Os relatórios de estatísticas, as notícias dos jornalismos e as análises das ciências sociais

Ontem, em 2 de setembro, chegou a minha timeline no facebook uma notícia sobre um relatório com dados sobre os tipos de vítimas que sofrem violências em um específico estado brasileiro durante um recorte temporal. O título foi o que me chamou a atenção, e aqui reproduzo: “Mulher vítima de violência é parda* ou negra, tem de 25 a 44 anos de idade e não chegou ao Ensino Médio”.

Os problemas são vários:

O Brasil é dividido em 26 estados e um distrito federal. Por questões históricas e culturais, a diversidade entre estas demarcações geográficas, e mesmo internamente nos milhares de municípios brasileiros é enorme. São inúmeras as tentativas de generalizar ou reduzir o Brasil, cito por exemplo o livro de Roberto DaMatta “Carnavais, malandros e heróis” [1], que como os demais, passa longe de qualquer grande sucesso no encontro de uma “identidade nacional” brasileira. Assim, este tipo de relatório deve vir acompanhado da contextualização regional – e temporal. Sempre. O meio escolhido de divulgação desta informação é online, não há a menor possibilidade de controle ou limite ao escopo regional. Esta característica é fundamental de ser conhecida por quem divulga informações online.

Os dados remetem a registros de ocorrências sobre violências, que devem ser problematizados por si, pois do contrário não haveria mulheres divulgando as imagens de violências sofridas como forma de incentivar outras mulheres a fazer denúncias. Este tipo de informação remete a apenas um recorte, reduzidíssimo da realidade de violências sofrida pelas mulheres brasileiras. Mulheres de determinados grupos sociais, e aqui cito travestis e trans*, portadoras de deficiência, idosas, camadas sócio-economicas subalternas, e um sem fim número de mulheres em contextos familiares singulares dificilmente tem meios de realizar as denúncias, tem conhecimento sobre como proceder e/ou mesmo sobre a existência de órgãos como a casa da mulher brasileira.

Sobre as questões étnico-raciais há um ponto central, pois na tentativa de dar alguma ênfase às vítimas negras, e aqui há um agravante ao incentivar a comum fusão com as pardas, apaga-se a informação de que sim, as brancas registram MAIS que as negras. Ou, a possibilidade das próprias pardas e negras, ao registrarem, se declarem enquanto brancas e pardas. A questão da autodeclaração da raça em documentos “oficiais” seja um censo ou seja um registro na polícia, merecem atenção especial, já que não é realizada. E como já evidenciado, essas ausências de denúncias (como das mulheres idosas, das pessoas com deficiência e das travestis e trans*) devem ser enaltecidas e não desviadas da discussão.

A questão da idade deve ser destacada, pois, primeiro: menores de idade não registram as violências enquanto dependem de autorizações de responsáveis legais e aqui entram questões básicas sobre emancipação social. E segundo: Que a partir de determinada idade, tratam a violência recebida como “natural” ou mesmo “merecida”, em não raros casos sendo acusada de “destruir a família” ao denunciar o companheiro. Esta situação atinge níveis maiores de ausência de queixas conforme o avançar da idade por aspetos práticos de deslocamento as delegacias ou mesmo situações envolvendo diferentes tipos de vergonha perante a família e sociedade.

Além da baixa formação escolar ser característica predominante entre as ocorrências registradas, esse percentual deve ser ainda mais elevado se houver acesso as ocorrências não registradas, notadamente com mulheres mais velhas e em determinados contextos de limitada “urbanização”.

Por fim, a falta de destaque de que o agressor é na imensa parte dos casos companheiro ou ex-companheiro é a característica central, que somada a também completamente ignorada e evidente omissão de violências sexuais nos registros, precisam ser lidas em conjunto e principalmente sendo identificadas como sintomáticas, em um país onde se mantém uma premissa social de que “companheiro não comete crime de violência sexual”, já que tem eterno e permanente direito a conjunção carnal com a esposa.

O curioso mesmo, é que apesar do texto “jornalista” cometer uma elevada quantidade de deslizes, esses “erros” não aparecem, nem na mesma quantidade, nem na mesma proporção, no relatório disponibilizado no mesmo link. Mas sabemos todas e todos que as pessoas apenas compartilham os links, raramente leem os textos das notícias e muito menos um relatório sobre violência com as suas oitenta e tantas páginas.

Este tipo de maquiagem do periodismo nas mídias de grande e não limitada circulação promove situações de invisibilidades que culminam em eventos como a da jovem que publica fotos na internet para incentivar outras mulheres a fazer o mesmo, pois sabe que não fazem. Enquanto a mídia continuar a “reescrever as notícias” a tendência é a situação não apenas não melhorar, como as pessoas terem uma visão falsa e distorcida da realidade do próprio contexto que estão inseridas.

Se as estatísticas nos permitem atingir perspectivas quantitativas sobre a sociedade em produções como relatórios, são as notícias quem devem garantir que essas informações cheguem as pessoas, e cientistas sociais é que, na falta de jornalistas com posse de ética profissional mínima, quem acabam por investir demasiado tempo em revisar o que foi diabolicamente arquitetado para garantir a alienação mental e social das pessoas.

Referência

[1] DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco. 1997.

* A manutenção do termo pardo e derivações são apenas para não desviar ainda mais o significado intrínseco deste tipo de publicação. O uso de plurais em todo o texto é intencionalmente produzido.

Fonte: Secretaria de defesa social de Minas Gerais – Brasil.

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