A síndrome do impostor é definitivamente algo a se considerar. Algumas considerações para estudantes de pós-graduação não se sentirem externos à academia

Rachel Herrmann [1] [2]

Ao meu passado, enquanto estudante de pós-graduação,

No último verão eu escrevi uma carta sobre todas as coisas que eu queria que você soubesse quando iniciou a pós-graduação, mas eu fiz uma gigantesca omissão: A síndrome do impostor. Isso me ocorreu quando eu conversei com um novo estudante de pós-graduação neste outono e que descrevia a síndrome do impostor sem saber o que ela era, ou que muitos estudantes de pós-graduação passavam por isso. Assim, eu decidi escrever para você outra carta para lhe dizer o que é a síndrome do impostor, por que ela é importante, e o que você pode fazer sobre isso.

A síndrome do impostor é o sentimento de que você não faz parte – em um curso de pós-graduação ou em seu primeiro emprego acadêmico, ou mesmo fora da academia – e isto é mais comum do que você pode imaginar. Isto faz com que as pessoas acreditem que eles não são boas o suficiente, não são inteligentes o suficiente, ou merecedoras de reconhecimento pelos seus trabalhos.

Você pode até mesmo ter utilizado o Google procurando por certas frases, como por exemplo: “não pertenço à pós-graduação”, ou “devo abandonar a pós-graduação?”, ou “por que a pós-graduação faz as pessoas infelizes?”, sem perceber que você estava sofrendo da síndrome de impostor. Eu incluí essas perguntas específicas aqui para que futuros estudantes de pós-graduação que usem o Google possam descobrir mais rapidamente que a síndrome do impostor é algo a se considerar. Esta descoberta é particularmente importante para as mulheres, pessoas não-brancas e estudantes universitários de primeira geração[3], porque todos esses grupos são particularmente propensos a síndrome do impostor.

Estou escrevendo esta carta para você agora porque é nesta época do ano[4] que grandes quantidades de sintomas da síndrome do impostor podem surgir. Talvez você tenha feito um ou dois exames de avaliação, e talvez você tenha um artigo pendente para publicar ou atrasado para entregas. Eu tenho certeza de que algum dia você já se sentou em um seminário acadêmico para assistir ele e mentalizou a vontade de fugir.

Existem alguns bons ensaios publicados, que são aplicáveis tanto para estudantes de mestrado como de doutorado. No entanto, estudantes, no combate à síndrome do impostor, aqui estão algumas coisas adicionais que você pode fazer para combatê-lo:

Seja honesto quando você não sabe algo. Eu lembro de ir para casa depois de um dos meus primeiros seminários de pós-graduação, e de lá para o Google e procurar por “pós-colonialismo” porque eu me senti muito estúpida para admitir que eu não sabia o que era, e que, mesmo depois de uma semana de leituras sobre o tema, eu não podia defini-lo. Não seja como eu. Se você não sabe ou não entende alguma coisa, as chances são de que outras pessoas em sua turma estejas também confusas. Tente evitar um encontro de seminário em que você e o professor tenham uma conversa privada estendida na frente de todos, mas é absolutamente positivo se a sua contribuição ao seminário tomar a forma de uma pergunta, ao invés de um comentário.

Assista as reuniões departamentais onde são apresentados artigos. Fazer isto pode ser bom por três razões: Primeiro, uma das melhores maneiras de combater a síndrome do impostor é reforçar[5] um sentimento de pertença e as conversas departamentais permitem que você veja como os acadêmicos se apresentam enquanto tais. Observe os comportamentos que parecem ser melhor recebidos. Em segundo lugar, algumas dessas conversas não são surpreendentes, o que pode ser reconfortante. Ela lembra que a barra de auto-apresentação acadêmica autoritária pode ser menor do que você pensa que é. Finalmente, você precisa de uma folga de sua própria pesquisa, de suas leituras, e da própria escrita de vez em quando. Indo a uma conferência pode ser uma boa maneira de garantir que você invista tempo em seu cérebro para algo além de seu próprio trabalho de pesquisa.

Viva um pouco. Participe em atividades extracurriculares, encontre passatempos, ou entre no Twitter. Este conselho se enquadra no famoso “equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar”, ao qual tantos acadêmicos se referem. Isso é importante porque permitirá que você construa uma rede de apoio onde outros estudantes de pós-graduação podem (e vão) admitir que estão vivendo a síndrome do impostor.

Então, meu passado, enquanto estudante de pós-graduação, essas são algumas das coisas que eu acho que alunos de pós-graduação podem fazer para exterminar o monstro da síndrome do impostor. Mas depois de refletir sobre a minha conversa com aquele novo aluno de pós-graduação, eu também tenho pensado sobre as coisas que eu posso fazer para ajudar os alunos de pós-graduação à lutar contra esta fera. Entre eles:

Demonstrar que está OK alterar de ideia. Os historiadores[6] podem, e de fato o fazem, voltar a um antigo pedaço de escrita que eles publicaram e, em seguida, escrever um novo artigo ou livro admitindo que o pensamento sobre mudou – algumas vezes drasticamente. Eu suponho que cientistas façam o mesmo. Manter essa opção em mente pode ser reconfortante, porque ela impede que você se prenda à um trabalho para sempre apenas porque você está com receio por não poder,  querer ou ter de mudar de ideia. Ao mesmo tempo, é também crucial lembrar que toda a nossa escrita e pensamento são processos que levam tempo. Assim, uma das coisas que eu tento fazer com os alunos de pós-graduação é deixar claro que tomar o tempo necessário para chegar as ideias em primeiro lugar e, apenas depois disso, revisitar os seus argumentos do passado, porque são duas coisas diferentes.

Mostre a eles o seu trabalho. Eu tenho conversado pelo Twitter com pessoas que enviei vários rascunhos de artigos meus que estive escrevendo. Além de comentários feitos sobre a leitura de relatórios, ou de comentários de editores sobre estes materiais. Talvez conversando sobre o rascunho final de seu artigo com seus alunos. Isto torna visível para eles a quantidade de trabalho necessária para produzir um artigo e revela os comentários que algumas vezes podem ser feitos mesmo contra acadêmicos experientes, fazendo-lhes sentir como impostores. Eu tinha um professor de história na pós-graduação que publicou um livro e, em seguida, disse aos alunos para encontrar um dos artigos prévios dele e escrever um ensaio comparando o livro com o artigo. Este foi um exercício útil para vermos como o pensamento evolui; isto revelou uma cortina por trás da produtividade acadêmica.

Promova você mesmo o assunto sobre a síndrome do impostor. É importante, quando você tiver alunos recém-chegados à pós-graduação, tenha uma conversa no começo ou meio do semestre sobre a síndrome do impostor. Deixe-os saber o que é, que existe, e que este tipo de sentimento não se limita aos estudantes de pós-graduação – que muitos acadêmicos continuam a se sentir como impostores por muito tempo, mesmo depois de acabar e defender o doutorado. Tire algum tempo para pesquisar os serviços de saúde mental disponíveis para alunos de pós-graduação em sua universidade e lembre os alunos que não há vergonha em ir falar com alguém quando se sentir deprimido ou em depressão. Ao final do semestre, ou talvez até do ano, lembre os alunos de pós-graduação como eles se sentiram no início de seu tempo na pós-graduação, e sugira que eles tentem ter conversas semelhantes sobre a síndrome do impostor com os novos e futuros alunos de pós-graduação que vão chegar.

Apoie e suporte os seus estagiários docentes[7]. Há algo sobre a primeira experiência de ensino de estudantes de pós-graduação que desencadeia sentimentos de vulnerabilidade ou não-pertença porque eles são frequentemente muito próximos em idade aos alunos de graduação. Se você tiver a sorte de ter um estagiário docente, deixe seus alunos saberem que seu estagiário docente pode e deve examinar qualquer peça de trabalho que os alunos solicitarem reavaliações e que tem a autoridade (concedida por você) para diminuir a sua nota, bem como para aumentar. Você não tem que impor essa política, e você pode optar por examinar o material sozinho, se lhe convir, mas é sua função apoiar e preservar publicamente o estagiário docente na frente dos alunos de graduação.

Modele um bom comportamento acadêmico. É imperativo ser honesto quando você não sabe a resposta a uma pergunta ou não está familiarizado com um tópico. Isto soa como uma tarefa simples, mas eu me lembro como foi revelador quando, enquanto uma estudante de pós-graduação avançada, eu testemunhei uma professora no início de sua carreira admitir que não sabia algo em um grande seminário acadêmico público, antes de colocar a sua pergunta para o orador do seminário. Eu fiquei tão feliz por ela, porque eu também não sabia do que falava o locutor – e a pergunta da professora, formulada de uma maneira tão generosa, permitiu o esclarecimento do orador a seguir. Mais importante, no entanto, isto me fez perceber que fingir saber algo é um mau exemplo para os estudantes de pós-graduação e pode encerrar o aprendizado em vez de promovê-lo.

Mantenha o equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar. Faça isto explicitamente discutindo maneiras para que os alunos possam ler mais estrategicamente e reduzir o tempo de leitura ineficiente. Faça-o através da adoção de uma política de comunicações por e-mail onde você não responde mensagens durante o fim de semana, por exemplo, e incentive o seu estagiário docente para usar uma política semelhante com seus alunos. Faça-o explicitando sobre como você tira um tempo fora da academia neste período (é por isso que eu posto deliberadamente no Twitter sobre cozinhar ou ir em passeios de bicicleta). Em suma, aja de tal modo que mostre aos alunos que as pessoas que relaxam e levam tempo longe de sua pesquisa e escrita não são impostores; elas são humanas.

Espero que tudo isto faça sentido, meu passado, enquanto estudante de pós-graduação, e que você faça o que puder para evitar que se sinta um impostor no futuro. Esse sentimento pode nunca ir embora, mas talvez seja útil saber que muitos de nós também sentem isso.

Chocolate, luz do sol, e pão recentemente cozido, futuro eu.

Notas

[1] O texto é originalmente publicado em inglês no portal “The chronicle of higher education”. Publicado em português com a autorização da autora. Tradução realizada por Jefferson Virgílio para a Revista Iberoamérica Social.

[2] Drª Rachel Herrmann é leitora em “história da idade moderna americana” na faculdade de humanidades da Universidade de Southampton.

[3] N.T. Estudantes de primeira geração não possuem pais ou mães que tenham qualquer faculdade ou curso superior.

[4] N.T. O texto é publicado originalmente no início do ano letivo, quando grupos de novos estudantes chegam à pós-graduação. Tentou-se respeitar o calendário brasileiro de 2017. Uma republicação do texto pode ser considerada, em espanhol, para o calendário europeu, iniciando em setembro ou outubro deste mesmo ano.

[5] N.T. O termo utilizado pela autora é fake. Pode soar contraditório “falsificar” um sentimento de pertença para combater o sentimento de não-pertença, no entanto o texto é uma redução de um pensamento maior, onde a proposta é “enganar o pensamento que está enganado, para este se esclarecer que está enganado”. Por isto a opção por “reforçar”.

[6] N.T. O texto é publicado por uma historiadora e possui diálogo com leitores e leitoras da história, mas com mínimas reflexões sobre é aplicável à quase qualquer área de pesquisa, notadamente das ciências sociais e humanas.

[7] N.T. Teaching assistants no original. No Brasil o mais próximo são os estagiários docentes. Alguns países os chamam simplesmente por TA ou assistente/auxiliar de ensino.