Sobre o “plágio” de Alexandre de Moraes

Alexandre de Moraes é um dos juízes responsáveis (sim, há outro, que pode ser promovido também) por livrar as revelações feitas contra a Frozen brasileira de chegarem ao público, garantindo assim que ela possa trazer de volta os preciosos clubes de leitura (via reader’s digest version for first ladies) das primeiras-damas na prefeitura do Brasil. Dilma não mantinha e não podia ser primeira-dama.

Atualmente o nome deste juiz está em todos os telefones celulares no Brasil, onde 99,99% das pessoas que estão o criticando hoje, o conheceram nas últimas semanas. Nem mesmo quando foi nomeado ministro da justiça (e cidadania), tal reconhecimento precoce – novamente, graças a internet, diria Facebook -, havia acontecido.

Após a nada suspeita queda de um avião que, entre outras pessoas, carregava o relator da lava-jato (que aqui, vale lembrar, foi alterado apenas duas semanas após a primeira nomeação), que iria em poucos dias liberar uma lista com um ou outro nome de nobres senhores (de terra) de Brasília, há urgência por preencher a vaga de ministro no supremo.

Ainda que o respectivo processo tenha caído na mão de outro senhor, e com isso atrasado aí umas boas semanas (diria meses), Xande (se o Senado aprovar) ficará com a revisão (diria redação) final do texto. Um dos pontos sensíveis era, justamente quais as delações que seriam tornadas “públicas”, via os famosos acessos exclusivos que a próxima edição especial do Globo Repórter (e a versão na Record com Sérgio Chapelin ou similar) levariam as milhões de telas no Brasil.

Paralelamente a estes movimentos e reações, o outro Brasil, aquele online – que não assiste a Rede Globo [1] -, e que é especialista em investigações via google, wikipédia (e diria que 4chan), enquanto conta com MUITO tempo livre, descobriu um ou dois curiosos fatos sobre o nosso novo futuro ministro do supremo. Entre eles a capacidade deste de esquecer de citar autorias alheias em “obras” – e aqui muitas aspas naqueles sumário-repositórios-de-resumos-de-leis-nada-viciados-em-conteúdo -, que o fizeram um dos mais referenciados autores nas bibliografias de concursos públicos (para juízes e outros animais similares).

Esta situação entrou como uma luva para produzir um Alexandre de Moraes que pode não ser aprovado pelo senado [2] após a indicação de Michel Temer de seu nome para o STF. Está no mesmo nível das acusações feitas contra Dilmãe. Que a impediram. Dilma foi impedida acusada de crime de responsabilidade. Crime este que não impediu NENHUM governador no Brasil em período próximo.

Para o caso do Alexandre, em breve síntese, e sendo direto, agarram-se em uma exceção que já virou regra ou padrão há MUITO tempo e crucificam publicamente aquele que cometeu EXATAMENTE o mesmo que 9 entre dez “cientistas”, vulgo “redatores de artigos-tese” no Brasil.

Aqui eu recordo que eu fui professor por poucos anos em cursos de graduação e pós-graduação, tanto em cursos presenciais como à distância, neste período e até hoje eu fiz dezenas de avaliações ad hoc de artigos científicos, e não consigo contar na mão a quantidade de monografias que já revisei, formatei e inclusive re-escrevi para partes terceiras.

Posso afirmar que sem exceções, que nas quase dez diferentes turmas (foram algumas centenas de alunas e alunos, em três universidades diferentes), mais da metade dos materiais entregues como ensaios finais possuíam trechos de outras partes que não estavam “entre aspas” – e aqui citando a acusação principal contra o juiz -, mas que constavam nas obras de referência na bibliografia – idem -, indicando de fato alguma consulta à obra. Fora inclusive, por esta indicação, que não reprovei as partes, julgando não se tratar de plágio, mas sim de provável desconhecimento das normas de citação da ABNT [3].

Em outros casos a referência era oculta, na base da má fé, e nestes casos, com menor frequência os plágios eram intercalados entre múltiplas origens na inútil tentativa de confundir avaliadores e no grosso do restante dos casos sendo cópia literal de páginas em sequência, que nunca informavam as partes originais. Não raras vezes sendo autoplágio (e aí as conversões de mutilações de trechos de teses em “artigos” são estupidamente frequentes).

Os motivos que levaram meus alunos e alunas à apelar ao plágio podem ser diversos, e não me cabe julgar. Na primeira ocorrência eu sempre sugeria reescrever o material.

Quanto às monografias e aos artigos, de maneira geral, o que ocorre é a literal pseudo-reescrita de parágrafos inteiros de obras consultadas, de modo a preencher páginas, aumentar o tamanho do material, dar consistência. Eu sou ferrenho opositor a este modo de pseudo-produzir ciência ou reflexão crítica. A lógica dos mosaicos de citações não me agrada, e inclusive repudio-a.

Em vários casos, ao transcrever, traduzir, reduzir ou resumir trechos não é tão raro literalmente esquecer de incluir o “(SOBRENOME, ANO)” em um ou outro dos trechos. Dado que tais amputações-recortes-citações são feitos várias vezes para cada obra “consultada”, é comum que em um ou outro destes surjam as informações e em outros não.

Isto não isenta Alexandre de Moraes de não ter contratado um bom revisor [4] e não o distancia de quem não sabe o básico das normas da ABNT sobre citação. Agora isto é um argumento MUITO fraco pra impedir este de ser nomeado ministro. Seja do supremo, seja da justiça ou do que for.

O que quero dizer com isso? Que não faz o menor sentido a caça as bruxas ao Alexandre de Moraes  por isto, há razões suficientes para ele sem impedido de ser nomeado, como já citado aqui, e que com certeza já chegaram às timelines de todos os brasileiros, que independem de um crime de responsabilidade acadêmica. No desespero de impedir a nomeação estão literalmente apelando a tudo. Como fizeram aqueles que impediram Dilma, e que tentam até hoje prender ela e principalmente Lula.

O pior, é que 9 entre 10 pessoas que o estão literalmente com dedos em riste na direção de Alexandre por similares motivos, fizeram, fazem e provavelmente vão continuar fazendo exatamente o mesmo que ele. Em cada noturna escrita de trabalhos de classe, em cada sofrida rascunhada de tese, em cada tentativa de incrementar o número de páginas do artigo à submeter vão passar reescritas de trecho sem as referências.

Não gosto deste juiz. Não acho um bom nome para ministro, seja do que for, mas não é por ele não saber as regras da ABNT. Vocês também não as conhecem.

Notas

[1] Todas as notícias aqui utilizadas remetem a sites da Rede Globo intencionalmente para provocar alguma reflexão.

[2] Já havia fortes indícios de que Alexandre era apenas o nome a ser negado para garantir a idoneidade do processo de indicação (que aqui não vou desenvolver), pois aparentemente o interesse é nomear (novamente) Graça Mendonça para a vaga do STF (ou mais dificilmente e improvavelmente no Ministério da Justiça e Cidadania).

[3] Associação Brasileira de Normas Técnicas. Basicamente é a entidade responsável por definir normas e padrões diversos, entre eles a de escrita de trabalhos, acadêmicos ou não.

[4] Alex & friends, se precisar, eu cobro barato e entrego rápido.

Fontes: Sites de notícias e Facebook.
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