A Mano Limpia contra os medos

Finteo esquivo arremeto pie contra pie
mete cross mete rectos al mentón
Nadie espera por mí en el ring-side
el abuelo muerto grita lo que no debo hacer

(Poema: “Finteo, esquivo” – Juan Carlos Urtaza)

mano limpia

Uma academia para treinamentos e os bastidores do boxe amador no Chile são pano de fundo para o documentário A Mano Limpia, de Rodrigo Contreras. O filme que conta com depoimentos de pessoas que vivem o universo do boxe, e com um trabalho de som que cria paisagens sonoras interessantes, vai um pouco além das cordas do ringue.

Nas vozes em off quase não se ouve alguma reflexão sobre a vitória. Pois a luta principal, interna e externa dessas pessoas, é contra o medo e a falha. O que está impulsionando nos jovens boxers, ou nos veteranos treinadores, é fazer valer a frase motivacional na parede da academia: “Ganadores son los que estan dispuestos a hacer lo que los perdedores no hacen”. O que se pode  esperar e “negociar” por uma vitória? O que cada pessoa está disposta a colocar nessa disputa?

Nosso dia a dia é de luta, longe do milionário octógono ou do status do ringue. O cinturão é disputado em calçadas, nos telejornais, nas conversas informais, nas possíveis alianças, etc. A busca pela quebra da noção de ganhador e perdedor também traz uma consciência de integração, de ajustamento, compartilhamento e colaboração. Fazer o que alguns “ganhadores” fazem está revestido de uma luta moral e de valores.

Vivemos num estado em que o juiz sempre abre a contagem. Impulsionada para demonstrar que o nocaute irá acontecer a qualquer momento (ou já aconteceu e você nem percebeu). Em cada escolha, em cada reflexão percebe-se que o adversário está num dia melhor, com um movimento de pernas implacável e batendo forte em certas convicções. E ainda, nos refletimos perante a construção do medo social – e seu poder de formatação mediático -, conforme fala Carlos Escaño no seu artigo na edição nº V da Revista-red de estudios sociales.

Desse modo se apresenta a exposição das fronteiras do existir, mesmo que o seu medo seja proveniente de um formato de pensamento de um povo nativo da Amazônia.

Na guerra da resignificação luta-se contra a taxação perdedora que nos é imposta. Ora por discursos hegemônicos, ora pelo contra fluxo que nos impede visualizar nossas potencialidades internas. Realmente existe um autoboicote. Mas isso só confirma que atualmente vivenciamos um estado que nos joga nas cordas e nos coloca no limite.

Temos muito que aprender (e se juntar) a luta semântica e vivencial trazida por movimentos que quebram, com o mais forte jab, as noções derrotistas que nos são impostas. Movimentos como o feminista, indígena e negro trazem lições de como se instituir na concretude de sua representação social.

Sempre estamos na busca por uma compreensão da nossa própria incompletude… Um cuerpo-máquina que nega sua materialidade. Insistimos nessa concretude cambaia, e é nesse limiar que aprendemos a nos constituir (e corromper). O documentário expõe, em suas entrelinhas, a formalização faltante de nosso complexo. O boxe é a alegoria perfeita para quem apanha, enquanto nossa constituição, de diferentes maneiras de se formar vai se refazendo em cada treinamento, em cada pular de corda, nas palmas da mãos que socamos para aprender.