rebeca lane: “ver além das fronteiras que me impuseram”

nascida em 1984, na cidade da guatemala, rebeca eunice vargas ganhou o nome que tinha sido de sua tia, morta por soldados do exército guatemalteco durante a guerra que matou milhares de outros seres humanos entre 1960 e 1996.
adotou o nome artístico de rebeca lane (lane, sim, aquela dos beatles) e seguiu seu caminho sendo atriz-poeta-socióloga-ativista-anarquista-feminista. e rapper. vem circulando pelo mundo com seu rap carregado de contundências, de indignações, mas também de delicadezas e de luz, de lutas. integra os coletivos “somos guerreras” e “somos mujeres, somos hiphop”, que atuam em rede e desenvolvem diversas ações dedicadas à formação, à troca de experiências, à criação artística e à intervenção política centrada nas mulheres.
rebeca tem feito ao longo destes anos diversas parcerias e você pode conferir muitas delas nos belos vídeos que circulam pelo youtube. em março de 2015 participou, junto a diversas outras rappers latino-americanas, do cd somos mujeres, somos hip hop, cujo vídeo oficial você confere aqui.
rebeca lançou também dois outros trabalhos: seu primeiro ep canto está disponível para download aqui e em fevereiro deste ano lançou poesia venenosa, realizado em parceria com o produtor juliano huertas e que conta com diversas outras parcerias.

confira a seguir a conversa que latitudes latinas teve em março deste ano com esta nossa nova e querida amiga.

pra começar: quem vem antes? a socióloga, a atriz, a militante ou vem todas juntas?

eu acho que aparecem todas juntas. eu venho de uma família militante de esquerda, mas também como muito interesse pela arte. então eu tive acesso desde muito pequena à música trova, a livros do boom latino-americano. então precisamente por eles terem tido essa formação de esquerda nos educaram de forma muito diferente do resto das minhas amigas, por exemplo, as que estudavam no mesmo lugar que eu.
a irmã do meu pai foi sequestrada e desaparecida pelo exército da guatemala, em 1981. então dentro da família a questão da guerra é uma coisa que sempre foi vivida de uma forma muito presente, sentida na pele. então daí é de onde vem o nosso ativismo político, a luta, quer dizer, nunca crescemos vendo-a [a guerra] como algo separado.
mas aos 12 anos, quando os acordos de paz na guatemala foram assinados e a guerra se deu por terminada (embora 20 depois saibamos que é uma farsa), se começou a falar e a chamar guerra, talvez de uma forma incipiente. então a partir dos 12 anos comecei a pesquisar, (aí começou o lance da socióloga), para estudar isso da guerra, né? “o que aconteceu?” “quem estava envolvido?” inclusive na minha família, sendo de esquerda, era um tema sobre o qual não se falava, sobretudo por medo. e pelo que aconteceu com minha tia, se você falasse disso, poderia morrer, né? então a partir dessa idade eu comecei a pesquisar por minha conta. e mais ou menos aos 15 ou 16 anos eu comecei com o ativismo político em coletivos. tem um coletivo que se chama “hijos” [filhos], que são filhos e filhas pela identidade e justiça contra o esquecimento e o silêncio, que são familiares ou pessoas que foram exiladas precisamente pela guerra. então nossa luta era pela recuperação da nossa memória histórica. bom… para mim, a militância nesses coletivos me levou a outros coletivos mais anti-imperialistas, anarquistas e, há unos 10 anos atrás, começamos uma militância muito forte de jovens dentro da cidade, que é uma coisa muito importante, porque na guerra mataram muitos líderes jovens. e por isso nos falta toda uma geração. então quase que começamos do zero. e isso também é interessante porque depois da assinatura dos acordos de paz, também se começa a dar uma abertura para que se criem organizações de jovens em torno a outras categorias que não fossem as do materialismo dialético. ou seja, não perguntávamos se era trabalhador, se era camponês, se era não sei que categoria…
começou-se a se formar movimentos mais artísticos, como o movimento do rock dos anos 90 e princípio dos 2000; e no começo dos anos 2000 começou a articular-se a cultura hip hop. mas junto com a cultura hip hop também começou um movimento muito forte de teatro e também de poesia. então, somos uma geração que começa a recuperar as ruas de diferentes maneiras, seja pelo ativismo, pelo muralismo político, por marchas e até por shows, competições de break dance, peças de teatro, eventos de poesia, etc. começa a haver uma evolução de muita arte e eu sou dessa geração, que pude ver crescer tudo isso. então na verdade um pouco de cada uma dessas coisas são parte do que me formou.
comecei a escrever poesia desde pequena, mas mais comprometida já há uns oito anos, que é também quando assumo minha própria identidade, porque me colocaram o nome da minha tia. então eu cresci muito à sombra dela, da guerrilheira heróica que deu a sua vida e tal… e ela também era poeta. então havia muita comparação. quando eu assumo o nome de rebeca lane, para mim é como assumir minha independência e começar a fazer as coisas da minha maneira. então comecei a fazer poesia e teatro enquanto estudava sociologia, e tudo isso ia dando um pouco mais de conteúdo a tudo o que eu estava fazendo. e quanto à poesia, eu comecei a fazer spoken word. e na cultura hip hop também precisamente na militância começamos a ouvir uma música diferente. quando começamos a escutar que havia protestos em ritmo de rap ou de ska, começamos a nos apropriar dessa música.

tenho duas questões. primeiro: na guatemala, o que se escutava de hip hop? ou seja, como você se aproxima do hip hop? a outra coisa é que historicamente o hip hop tem sido um espaço de homens, e muitas vezes, também bastante machista. então aqui na guatemala como é que foi se perfilando o hip hop não só feito por mulheres mas também feminista?

existem duas vias para o rap que se começou a escutar aqui: uma é a migração e outra os meios de comunicação. há muitos guatemaltecos que moram nos estados unidos e que estão dentro dos bairros que têm gangues e onde todo o movimento do hip hop é uma questão cultural e de sobrevivência nos bairros. então eles voltam à guatemala deportados e começam a trazer essa cultura. começam a trazer cypress hill, dr. dre, snoop dog, o mais comercial que se pode encontrar. mas eu me lembro sobretudo de um dos grupos que é o reporte ilegal, do méxico. foi trazido por um companheiro que estava exilado e ele, estando exilado, escutou o rap político e o trouxe para cá. depois comecei a escutar actitud maría marta, comecei a ir a fóruns sociais e coisas, assim, mais ativistas em nível latino-americano. então também começamos a conhecer ativistas de outros lugares. escutávamos makiza, que é um grupo do qual ana tijoux foi integrante, e assim foi como começamos a conhecer. escutávamos [a banda espanhola] ska-p também.
agora, o assunto das mulheres, na verdade, é muito mais recente. digamos que em 2012 foi quando comecei a aparecer na cena como artista – como ativista estava desde antes, só que não praticava nenhum elemento do hip hop. mas eu quase que só acompanhava, vendo, aprendendo e escrevendo sobre a cultura hip hop. então comecei conhecendo as meninas que estavam fazendo sobretudo rap, que foi o que comecei fazendo dentro do hip hop. e começamos a nos reunir, a conversar. organizaram um festival de hip hop de mulheres em nível centro-americano [festival hall of femme, nicarágua] que foi bastante interessante. em 2012 havia oito mulheres cantando. agora, não necessariamente são feministas. embora evidentemente elas em suas letras falam sobre o respeito às mulheres, elas não se posicionam politicamente desde o feminismo. eu acho que na américa central somos muito poucas. as que assumimos a música como uma postura política, na américa central, estamos majo & mafe, na nicarágua, e eu. também está gaby baca, uma roqueira com 15 anos de carreira que nos últimos anos tem se arriscado no rap. então as mulheres desse meio que abertamente nos chamamos feministas não são muitas, na verdade. 

nós estivemos até aqui nos enfocando muito mais no papel das mcs. mas dentro do que você tem acompanhando na américa central e do seu próprio trabalho, como você vê o movimento do hip hop feito por mulheres na américa central no que se refere aos outros elementos do hip hop [break dance, grafitti, etc]?

na realidade, a américa central é um caso especial, porque no resto dos países onde já existe uma cena há muito mais tempo, todas as cenas estão separadas. mas aqui na américa central continuamos tentando fomentar o hip hop como um movimento. tentamos trazer todos os elementos do hip hop. por exemplo, depois deste festival que houve em 2010 ou 2011, que aconteceu na guatemala, que foi a outra cara do hip hop, começaram a surgir outras propostas como o hall of femme, na nicarágua. também em honduras já produziram o primeiro festival de hip hop feminino. e, nestes festivais, juntamos todos os elementos, unimos grafitti, dj, beat box, breaking e rap. o único que as mulheres não fazemos – e estou muito orgulhosa disso – é a batalha de free style.

mas elas estão começando a acontecer…

não, eu acho que nenhuma de nós nos sentimos confortáveis com a forma como acontecem as batalhas de free style. é super machista, super misógina, homofóbica. e, como mulher, se eu sou da cultura hip hop, e se vou a uma batalha me sinto super mal pelos meus companheiros cantando as besteiras que cantam. a cultura hip hop é uma cultura competitiva, mas, como uma amiga disse (e eu adorei): “ela é minha adversária mas não minha rival”. eu acho que há um ou dois anos atrás as mulheres não falávamos dos mesmos temas que agora.as feministas já estamos mais presentes dentro dos debates. porque temos que dizer também que dentro da américa central as feministas têm se aproximado da cena hip hop de mulheres de uma forma bem respeitosa, escutando, aprendendo, mas também contribuindo. e isso também tem gerado uma transformação nas próprias meninas. há um ano atrás me encontrava com elas no hall of femme e elas tinham medo de nomear o machismo. e quando vem nakury, que é outra companheira da costa rica, que também tem um trabalho muito importante sobre as mulheres, as meninas nos escutavam falar sobre isso e algumas delas nos olhavam com caras meio deslocadas.
um ano depois as b-girls na costa rica estão fazendo uma montagem de teatro e break para falar de como elas têm superado o machismo dentro da própria cultura hip hip. então quando percebemos que não somos as únicas loucas, reconhecemos que “já havia acontecido isso comigo antes mas não entendia que era machismo”, “meu namorado que me conheceu dançando break agora não quer que ninguém me veja”. então quando começamos a nomeá-lo, mudam as atitudes. é muito difícil deixar de lado a competição e os egos em uma cultura urbana e na cultura social em geral, né? é muito patriarcal isso de ser a “melhor”, mas sem dúvidas as mulheres quando falamos que isso existe e que é um problema dentro de nós mulheres, muito facilmente conseguimos entender como nos desfazermos dessas coisas.
então, o fato de que não haja batalhas dentro do hip hop, para mim, é uma luta feminista dentro do hip hop. ou seja, isso é diferente no break dance, que aí sim tem competição, mas a linguagem corporal é muito diferente da linguagem verbal. então quando eu com a linguagem verbal estou insultando o meu oponente, estou rebaixando a toda cultura hip hop. e eu acho que nisso as mulheres temos sido conscientes que é importante, já que estamos promovendo mudanças na cultura.
estive agora no começo de fevereiro no festival union break, na costa rica, e tivemos uma discussão muito forte no espaço de formação de rap. houve espaços educativos, e nós, as mulheres, falamos para os homens que não gostamos do que eles falam nas batalhas de free style. e os homens meditando e nos escutando. então isso é uma luta do feminismo dentro das linhas do hip hop. nós mesmas, ao gerar um movimento e uma voz mais potente de “não sou a única louca que diz isso”, as pessoas estão vendo que somos 100 mulheres dentro do movimento do hip hop na américa central, que não estamos sozinhas. então começa justamente esta ação em conjunto. já se estão promovendo mudanças dentro da cultura em geral. já não é tão fácil que um homem venha e te diga uma coisa machista porque já sabe que “atrás de mim há muitas mais”. eles olham isso como uma força coletiva. lamentavelmente, se não vêem que você tem a mesma potência que eles, não te respeitam do mesmo jeito.

você já adiantou alguns desafios e algumas conquistas… que balanço você faz – como militante e também como artista – do que está acompanhando? porque você está preparando um encontro que vai também nessa direção…

sim, eu vejo que precisamente porque não temos nada, nós nos entregamos de cabeça. na américa central não tem indústria musical, não tem gravadoras, todas as gravadoras que existem são independentes, muitas delas são pequenas, não tem distribuidoras. ou seja, aqui não tem indústria musical. então podemos dizer que isso não está a nosso favor. mas, na verdade, eu vejo isso como uma oportunidade. podemos criar – e estamos criando – um mercado de música alternativa. e mais do que um mercado (eu, às vezes, utilizo essa palavra para convencer), mas mais do que mercado, o que estamos criando são redes. e isso é muito importante. eu, por exemplo, tenho uma outra companheira/cantora que vem de mérida (méxico) viajando de bicicleta com seu violão no ombro. eu a conheci aqui [na guatemala] e desde este momento comecei a orientá-la e a colocá-la em contato com outras companheiras de outros países. e assim elas a acolhem e organizam shows e tal. então estamos gerando redes para além dos espaços ativistas. já estamos incorporando a arte. porque também há na américa central uma tradição de esquerda muito conservadora, como todos os movimentos que alguma vez foram marxistas, leninistas. esta foi a maior influência na américa central dos movimentos políticos de esquerda: que não conseguiam vislumbrar a arte como um espaço de transformação social. mas agora se está criando essa conexão. e uma conexão muito importante é o feminismo. então eu acho que na américa central as mulheres têm tido um peso muito importante nesse sentido. porque o que nós mulheres estamos construindo em nível de redes não se vê em qualquer outro movimento a nível regional. é muito importante.
o encontro que eu estou fomentando se chama “somos guerreras”, é o que venho construindo um pouco na prática, que foi começar a percorrer a américa central e começar a criar esse tipo de redes. eu acho que o objetivo disso é, sobretudo, que como região comecemos a nos unificar. porque, falando em termos de indústria musical, os países da américa central são tão pequenos que não representam oportunidades para ninguém. isso eu comentava com alguns companheiros artistas: “por que não podemos viver de arte na américa central?” porque se você tem um público na guatemala, isso vai te gerar dinheiro.isso se você trabalha bem, se tem uma boa produção e se realiza bons eventos.mas não é o suficiente para sobreviver. mas se você apresenta o seu disco na guatemala, em el salvador, em honduras, talvez você vai conseguir a mesma quantidade de público e estes mesmos dez shows já vão ser suficientes para você se manter. então, o “somos guerreras” quer também abrir as oportunidades para que as meninas se dêem conta da possibilidade de autogerir a arte. eu já estou há dois anos vivendo da música. obviamente não sobra dinheiro, mas também não falta. e isso já é suficiente. sempre tenho uma casa onde ir, sempre tenho um prato de comida, tenho um teto, sempre tenho uma apresentação, então isso já é suficiente. sinto que precisamente por se tratarem de países onde não tem uma indústria cultural não podemos aspirar ser como nicki minaj, e talvez nem nos interessa. mas definitivamente existem formas de sobrevivência para a arte, criando redes independentes e autônomas. então eu acho que precisamente já estamos construindo. só precisamos um pouco mais de articulação.

eu gostaria que você desenvolvesse um pouco mais essa ideia de que você se sente mais centro-americana do que guatemalteca.

bom, olha, a guatemala é um país muito conflitivo politicamente. o ideário do nacional está associado ao militar. desde os inícios, as repúblicas centro-americanas têm sido governadas por militares, por latifundiários. então são estados patriarcais, mas absolutamente militarizados. eu nunca me senti orgulhosa de ser guatemalteca porque o “ser guatemalteca” é uma nacionalidade militarizada, imposta. a bandeira, o hino, o escudo de armas, o juramento à bandeira, todos são mecanismos utilizados pelas nações para que as pessoas defendam os territórios para as oligarquias. ou seja, nunca para nós. e sobretudo na guatemala o que o exército fez não foi defender o país de ameaças estrangeiras, mas sim matar a própria gente da guatemala. então eu nunca me senti orgulhosa de ser guatemalteca nesse sentido porque a nacionalidade guatemalteca é uma nacionalidade que nega o indígena, que nega o negro, que nega todas as culturas que temos. porque embora seja maia (aqui existem 23 idiomas maias), não podemos dizer nem sequer que o maia é único. além disso, convivemos com outras culturas, como a cultura hip hop e hibridismos entre a cosmovisão maia e a cultura hip hop. então, na realidade, o nacional para mim nunca foi visto como um plus. e viajando percebi a realidade de outras nacionalidades, além do militarizado, etcetera, que tem a ver com a formação do estado moderno. e por conta disso, da nacionalidade, nos isolaram em um território tão pequeno que você só conhece a realidade do que acontece dentro das suas fronteiras. mas quando você apaga as fronteiras e você olha para além do seu próprio país, você se dá conta que como região temos as mesmas problemáticas. além disso, nossas culturas são muito parecidas, embora em cada lugar você vê que falamos diferente, a comida é diferente… é um pedacinho de terra tão pequeno que tudo está em constante movimento. a américa central é um pedaço onde existe muito movimento de espécies e de pessoas. só na américa central existe 7% da biodiversidade do mundo. é uma região muito privilegiada. e em termos culturais também há muita circulação de significados, desde o norte, o sul e o que fazemos aqui.
então é um pouco disso, conseguir ver além das fronteiras que me impuseram e construir coisas regionais que me identifiquem. e que essa identidade centro-americana, por sorte, não tem sido politizada pela direita. os movimentos que iam em prol da união centro-americana estavam ligados muito mais com posições mais progressistas que as tradicionais de direita. então eu sinto que aqui e agora já não estamos falando de uma unificação de fronteiras mas sim de uma unificação cultural.

entrevista realizada por latitudes latinas em março de 2015 na cidade da guatemala. transcrição: rocío seco olmos; tradução para o português: polliana monteiro e lucy dale.

Fonte: http://latitudeslatinas.com/noticias/entrevista-rebeca-lane/