O presente que não existe, o silêncio que não se cala

O silêncio da espera. O silêncio no Deserto do Atacama, é o mesmo que no espaço sideral. Silêncio entre perdas e angústia. Silêncio do choro contido. Silêncio ao imaginar o momento findo, ou a vida nascente. Silêncio entre as palavras que engasgam. Como  também o silêncio encarregado de alimentar lutas internas, histórias de vida. Silêncio ao não ter resposta. E o intermitente silenciamento de um encobrimento.

Nostalgia da Luz, de Patrício Gúzman, adensa a reflexão sobre as representações do passado. Seguindo pela história chilena passa por tempos pré-colombianos, atravessa século XIX, cai na ditadura militar, e caminha até o céu atual mirando modernos telescópios e os barulhos dessa trajetória. Mas, conjugando essas histórias todas, existe um elemento circunscrito entre metáforas que mantém a concordância entre tempos distintos – o silêncio. Ele marca o tempo, os sentimentos, as dúvidas e o seguir dos protagonistas desse documentário de 2010. O silêncio como encruzilhada das buscas e respostas.

E o tempo, parceiro desse silêncio, sedimenta essas racionalizações, não como uma construção moderna na divisão entre emocional-racional, porém uma construção de um tempo outro. O tempo de duração do filme descobre um outro tempo-espaço para se situar. E anda pelas horas vagas de um presente que não existe – “vivemos sempre no passado” , afirma o astrônomo durante o documentário-, num passado que não se constituiu, e que se esfarela pela memória (imposta ou não). Portanto, o tempo fílmico se torna outro personagem para Gúzman – “A veces lo logra con ingenio (entendiendo esto como creatividad e intuición poética). A veces lo logra menos, con textos ásperos y un ritmo inconexo. Y hay otras veces, principalmente en relación a cuestiones visuales, en que definitivamente, no lo logra.”, afirma Catalina Valdés.

Guzmán tem como ponto de partida as suas memórias pessoais, e por isso em sua obra circula constantemente entre a ciência e as histórias do regime militar chileno; foi assim com Mi Julio Verne (2006), Salvador Allende (2004), El boton de Nacár (2015), El caso Pinochet (2001). A ditadura chilena violentou, aproximadamente, entre 28.000 e 40.000 pessoas, entre mortos e torturados, e multiplica-se pelas seqüelas em familiares, o exílio, etc. O exílio, se torna também uma ferida invisível dentro dos males da ditadura, a sua invisibilidade constituiu um trauma social que ainda precisa ser superado. Assim, fala M Elena Mendez em seu artigo “El exilio chileno, una herida invisible”, que nos auxilia na compreensão do impacto da violência militar na sociedade chilena – e que serve como reflexão para outros países no mesmo processo de aceitação, julgamento e resolução de suas feridas. Mendez diz: “La ideología de la dictadura categorizó al opositor, al exiliado como un traidor, un terrorista que merecía ser castigado. En esta visión estereotipada, el régimen dictatorial lograba justificar la represión y la violencia, para proteger a “los buenos”, los partidarios del régimen que deseaban “restablecer el orden y la normalización del país.” Hoy en día aún es posible encontrar estas visiones polarizadas cada vez que algún hecho noticioso vuelve a tocar las heridas del pasado, pareciendo imposible dialogar sin volver a caer en el prejuicio, la generalización, la evasión del tema o la descalificación agresiva”. Alguns exiladxs e filhxs de exilados estão na película, e só demonstra um recorte autoral na busca desse reencontro entre opinião pública, memória social e discurso ideológico tão necessários aos processos de desarquivamento de ditaduras.

Reencontro que é pautado pelo aprofundar, pelo cavoucar de terras e memórias – e algumas mulheres chilenas levam isso ao extremo. Mulheres em pleno deserto buscam restos de seus familiares desaparecidos pela ditadura, encontram fragmentos de ossos. Ossos, do mesmo cálcio que auxilia para identificar e monitorar estrelas. As mulheres com uma pá e esperança, os astrônomos com resignação e ciência. Essa, como tantas outras metáforas identificáveis no filme, José Carlos Avellar escreve: “Entre a obstinação trágica dos que buscam corpos de parentes “desaparecidos” durante a ditadura e a determinação metódica dos que estudam os corpos mumificados ou buscam sinais de corpos celestes, Nostalgia da Luz propõe o deserto como uma metáfora do tempo”. Todxs na ânsia por entendimento e compreensão de ações tão irreais, tão “inexplicáveis”, porém se não fosse a vida seria um filme.

O documentário do diretor chileno foi aclamado pela crítica internacional, e ganhou diversos prêmios. Um filme que quase ficou engavetado como disse Gúzman em conversa com o também documentarista Frederick Wiseman – “Yo llegué a pensar que el filme no valía nada porque ningún canal aprobó su ejecución . ¡ninguno!…Yo pensaba que yo era el único responsable directo de este fracaso que duró 4 años. Estuve muy cerca de abandonarlo. El problema es que la película tiene un costado metafísico, un costado místico o espiritual, un costado astronómico, un costado etnográfico y un costado político… ¿cómo explicar que los huesos humanos son iguales a ciertos asteroides? ¿cómo explicar que el calcio que tienen nuestros huesos es el mismo calcio que tienen las estrellas? ¿cómo explicar que las estrellas recién nacidas se forman con nuestros propios átomos al morirnos? ¿cómo explicar que Chile es el principal centro astronómico del mundo y que todavía hay un 60 por ciento de asesinatos sin aclarar de la dictadura? ¿cómo es posible que los astrónomos chilenos miren estrellas que están a millones de años luz en el pasado mientras los niños no pueden leer en los textos escolares lo que pasó en Chile hace apenas 30 años? ¿cómo explicar que innumerables cuerpos enterrados por los militares fueron desenterrados y arrojados al mar? ¿de qué manera explicar que el trabajo de una mujer que busca con sus manos en el desierto se parece al trabajo que hace un astrónomo?”, um Gúzman repleto de questionamentos prevaleceu sobre um outro (quase) silenciamento.

Esse é o “estado de busca” que um dos protagonistas ressalta, o “sopro” que destrói o presente, a luta diária para criação de significados, fomentar novos signos, reintroduzir novas narrativas. O documentário, como meio de registro desse passado, é fonte que assegura visibilidades. Nostalgia da Luz é mais uma fotografia em nosso álbum latino-americano.

“No debemos olvidar que, un país, una región, una ciudad, que no tiene cine documental, es como una familia sin álbum de fotografías (es decir, una comunidad sin imagen, sin memoria).”

Patrício Gúzman, Los autores y la subjetividad, 1998