Ricardo Benzaquen de Araújo, um professor

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Sem dúvida, a maior contribuição de Ricardo Benzaquen de Araújo (1952-2017), para as ciências humanas, num Brasil pouco afeito ao passado e dado à adjetivação, foi a de revalorizar Gilberto Freyre e sua obra, principalmente Casa-grande & Senzala.

De fato, passei a entendê-lo melhor após ler sua tese escrita entre 1987 e 1993, no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na contramão de muitos acadêmicos que excluíam Gilberto, reduzindo-o a simples defensor do regime militar, Ricardo fez uma leitura ousada ao mostrar como a valorização dos antagonismos seria fundamental para entender esse pensador.

Ricardo, aliás, nos ensinou a ler o mundo e a valorizar suas contradições. Ele, inclusive, prezava mais os antagonismos do que as sínteses. Isso, a meu ver, já é suficiente para evocar a trajetória desse intelectual, que foi um professor tão fundamental para a minha e outras tantas formações.

Numa parte do meu doutorado, por algum motivo, tive o privilégio de tê-lo como orientador. Quando iniciei essa etapa, com vinte e quatro anos, Ricardo proporcionou um ponto de inflexão no meu amadurecimento intelectual. Por isso, a convivência com ele está entre as melhores experiências que, até hoje, o mundo acadêmico me proporcionou.

Assistir aos cursos ministrados por Ricardo era algo fantástico. Refinamento, humor e ironia e outras coisas mais caracterizavam suas aulas. Kant, Humboldt, Burckhardt, Huizinga, Katorowickz e, claro, Simmel foram alguns dos pensadores que li, e conheci, porque Ricardo foi meu professor.

Gostaria de escrever algo mais consistente sobre ele, mas nada disso me parece suficiente neste momento onde a perda faz a mim e tantos outros ziguezaguear melancolicamente numa existência que, por hoje, só hoje, parece ser menos antagônica.

Talvez, para concluir, se no mundo público a maior contribuição de Ricardo foi resgatar a obra de Gilberto, na minha vida, ele ensinou que não devemos ter medo das experiências antropofágicas, isto é, aquilo que passa a nos devorar quando a alegria deixa de ser a prova dos nove. Afinal, a partir delas a gente pode escolher aquilo que irá ou não nos compor.

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