Pantomima

A pantomima, segundo o artista brasileiro Flávio de Carvalho, comprovaria que a escrita surgira antes da fala e se tornara para o homem do começo, o primitivo, um registro dos acontecimentos do passado feito com o seu corpo. O termo, que vem do grego pantómimos, evoca a imitação pela arte e nos recorda que, no princípio, havia uma afinidade secreta entre a palavra e a imagem. Esta se desdobrara nos ideogramas, hieróglifos, criptogramas e se manifesta no desenho, na poesia (mesmo na ocidental) e no cinema – em seu nascimento mudo e nos fotogramas, recortes de poses estagnadas que despertam a pulsão da imagem e o parentesco entre escrever e gesticular.

Ao designar-se como “Pantomima”, este blog refere-se ao propósito de recuperar os traços deixados pela constante transição entre a literatura e a arte, recusando-se a concebê-las como elementos puros e valorizando-as como pensamento. Assim, “Pantomima” procurará conduzir um espaço em que se divulgue a produção de intelectuais brasileiros e latino-americanos nessas áreas por meio de resenhas, traduções, entrevistas, notícias e ensaios. Pretende-se evidenciar, sempre que possível, o contato das reflexões aqui lançadas com as culturas europeias, alinhando este blog com a proposta da Iberoamérica social.

O gesto, componente da mímica, serve de “moeda de troca universal” e permanece no tempo, ainda que destituído do seu sentido primeiro, atravessando fronteiras como a revista Iberoamérica. Esse consiste, por conseguinte, em uma ação que se transmite por contágio, da qual ignoramos tanto a cronologia quanto o território oriundos. Para o folclorista Luís da Câmara Cascudo em História dos nossos gestos, assume o papel de “documento psicológico, normal e anormal da sinergia nervosa”; é uma sorte pathos, o qual não pertence propriamente a uma identidade específica, mas demonstra uma noção abrangente e híbrida de cultura, que se desloca em um mapa instável e tectônico.

Como vemos, a antropologia e as ciências sociais nos ensinam acerca da multiplicidade originária de um gesto. De acordo com a filosofia da arte desde Stéphane Mallarmé, o instante anterior ao movimento da mímica é como o encontro com a página branca no ato de escrever. Ora, não importa qual deles seja, se de cumprimento ou de despedida, todo gesto põe em cena um corpo antigo e desborda as margens do sujeito, evidenciando a retirada daquele que o executa. De modo semelhante, há um processo de separação entre quem escreve e o texto que dele/dela se desprende, como se fosse uma segunda pele. Pretendo, portanto, que a minha atuação em “Pantomima” conserve o caráter de interpretação, a qual pouco dirá a respeito daquela que se reporta ao leitor. Embora entenda que esta seja uma estratégia incomum em blogs, nesta “cena virtual”, desejo somente existir na materialidade vaga das palavras.