Reciprocidades entre antropologias brasileiras e portuguesas

Hoje, em algum momento entre a tarde e a noite, em algum lugar onde algumas pessoas permitem praticar alguma antropologia em certa universidade pública brasileira, eu apresento publicamente a defesa de uma dissertação de mestrado.

Há inclusão ali dumas teses sobre e em antropologia social. A tese maior, além de tratar de alguns ditos pós-colonialismos, escritos em português, fala de alguma história da antropologia portuguesa, alguma coisa da homônima brasileira, mas principalmente, sugere qualquer coisa como um tal conjunto de reciprocidades[1] entre as antropologias brasileiras e portuguesas, e esta feita por partes componentes de ambas, sejam agentes humanos ou instituições.

Apresento abaixo, o post scriptum da dissertação, que assim como o prefácio, o posfácio, entre outras partes, são daquelas coisas que fazem parte, mas não fazem, do texto final da dissertação[2]:


Imagine agora, se certo acadêmico de antropologia, dito aqui graduando brasileiro, cerca de três ou quatro anos passados, resolve investir em uma mobilidade acadêmica, para um país terceiro, denominado português. Está ele caminhando atrás de uma tal antropologia aplicada, e de uma antropologia dita biológica. Ambas que não existem no Brasil. São proibidas.

E que após o levantamento de toda a documentação solicitada, falta-lhe um papel, com uma assinatura. Alguém precisa lhe orientar um trabalho de conclusão de curso. Ninguém quer lhe orientar. Bate a porta de uma senhora, que não sabe que daqui há quatro anos ele estará escrevendo sobre esta situação. Nem ele. Ela aceita assinar, sem saber que esta mobilidade lhe garantirá a orientação do primeiro graduado em antropologia de toda a universidade.

Há, no entanto, um gabinete, aqui chamado de secretaria, de relações internacionais, brasileiro, que acaba por esquecer de encaminhar a documentação, e sugira ao respectivo aluno, encaminhar, por conta própria, ele mesmo, e estabelecer os contatos. Alega que do outro lado, ninguém atende ao telefone. Há fuso-horário, fator este desconhecido por este gabinete, que durante uma greve somente telefona em um dos períodos. No final da tarde. Quando já é noite em Lisboa.

O acadêmico então, busca a coordenadora de curso de graduação, encontra uma docente que lhe diz, ter contatos em Portugal, mas é de outra universidade, não da Nova[3], não sabe se lhe será útil. Há trocas de e-mails, um senhor que estuda e pratica performances em Portugal, assim como aquela docente, é quem lhe responde, com dados de contato. Diretamente do departamento de antropologia. Ele tem contatos lá.

Este senhor jamais imaginaria ser entrevistado por este rapaz passados outros três anos. Ainda mais sendo o primeiro de uma lista de mais de uma dúzia de pessoas procuradas. O primogênito. Essencial.

O jovem acadêmico, após gastar uns tantos reais, já convertidos em euros, via Skype, consegue contato. A ligação é horrível, mas ambos os lados se esforçam em fazer compreender. Descobre que há duas secretarias de relações internacionais na mesma universidade. É aquela divisão entre as ciências sociais e humanas, e a reitoria, já vista em um certo congresso. Minutos de leituras atrás[4]. Há umas tantas trocas de informações, e descobre-se o óbvio:

Nunca houve contato completo partido do Brasil, e a Universidade Nova de Lisboa enviou seguidas e exatas doze mensagens de fax para o Brasil. Recebeu doze mensagens de erro. O fax brasileiro está sempre desligado no verão. É muito barulhento. Irrita quando ligado junto com o ar-condicionado. E hoje em dia todos entram em contato apenas por e-mail. Bastava então manter este último atualizado. Não está.

O aluno é quem implora um aceite. O prazo está vencido. Se for aceite não poderá ficar na residência universitária. Aquela mesma que irá residir passados outros dezoito meses do fim de sua primeira e longa estadia, por outros onze meses.

Há um e-mail, escrito em português europeu, diz que aceita o acadêmico, desde que haja alguém sendo responsabilizado, quer um pedido de desculpas formal. Necessita de carimbos e nomes. Há então uma resposta, em português brasileiro, alegando que foi uma estagiária, desconhecia os procedimentos. Já agora conhece. Há cópias de muitas pessoas, dizem valorizar a parceria com esta universidade. Há acordos, farão uma parceria. Coordenarão um projeto entre América Latina e Europa, o tal que vai garantir, veja só, uma bolsa de 1000 euros por mês para o acadêmico passados um ano e meio, em outra seleção, já enquanto estudante de mestrado. É possível que o acordo não saísse se não houvesse briga. É ainda mais possível que não houvesse bolsa, se não fosse a primeira ida, sem bolsa.

Aquele professor de antropologia da performance, jamais imaginaria que ao ir, com um outro, para o Brasil, dar aulas iria encontrar lá um casal, de antropólogos a trabalhar com temas próximos, da performance, que ali nasceria uma parceria de grupos de trabalho, e até de um livro. Que daria entrevistas, para aquele jovem que nem conhecia e ajudou a ir a Portugal, muito tempo antes de o encontrar.

Assim como uma destas professoras, não imaginava, que ao ceder a casa a dois colegas de fora, um destes é quem salvaria a mobilidade do orientando de uma delas, anos depois. E a outra, presidiria a banca de mestrado do rapaz.

Assim como, aquele casal de docentes não imaginavam, que ao apoiar a ideia, maluca, daquelas professoras em enviar pessoas do Brasil para Portugal e receber gente de Portugal no Brasil, sem bolsa, apenas mantendo os salários, poderia lhe render trabalhos e parcerias tão frutíferos em tão breve período.

Imagine agora saber, que na verdade a semente da proposta foi viável graças a outra senhora, que na altura era coordenadora da pós-graduação, ficou sabendo que um antropólogo de Portugal viria ao Brasil, quinze anos antes da data em que ela faz parte da banca de defesa deste acadêmico. E esta senhora, ao estabelecer contato, ofereceu uma tarde de conversa, numa sala no departamento. Algo informal. Pensava em estabelecer acordos. Ainda sem grandes pretensões.

E que este antropólogo, foi outro que gostou muito quando este acadêmico apareceu em Lisboa, vestia uma camisa com o nome da universidade, e ai o senhor perguntou desta senhora, e também de outras duas, casadas, hoje já são titulares. As primeiras do departamento.

Uma delas, como disse, está na banca, substituindo a outra, que está de licença. Que é a mesma que abriu a porta aquele dia para o jovem e futuro antropólogo. O primeiro da UFSC. E estas duas senhoras, juntas, foram quem se prontificaram a, em uma tarde em Lisboa, conversando com outra pessoa, sugerir essa ida e vinda de portugueses e brasileiros.

Foram elas quem ofereceram a casa, delas, onde ficaram hospedados aqueles dois estudiosos da performance. Aquele professor, companheiro da ex-coordenadora, agora é também parte desta banca de defesa, muito, graças a uma visita que recentemente fez a Lisboa, para visitar aqueles professores, que conheceu quando vieram dar aulas no Brasil.

Aquele senhor, o primeiro a chegar na ilha da magia, também veio cá dar aulas, mas veio sozinho, não em duplas, como foram dois pro Brasil, ou como dois seniors foram enviados a Portugal. É como aquela senhora, que agora está de licença, foi a Portugal, sozinha.

Sozinho também foi o acadêmico, nas duas idas a Portugal. E na segunda escreve sobre a primeira. E sobre a segunda. Faz uma etnografia, ou tenta, destas relações.

Agora imagine se aquela senhora, quinze anos atrás não convidasse aquele antropólogo português, ou que ele não fosse à reunião, ou que ele não aceitasse conceder a entrevista aquele estudante brasileiro. Nem ele nem as outras partes todas[5].

 

Fonte: Entrevistas realizadas durante a minha pesquisa em Portugal entre 2012 e 2015.

E-mail para críticas, contatos, comentários e sugestões: [email protected].

[1] Teoria apresentada no livro “Ensaio sobre a dádiva”, de Marcel Mauss.

[2] Em futuro próximo informo um link para acesso a dissertação completa.

[3] Universidade Nova de Lisboa, especificamente a FCSH-UNL. Maiores informações em www.fcsh.unl.pt..

[4] Há descrição de uma situação conflituosa entre as partes em dado trecho da dissertação. Dispensável aqui recuperar.

[5] Foram feitas entrevistas longas com mais de dez antropólogas e antropólogos de reconhecimento elevado em Portugal durante a pesquisa. Há uma proposta para publicação destas entrevistas, em futuro próximo, sem data certa, aqui, na iberoamericasocial.com.