Terra deu, terra come1

O desterrado em sua trajetória cria elementos de resistências, aparatos simbólicos e pontes de comunicação com seu passado e futuro. Portais cósmicos, fontes vivas de água, yuyos curativos que ascendem seu papel enquanto exílio e banimento. Estar-se em exílio é criar internamente fronteiras. O desterro, que pode ser lugar de isolamento, também pode ser o lugar da calmaria. É também a força legal de imposição de permanência, é a força do Estado que lhe impõe a condição de exilado. Nessa dualidade, a textualidade encarna-se, e essa experiência – ao mesmo tempo interna e coletiva – forma fluxos de caminho, espaço e lugar de suas vivências.

O documentário Terra deu, Terra come (2010), de Rodrio Siqueira, propõe uma mirada que agrega a leitura do desterro como ponto de mutação entre lugar, espaço e memória. Na narrativa fílmica, esse diálogo configura uma reflexão que está na proposta central desse artigo. Pois é, na leitura via conceitos como representação social, identidade e  lugar que entende-se a força política das imagens do documentário. O filme mostra o funeral do personagem João Batista, morto aos 120 anos. Uma cerimônia conduzida por Pedro de Alexina, 81 anos, que expõe uma criação contínuo aos que esperam a padronização documental de registro. Seu Pedro, transcende a memória do espaço geográfico no interior de Minas Gerais, e na sua condição de quilombola – de heranças e afirmações – expõe outra narrativa para os enredos do documentário. A metafísica, a dúvida, a apresentação dialógica, o passado, e futuro, são fontes do registro visual que pontua, ao espectador, perguntas sobre formação identitária.

Seu Pedro, como centralizador da narrativa, conduz um tempo e espaço de uma história que na maioria das vezes não foi sua – a sua própria vida. Pedro teve o pai morto por envenenamento, sete dias depois de seu nascimento, nasceu em débito, herdando do pai uma divida de 7 mil réis. E na sua auto-construção, e representação, embasa-se e traz a criatividade e o diálogo com outros mundos para contar um pouco de si. Que já não é mais um corpo único, ele como um dos remanescentes e resistentes à História, traz consigo uma relação interiorizada dos seus antepassados. A palavra se aninha em Pedro. É um homem que usa uma máscara para “incorporar” o João Batista – o Corpo-Bananeira – para falar dos seus medos, para dissimular lembranças, para pensar em ouros e diamantes, para imitar o tio falecido.

Cerimônia, morte, vida, cânticos, palavra e silêncios fontes de vivências enterradas. E nota-se que enterrar é algo recorrente nesse roteiro, cria uma linearidade e costura a morte, a bananeira, o corpo, os diamantes, a memória, o conhecimento, e o silenciamento. Botar-se abaixo da terra é garantir a vida, como quando os negros que enterravam diamantes “no tempo da Rainha” para sobreviver e não serem degolados. O enterro é o descanso que não se teve em vida, é a última dose da pinga oferecida ao defunto para a eternidade, é o começo do fim de outra história. É a divisão transcendental, é enterrar a bananeira para ludibriar “o Bicho”, uma planta-raiz, em troca do corpo mundano. São os sumiços de corpos negros escravizados no período escravocrata, são os sumiços ocasionados pela polícia em plena democracia. Enterrar, soterrar, abafar, silenciar. Conhecimentos e ancestralidades, e uma escolha de sentenciar: “Era perigoso chamar atenção”, diz Seu Pedro. Sabido desses conhecimentos, Pedro de Alexina deixou o diretor relatar no letreiro final: “Pedro fez questão de enterrá-las sob a ambiguidade que transita verdade, memória e fantasia”.

A força política na representação de Terra deu, Terra come reside na possibilidade de registro atual de uma vivência que cria elos múltiplos com um passado histórico e residente na força memorialística dos sujeitos do espaço registrado. Uma espacialidade que possuiu canto, cor e memória viva.

Notas

[1] Trecho do trabalho: Território de desterro: o efeito político nas imagens de Terra Deu, Terra Come”.