O horizonte vagante

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Para quando percebemos a necessidade de andar, percebemos conjuntamente a necessidade de reconhecer. É a percepção que guia o estar pra fora, para iluminar o que está pra dentro. Ao centro dessas noções se manifesta a “desorientação”, na imagem daquela bússola que desfaz as convenções de norte e sul. Na mesma proporção que a identidade cambiante é forjada nos entre-lugares de um lugarejo que criamos arrodeados por influências que não precisam de nem de data, nem endereço e muito menos um número de identificação. Estamos em estado conflitual, expostos, fragmentados, mas ao mesmo tempo unificados em campos de reconhecimento, admiração e pluralidade.

Quando abrimos os olhos, os ouvidos e o peito estamos desbeiçando fronteiras (como diria meu avô quando saía para pescar na barranca do Rio Uruguai), e conjuntamente conciliando, revivendo e multiplicando o poderio político-cultural. Por isso nos tornamos vagantes, e entende-se que esse andar vagabundo é acolhedor em cada paragem que decidimos olhar e nos transmutar em gente que desmitifica linhas imaginárias de limitações, num povo que quebra o espaço-tempo e a relação corpo-território. Somos mais. Nesse transitar estamos redirecionando discursos, revelando a beleza vivaz, e abraçando o Outro como parte reconstituinte do que somos.

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Para falar sobre esses paradoxos e aproximações esse espaço escolheu como metáfora dessa vivência latina a produção audiovisual contemporânea. Focando a produção documental busca-se oferecer um mapeamento, com a contribuição dos leitores e outros colunistas, da análise contextualizada e crítica da criação dos novos diretores e diretoras que transitam pela América Latina.

Muito mais que realizar indicações meramente cinematográficas, o blog visa indicar o movimento sociocultural e as implicações de uma geração que preza pela diversidade e cria, atualmente, uma filmografia que abraça e reafirma a identidade latina. Questões como resistência e manutenção cultural, formação política, modos de representação, pesquisa antropológica, reconstituição histórica, entre outros, serão temas recorrentes nas análises. Buscando uma leitura interdisciplinar sobre cada assunto gerado por algum documentário que tenha sua centralidade nas ideias, no território e na gente da América Latina.

O blog contará com ensaios sobre documentários específicos, projetos especiais que levem em consideração o intercâmbio cultural, e entrevistas exclusivas montando o perfil de diferentes artistas. Para isso conta-se com a sua colaboração, caro leitor e leitora, para a troca de informações e principalmente a diversidade de olhares sobre os conceitos e documentários apresentados por aqui. Para tanto o blog estará aberto para contribuições e análises que você poderá enviar para somar na criação de uma rede de discussão e reflexão sobre a nossa identidade.

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Milongueando a invenção

linhafriaE para iniciar essa conversa sobre o documentário latinoamericano apresenta-se o documentário brasileiro – A linha fria do horizonte. Uma produção da Linha Fria Filmes, que tem a direção de Luciano Coelho.

A escolha desse documentário para iniciar esse blog se dá pela criação imaginária de um espaço territorial de aproximações criativas na região que cerceia o Rio da Prata, e demais espaços culturais ao Sur. Esse filme fala de território (e sua permeabilidade), através de uma das expressões artísticas que mais teve êxito no intercâmbio latinoamericano – a música . Esse tal lugar, que serve como mediação para o transcorrer do documentário, não possui linhas geográficas físicas, mas possuiu um hino na forma constitutiva da milonga entre experimentações, modernidades e tradições.

O documentário de Coelho traz o embate reflexivo sobre as miradas que alcançam uma geração de músicos que prezam em retratar sua paisagem e costumes de maneira unificada, sem qualquer “projeto estilístico”, prezando por sua capacidade maleável e natural, de projetar de maneira global-local a expressividade da música do sul. O que está contido nesse filme é a constatação de aparatos viventes pelas fronteiras do Brasil, Uruguai e Argentina em pulsar, de maneira criativa, uma unificação sócio-política que desde sempre tentou-se reconhecer. A película é uma transposição da tese defendida pelo geógrafo Lucas Panitz, no qual ele enlaça as maneiras de intercâmbio – nesses espaço geográfico – consentido pela música popular platina. Panitz apresenta alguns argumentos sobre o contexto dessa movimentação: “A partir da análise da conjuntura econômica e política, de uma maior integração dos países, via instituições supranacionais como o Mercosul, e aliado a isso, uma insatisfação com a falta de perspectivas para a reprodução plena de seu fazer musical distante dos grandes centros, os músicos propõem uma nova centralidade, um novo espaço de trocas para fugir duplamente aos grandes mercados de música comercial e à localização geográfica desses centros”[1].

Tendo como representações maiores dessa reflexão temos o uruguaio Jorge Drexler e o brasileiro Vitor Ramil. São através dos diálogos dos dois que percebemos que o embate e confluência dialética era forma de uma consciência representativa de todos os lados. Ramil e sua elaboração da Estética do Frio, é personagem foco da encruzilhada formada pelos músicos e suas produções. No filme, ele também torna-se elemento que traz o enfoque geral da produção – o que, de certa maneira, traz um desgaste na tentativa de representar um modelo (mesmo esse não sendo o objetivo de Ramil e demais músicos). Enquanto sua elaboração estilística, Ramil pendia em contraposição, na época onde a música ainda era controlada por um mercado e que sujeitava-se à uma indústria fonográfica. Foi desse embate que surgiu as “setes cidades da milonga”: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia. Se anteriormente Ramil buscava “o centro de outra história”, hoje os centros estão difusos – independente da história que se queira contar – e a internet tem grande impulso nessa característica. Não se tornando dependentes de um modelo estabelecido, a maneira de diálogo e criação desse grupo de artistas retratados possibilitam que a dinâmica entre-lugar seja multiplicada.

A milonga em sua formação híbrida desafia e compõe, juntamente com a personalidade fronteiriça de andar no limiar, na inquietude e profundidade, de sua ação como diáspora, como pensou Massimo Cavenacci[2], no qual se rompe a ordem racional e monológica de um discurso. É o sonoro discurso que aqui está exposto que vai falar da múltipla representação subjetiva que temos na região. E assim, na forma de reconhecer dificuldades e transpor barreiras amorfas de bandeiras políticas emboloradas em suas ações e pretensa originalidade. Está na cultura popular a função dialógica de mediação da pluralidade. Que aqui se apresenta como uma metáfora de uma paisagem em meio ao frio, com geada ao amanhecer, com um suavizito vento manso performático que se planta por uma telhado social na velha casa de nossos espaços multifacetados. Somos a paisagem da composição de um descampado, no contraste da interioridade dos nossos encontros e anseios comuns. O que é interessante notar que as composições desses músicos apresentados está uma infinidade de discursos sobre essa mesma paisagem que nos rodeia, são versões polifônicas sobre temas e paisagens repetitivas. É o pampa puro, é o céu que toca o horizonte, e que incessantemente precisamos revê-lo, porque ainda predominam os discursos românticos dessa representação. Como na vez que apresentei para minha namorada, que vinha da região central do Brasil, o bioma pampa. Na minha visão era a amplidão multifacetada, para ela foi a plantação, o agrotóxico e a monocultura destrutiva. Dessa conversa geográfica matou-se um mito. Precisamos estar atentados na mudanças e fundamentações que nos afetam e trazem novos paradigmas e representações.

A Linha Fria é um documentário que pensa, como disse Amir Labaki, provoca e inquieta. Rico em representação de uma contemporaneidade muito próxima, e ainda  auxilia na busca por entendimento político-cultural das regiões envolvidas e na projeção de artistas atentos  aos embates identitários.

Entretanto, como forma de contribuição deixo uma reflexão sobre a ausência da influência e dinamização da cultura negra dentro da produção autoral representada. Que teve a milonga como ritmo escolhido, esse mesmo ritmo que sofreu muitas agregações trazidas pela cultura afro principalmente na transposição rítmica do rural para o urbano. A concepção discursiva do documentário precisava de um enfoque, e foi escolhido dentro desse microorganismo, que também possuiu suas elitizações, exclusões e centralidade (mesmo sendo uma parte “periférica”). A parte que representa essa ausência está na aparição do músico Richard Serraria, reconhecido compositor de influência afro-gaúcha e que possuiu projetos como o Alabê Ôni  que traz a importância dos tambores para a discussão da música produzida no sul do Brasil. O compositor realiza seu depoimento, e ao mesmo tempo reconhece-se no canto do enquadramento, ao fundo, sem ganhar nenhum destaque ou citação, o tambor de sopapo representação maior da herança africana no Rio Grande do Sul. Essa apontamento serve somente para pensarmos nos tantos outros discursos que faltam para amalgamar uma integração real e não hegemônica. (Vale ainda ressaltar, além do grupo Alabê Ôni, existem outros artistas dessa região com olhos voltados para a garantia dessa representação como o trabalho Pontos, Rezas e Milongas da cantora Carolinne Camarão, o grupo de percussão La bomba de tiempo, e o trabalho que mistura ritmos tradicionais e música eletrônica de La Yegros).

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Em tempo:

O blog recomenda a nova plataforma online Retina Latina que possui um arquivo contemporâneo das produção audiovisual de seis entidades cinematográficas da América Latina (Consejo Nacional de Cinematografía de Bolivia-CONACINE, el Consejo Nacional de Cinematografía del Ecuador-CNCINE, la Dirección del Audiovisual, la Fonografía  y los Nuevos Medios del Ministerio de Cultura del Perú, el Instituto Mexicano de Cinematografía de México-IMCINE, el ICAU-Dirección del Cine y Audiovisual Nacional del Uruguay, y La Dirección de Cinematografía del Ministerio de Cultura de Colombia en la coordinación y secretaría técnica). O projeto visa conectar a cinematografia original dos países envolvidos com novos públicos, convidando-os para a criação de uma grande comunidade cinéfila latinoamericana.

A maioria das obras que serão analisadas nesse espaço contará com a disponibilidade online e gratuita dessa plataforma que auxiliará na difusão e no acesso a produção documental na América Latina.

Acesse: www.retinalatina.org

[1] Lucas Panitz – dissertação: Por uma geografia da música: o espaço geográfico da música popular platina – http://www.ufrgs.br/ppggea/pos/index.php?option=com_content&view=article&id=470:por-uma-geografia-da-musica-o-espaco-geografico-da-musica-popular-platina&catid=43:defesamestrado&Itemid=131

[2] Sincrétika – Explorações etnográficas sobre artes contemporâneas, Massimo Cavenacci – StudioNobel, 2013.