O tango que Ada cantava

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A primeira vez que vi Ada, não sabia quem era Ada. Sabia que era a única mulher na contracapa de um disco da coleção da minha vó. Ada numa foto em preto e branco, entre cinco outros cantores de tango. Sendo a única mulher naquela coletânea, era centralizada em si a dramaticidade que o tango tanto dissipa. Quando conheci o tango, ele só fez sentido ao encontrar a tez de Ada. O rosto que me faltava para entender o que se traduzia em melodias e letras.

Ada, nessa foto, com lábios negros, bem desenhados, em close, com uma pinta charmosa na bochecha, a tez branca e os olhos – numa mescla entre suplicante e esperançoso. Uma captura entre o choro e a pré-tensão antes do sorriso. Aqueles olhos na foto buscavam uma coisa além, e a busca tornou-se elemento central de sua vida.

Ada Falcón (1905-2002), desde os 19 anos vivia de sua voz, e ao participar do iniciante cinema argentino, foi a condição que faltava para torná-la uma musa de sua época. Um período de vida tomado de fama, conquistas, glória, dinheiro e amores. Ana Vidal Egea, descreve: “cómo diez años sacuden una vida de más de noventa”. E foi nesse curto período, mais precisamente em 1942, que Ada resolveu matar Ada. Nesse momento de abdicação que Ada Falcón se dividiu em Ada-personagem e Ada-sujeito.

O documentário “Yo no sé qué me han hecho tus ojos” (2003), dirigido por Sergio Wolf e Lorena Muñoz, traz Wolf como diretor/detetive/periodista. Pode-se enquadrar o filme, segundo Bill Nichols, como uma mescla entre o modo participativo (com a marcada participação da equipe de filmagem na gravação), e o modo reflexivo (no qual se evidencia a pré-produção, e a relação dentro das filmagens). O contar uma história a partir do nada é ser forçado a aceitar o fracasso e as diversidades. E o documentário abre as cortinas para esses percalços em torno da investigação sobre o paradeiro de Ada Falcón. Casas e pessoas que não existem, filmes perdidos, gravações extraviadas, etc..Tudo isso exposto e contado como fonte do trabalho.

A busca de Wolf, é também reconstruir uma cidade, um país. O país de Ada-personagem não existe mais e a busca por mapas, referências, pontos físicos para a partida, são dilacerados pela outra existência que se deu nesses lugares. A memória é física, é pessoal, é modo lícito de esquecimentos, trocas e bromas que a nossa própria mente nos propicia. Todas as pessoas ouvidas trazem suas memórias, todos trazem caminhos para reconstruir Ada-personagem, entretanto ninguém consegue confirmar nada, somente as películas da época e a música confirmam a vivência da cantora. E onde se alicerça a busca do diretor. Desse modo, afirma-se através de Myrian Sepúlveda dos Santos: “A memória, portanto, excede o escopo da mente humana, do corpo, do aparelho sensitivo e motor e do tempo físico, pois ela também é o resultado de si mesma; ela é objetivada em representações, rituais, textos e comemorações” – Ela está um pouco além de fragmentos e indícios. O que livra o documentário da imposição da bandeira da “verdade”, transcende essa falsa objetividade, e traz a sensibilidade como tonante de sua narrativa. Diego Braude, destaca: “El film es la búsqueda de lo perdido. Al tango más glamoroso de esa década, la película le opone un tango melancólico, el suyo. No es tristeza, pero es una mirada sobre una ciudad que fue, frente a otra que es… y pese a cierta mirada crítica, hay más que nada el aire de la diferencia, del cambio. Porque así como las arenas del tiempo se llevan los ladrillos y los ojos de antaño, también se llevarán los que ahora se creen eternos”.

Ver história da reclusão de Ada Falcón é rememorar os reclusos e excêntricos da literatura, como Cidadão Kane de Orson Welles, e principalmente Dulce Veiga de Caio Fernando Abreu. A história da busca pela cantora Dulce Veiga, narrada por Abreu, tem um simulacro muito próximo de Ada. Atravessa os limites, se torna uma busca obcecada, deixa de ser a história do personagem para tornar-se a história do autor (dos diretores no caso de Ada), todos com um caráter muito pessoal e emocional de construção. E é uma história sobre a busca, na percepção de um tempo paralelo, ao interior físico e mental, a busca sendo o mesmo que a utopia é para Galeano – a busca que faz caminhar. Assim como o personagem central fez, Ada-sujeito foi em busca de Deus, de sua mãe, de Córdoba, de um lugar que lhe acolhesse.

Ao assistir o decorrer da peregrinação da busca, ao passar o tempo, a cada dica que o diretor recebe, quanto mais se acerca de Ada-sujeito, o filme traz uma sensação de incredulidade sobre seus passos – uma tática narrativa. Não como forma e meios de feitura do documentário e seu posicionamento sobre a história, mas como uma referência ao processo de desvelar histórias. Aos minutos que se aproximava de um encontro preeminente com Ada-sujeito, surgia a sensação que uma vida como tal não poderia existir, ou ainda, que o encontro não era mais necessário – rever e ouvir Ada Falcón foi como embaralhar a memória, os sentidos, e as tentativas de elucidar na imaginação aquela cantora, com aquela tez que eu via num disco velho da minha vó.