “desenvolvimento” pós entrega de persona non grata à associação pulverizou o país com novíssimos e caros departamentos de antropologia, “agradecendo” aos antropólogos e as antropólogas pelo seu esforço à (vitória estadunidense na) guerra [1].

[Fim da introdução para pessoas externas à alguma história de alguma antropologia]

Aí (hoje) a pessoa está dando uma aula de sociologia, falando sobre Marx (em uma aula sobre o Durkheim ~e eu nem ligo~), da importância do fim da herança, e de como essa herança não é apenas de terra ou de dinheiro, mas de acessos e direitos…

E essa pessoa, que sou, começa a citar e listar sobrenomes dos herdeiros das capitanias hereditárias brasileiras, e que hoje são deputados, governadores, e candidatos à presidência, e dos seus filhos, sobrinhos e genros, quase sempre nos masculinos, verdadeiros donos de estados brasileiros, e de como a herança pode ser além de $$ e ha. Fala em trono e sucessão. Parentesco na política, ou a política do parentesco.

E vão surgindo sobrenomes – alguns trazidos por discentes: Collor, Sarney, Neves, os mais comuns, e muito rapidamente chegam nos locais: Bornhausen, Amin, ainda falam do Bolsonaro, que resgato noutro momento, quando pergunto então sobre o nome do prefeito da capital mais próxima, e do pai deste, depois dos últimos prefeitos da cidade homônima à universidade, se eles tinham ou eram irmãos. Se já viajaram pra dirigir a capital, e assim a atenção é recuperada.

Passados uns minutos, alguém bate a porta, já é a segunda vez nesta sexta-feira chuvosa que somos interrompidos. Na primeira foi o CRA-SC [2] querendo vender dízimos à futuros administradores de empresas, pois criaram um cargo de “administrador júnior”, onde me lembrou as categorias de estudantes e pós-graduandos de certas associações privadas e políticas de antropologia. Mas quem bateu agora ouve apenas um estático e automático ruído dizendo que “podem entrar”, seguido de risos de alunas e alunos. Eles não entram, nem mesmo tentam abrir a porta. E antes eu estava falando de normas de conduta social e moralidade. Quem bate segue alguma. Inútil. Quase. Eu abro a porta.

É a Polícia Militar, aquela que dizem ser filhote da ditadura brasileira, tem ali mais de um soldado. Estão armados. Possuem algemas. Mas eles sempre tem. São quase 10 horas da noite, em uma universidade pública, semivazia, é uma sexta-feira escura e chuvosa, em pleno golpe de Estado, uma aula de sociologia, falando de Marx (no “dia” de Durkheim), o cenário estava pronto. É melhor que certos seriados do Netflix [3]. A universidade é municipal, então procuro pela guarda homônima, não está. Mandaram direto os PMs. Podia ser a federal, pelo menos a prisão teria TV e colchões. Talvez sushi ou chocolate.

E veio junto dos policiais o “chefe da segurança local”, e é este quem pergunta: “Esta é a aula do professor de sociologia Jefferson Virgílio?” e eu faço que sim com a cabeça, já sabendo que o pior viria a seguir, e imediatamente colocando as mãos para trás. Nem penso em resistir. E penso comigo duas coisas: “que a sexta-feira 13 foi na semana passada”, e que ainda “não me arrependia de liberar os celulares na sala quando estes é que provavelmente me denunciaram, pois creio que a história há de me libertar”.

Quando um dos policiais remove um pequeno papel do bolso, está todo amassado, molhado, parece borrado. E começa a tentar ler o rascunho. A letra não é sua provavelmente. Ele fala qualquer coisa que não decodifico corretamente. Apenas escuto “O senhor está preso por crime de comunismo”. Apenas penso, “Pelo menos não chamaram de petismo nem lulopetismo” ou “nem me filiei em bosta alguma, como me acharam?, nem vermelho eu uso pra não dar pinta. Deve ser porque alguns amigos salvam meu e-mail como Bakunin [4].”

Na verdade ele disse outra coisa, e eu peço para repetir, ainda de olhos saltados, e rosto em plena produção de suor no frio catarina, e ele repete “MMX 1324 (nunca vou esquecer a placa verdadeira, esta é simbólica), Ford Ka branco, placa de Florianópolis, é seu?”.

Não é. Não tenho carro. Ele não sabe disso, e continua: “Você deixou um papel com nome e telefone para ligar em caso de urgência, aquela vaga é do padre. O telefone está incompleto. O padre tem que estacionar, pois as outras vagas estão cheias por causa do bingo que acontece na igreja. Por favor, tire o carro de lá”.

Eu apenas digo que não tenho carro, nem celular, e os convido para entrar na sala se desejam questionar os alunos. Alguma lição (do fim) da ditadura (militar) ficou, eles não ousaram entrar na sala. Perguntaram do corredor. Não era da minha turma. Não há outro homônimo ao terceiro presidente dos Estados Unidos ali. Agradecem e pacificamente vão embora. Eu sobrevivi.

Ainda bem que não sofremos um golpe de Estado. Ainda bem. E esta foi apenas uma história de ficção. Se tivessemos sofrido, talvez a ABA faria como a AAA e liberasse uma lista de persona non grata. Aquelas e aqueles que não pagam as anuidades. Mesmo recebendo dezenas de e-mails de cobranças. também liberariam na lista os nomes de quem critica farsantes se passando por antropólogas e antropólogos. E a esta altura teríamos tantos departamentos de antropologia como nos Estados Unidos, e antropólogos sendo perseguidos, mortos e torturados. E eu não teria acabado aquele dia de aula.

Também teríamos antropólogas surdas produzindo textos ditos etnográficos com relatos de presos de guerra japoneses obtidos sob tortura em uma idioma que desconhecem. Não ouso pensar o que substituiria o crisântemo no título, mas penso que a katana japonesa provavelmente seria substituída por uma flecha ameríndia. De guerreiros indígenas, que como os samurais já não existem mais. Ninguém quer que eles existam além de na capa de livros, em quadros na parede e debaixo da terra. Se possível, que mantenham os artefatos de cerâmica. Museus e os ditos patrimônios materiais não se constroem sozinhos.

 

[1] Se houver interesse, procurar por “anthropology OR AAA AND war effort OR ww2” no google.

[2] Conselho Regional de Administração do estado de Santa Catarina.

[3] Sim, é DO Netflix. É um canal. No masculino.

[4] Recomendo consultar: http://goo.gl/gYe6wH

Fonte: Reflexão originalmente publicada no facebook.

E-mail para críticas, contatos, comentários e sugestões: [email protected]