Halloween?

Tem sido vulgar desde há uns anos atrás a “comemoração” periódica do Halloween, (a esta altura do texto, quando se coloca a palavra em maiúscula, o corrector reconhece o vocábulo e retira o sublinhado a vermelho) desde os meios académicos portugueses até à mais vulgar celebração quotidiana. Secundado pelos professores da disciplina de Inglês do ensino secundário no seu trabalho de transmissão da cultura anglo-saxónica que os currículos obrigam, e ajudado por uma doutrina mediática situada num centro hegemónico de produção de estilos de vida, o Halloween é já para muitos uma “tradição”. O culto das bruxas na noite do dia 31 de Outubro de cada ano, a anteceder o Dia de Todos os Santos e Fiéis Defuntos, espalha-se com a força de uma novidade que a televisão consolidou e que muitos assumem como um dia de diversão, que se diz pleno de desordem porque as bruxas andam à solta, ora montadas em vassouras, ora disfarçadas de gatos pretos. Mas as referências culturais que favorecem esta comemoração merecem ser analisadas.

Por um lado, inconscientes, alienados ou desatentos de uma cultura que na sua oralidade contemplou desde sempre o diabolos, a desordem e o medo, instância psicanalítica que os arquétipos culturais confirmam pelas recolhas etnográficas um pouco por toda a Europa e a que Portugal não é excepção, os indivíduos traduzem nas práticas sociais por alturas deste período, as suas próprias interpretações do mundo, de classe, de escalão etário ou de modus vivendi, e essas referências simbólicas são bebidas directamente do tubo catódico, sua principal fonte de informação com todo aquele potencial de legitimar a realidade. E, nestas alturas, colocam chapéu preto com fivela, além de outras tantas roupas onde o negro é predominante, para além de, em muitos casos, a máscara ou o próprio disfarce incluir na sua ludicidade referências ao Carnaval: homens com cabeleira loira, dentes pintados, entre outros atributos. O Halloween é celebrado com esta pompa muito próxima das aparições carnavalescas.

Para muitos autores europeus, este período que se inicia em meados de Outubro e termina na Quarta-Feira de Cinzas, com morte simbólica na sua véspera com a Queima do Judas, do Galheiro ou do Pai da Fartura, o Enterro do Entrudo ou do Bacalhau a servirem de referência, representa o início das grandes comemorações do ciclo de Inverno nas sociedades de matriz rural que entretanto se vão desagregando por força das transformações sociais e demográficas. Contudo, a identificação não perece. Com efeito, é nesta ocasião que vemos os primeiros mascarados, as primeiras formalizações de inversão de status, as primeiras verbalizações indiscretas e bem audíveis, as primeiras atitudes exacerbadas. O Natal está próximo, e a vida colectiva irrompe em contemplação e vivência do obsceno e do grotesco, símbolos da inversão: não podemos esquecer que as bruxas surgem identificadas na literatura antropológica como Witchcraft, de Witch (bruxa em inglês) ou Sorciellerie, de Sorcielle (bruxa em francês), e as bruxarias são o resultado prático da sua intervenção, revelando, em simultâneo, algum ruído no parentesco ou a sua crise: são viúvas, solteiras, indigentes ou simplesmente em ruptura afectiva com o marido. Porém, subsiste a forma de olhar para estes símbolos que a televisão amplifica, estabelecendo novas dicotomias entre o rural e o urbano e reforçando o fosso entre o paganismo que é apropriado pelos urbanos e a urbanidade que os rurais desejam viver. Paradoxal, não é?