A existência da velhice

Toda sociedade tende a viver, a sobreviver; exalta o vigor e a fecundidade, ligados à juventude; teme o desgaste e a esterilidade da velhice (BEAUVOIR, Simone de. A velhice)  Alcançar o fundamento interno de reorganização espacial, transgredir a disparidades do corpo, destruir criações e heranças emotivas e memorialísticas, conviver com a solitude, se emancipar,  se desconhecer, se reinventar. Envelhecer é ação da disputa derradeira – apesar de tantas outras ditas essenciais durante toda existência –, pois é corpo que teima em abrir os olhos, em pulsar, e despertar como signo de resistência. Beauvoir (1990) credita à sociedade uma visão que conduz ao fim, no não reconhecimento d@ idos@. E em contradição...

Documentário “Belo Monte: Depois da Inundação”

Abordando aspectos de resistência e dos impactos socioambientais de mais este gigante do progresso que chegou onde antes havia paz e harmonia entre a sociobiodiversidade, o documentário “Belo Monte: depois da inundação”, dirigido pelo premiado cineasta Todd Southgate, proporciona uma importante reflexão sobre os caminhos distintos que, na última década, levaram à efetiva implantação, construção e funcionamento da quarta maior usina hidrelétrica do planeta. Apresentando um histórico do desenvolvimento do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte desde meados dos anos 2000, a produção ressalta as evidências de abusos de poder e descumprimentos legais presentes em todo o processo. Foram interesses políticos e econômicos que permitiram que o projeto prosseguisse mesmo com...

Terra deu, terra come1

O desterrado em sua trajetória cria elementos de resistências, aparatos simbólicos e pontes de comunicação com seu passado e futuro. Portais cósmicos, fontes vivas de água, yuyos curativos que ascendem seu papel enquanto exílio e banimento. Estar-se em exílio é criar internamente fronteiras. O desterro, que pode ser lugar de isolamento, também pode ser o lugar da calmaria. É também a força legal de imposição de permanência, é a força do Estado que lhe impõe a condição de exilado. Nessa dualidade, a textualidade encarna-se, e essa experiência – ao mesmo tempo interna e coletiva – forma fluxos de caminho, espaço e lugar de suas vivências. O documentário Terra deu, Terra...

108: Memória, afeto e vazio

A morte e um roupeiro vazio, são os elementos que projetam o roteiro de Cuchillo de Palo de Renate Costa. A marca da ausência física, só não é maior que as respostas, e incógnitas que seu tio Rodolfo deixou. Para sobrinha, sobrou apenas o recontar, de maneira íntima, a história de mais uma vítima que a ditadura deixou na América Latina. Em sua narrativa, o documentário revive de dentro para fora a ditadura paraguaia.  É contando, ou melhor, reconstruindo a memória do tio homossexual que se percebe a dedicação que a repressão de Stroessner realizou nesse grupo. Um olhar para trás, remexendo no armário vazio da memória de vizinhos e...